- Empresário assassinado em Guarulhos revelou corrupção e ligação entre policiais e PCC em delação.
- Policiais civis e militares acusados de envolvimento no assassinato e corrupção passiva.
- Oferta de R$ 3 milhões para matar Gritzbach foi feita por ligação com integrante do PCC.
- Material genético e deslocamentos indicam possível participação de PMs no crime.
- Júri dos policiais foi anulado, com defesa negando envolvimento e acusações.
A investigação sobre a morte de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, revelou relações entre integrantes das polícias Civil e Militar de São Paulo e membros do Primeiro Comando da Capital (PCC).
A partir da delação do empresário, investigadores identificaram relatos e elementos relacionados a corrupção, escolta ilegal, lavagem de dinheiro e ao próprio assassinato. O caso também resultou em processos contra policiais citados pelo delator.
Primeiro contato com policiais
Gritzbach afirmou que seu primeiro contato com policiais envolvidos na investigação ocorreu durante sua prisão temporária, em fevereiro de 2022. Segundo o delator, assim que entrou na viatura, o delegado Fábio Baena e o então chefe dos investigadores Eduardo Lopes Monteiro ligaram para o policial civil Marcelo Marques de Souza, conhecido como Bombom.
Gritzbach disse que a ligação tinha como objetivo comemorar uma “cana de milhões”. Bombom foi condenado, em setembro de 2025, a 11 anos e três meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, além da perda da função pública. A defesa recorreu e classificou a sentença como injusta.
Monteiro está preso, enquanto Baena foi solto em março. Os três negam as acusações feitas por Gritzbach. Segundo o delator, Monteiro também teria ligado, da sede do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), para um integrante da cúpula do PCC. Essa pessoa teria pedido que não fosse cometida uma “covardia” contra Gritzbach.
Policiais da escolta tinham relação com Monteiro
Antes de ingressar na Polícia Civil, Eduardo Monteiro havia trabalhado como policial militar no 18º Batalhão da PM. Os policiais militares que faziam a escolta pessoal de Gritzbach também pertenciam à unidade. Em depoimento à Polícia Federal, Monteiro afirmou que Gritzbach era um criminoso que teria participado de crimes envolvendo integrantes do PCC e atribuiu a ele a existência de conflitos com os policiais que o investigaram.
A defesa de Baena e Monteiro, representada pelo advogado Daniel Bialski, afirmou que Gritzbach criava elementos para sustentar sua narrativa. A relação entre a escolta e o núcleo acusado pela execução ainda foi objeto de investigação. Segundo a Folha, 15 PMs que atuavam na segurança pessoal de Gritzbach chegaram a ser presos e se tornaram réus, e 11 deles foram condenados pela Justiça Militar em outro processo.
Oferta de R$ 3 milhões para matar Gritzbach
Gritzbach também relatou que os policiais civis Valdenir Paulo de Almeida e Valmir Pinheiro estiveram em sua imobiliária, em 2021, interessados em um apartamento no Tatuapé. Após um sequestro sofrido pelo empresário, Valdenir teria entrado em contato e oferecido ajuda. Durante um encontro, ele teria recebido uma ligação do advogado Ahmed Hassan Salleh, conhecido como Mudi, que atuava para integrantes do alto escalão do PCC.
Segundo Gritzbach, Mudi teria oferecido R$ 3 milhões para que Valdenir o matasse. Em interrogatório, Mudi afirmou que, caso tivesse falado sobre o assunto, seria necessário ouvir novamente a gravação porque sua fala poderia ter sido retirada de contexto.
Mudi foi preso em agosto de 2024 sob suspeita de envolvimento com uma tentativa de infiltração do PCC nas eleições municipais. Segundo a investigação, ele teria recebido R$ 400 mil da facção. O advogado também aparece como acionista da UPBus, empresa de transporte investigada na Operação Fim de Linha. Segundo as investigações mencionadas no material, a empresa transferiu R$ 681,5 mil para Mudi.
PMs são acusados pela execução
Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, o cabo Dênis Antônio Martins e o soldado Ruan Silva Rodrigues são acusados de serem os atiradores que mataram Gritzbach. O tenente Fernando Genauro da Silva é apontado como motorista do carro utilizado pelos executores. Os três foram denunciados e levados a júri popular.
A investigação reuniu diferentes elementos contra os policiais, entre eles material genético, registros telefônicos, dados de localização e imagens de câmeras de segurança. As defesas, porém, negam a participação dos três no assassinato e afirmam que as provas foram forjadas ou interpretadas de maneira incorreta.
Material genético e deslocamentos de Dênis
A Polícia Militar informou, em janeiro de 2025, que material genético de Dênis Martins foi encontrado em um casaco, um boné e luvas localizados após o crime. A investigação também apontou que Dênis estava de férias na data do assassinato, morava em Osasco e teria se deslocado até a região da casa de Genauro.
Segundo os investigadores, o carro utilizado pelos atiradores saiu de Osasco no dia do crime e, após o ataque, um Audi usado na fuga também teve a cidade como destino. Dênis nega ter estado em Guarulhos ou no aeroporto na data do assassinato.
Agenda de Genauro chamou atenção
No caso de Fernando Genauro, investigadores encontraram na agenda do celular dele os números de três PMs que integravam a escolta de Gritzbach. Após a prisão do tenente, Danilo Lima Silva, motorista de Gritzbach, procurou espontaneamente a polícia e prestou novo depoimento.
Danilo afirmou que havia comprado uma Mercedes GLS de Genauro e mantinha contato com ele por causa de problemas no veículo. Segundo o relato, Genauro também havia combinado de enviar um HB20.
Em 8 de novembro, dois dias após o assassinato, Genauro teria perguntado quando Danilo retornaria de viagem. O motorista respondeu que chegaria no dia 8. Depois, enviou uma foto de dentro do avião e tentou ligar para o policial, que não respondeu mais. Genauro negou participação no crime e afirmou que não conhecia Gritzbach, embora tenha confirmado que negociava um HB20 com Danilo.
Ruan foi apontado como segundo atirador
Após as prisões de Dênis e Genauro, uma denúncia anônima apontou Ruan Rodrigues como o segundo atirador. A investigação considerou que a altura do policial era compatível com a de um dos homens registrados nas imagens do ataque. O número de telefone de Ruan também teria sido encontrado na agenda de um dos policiais que faziam a escolta de Gritzbach.
Cinco dias depois do homicídio, Dênis fez várias ligações para Ruan. A Polícia Civil afirma ainda ter encontrado material genético de Ruan na maçaneta interna traseira direita do Gol utilizado no crime. Ruan confirmou que conhecia Genauro porque havia trabalhado como motorista da guarnição comandada pelo tenente durante dois ou três anos. Também afirmou conhecer Dênis apenas de vista.
Segundo a investigação, dados obtidos com a quebra do sigilo telefônico indicaram que Ruan pesquisou, pelo celular, horários de voos entre Maceió e Guarulhos no dia do assassinato. No dia seguinte ao crime, ele teria trocado de celular.
Defesas negam participação
Os três PMs negam participação no assassinato. O advogado Mauro Ribas Júnior, que representa Dênis, Ruan e Genauro, afirma que os policiais não mataram Gritzbach, não o conheciam e não estiveram em Guarulhos na data do crime. A defesa também contesta os elementos utilizados pela acusação.
O júri dos três policiais chegou a começar em junho de 2026, mas foi anulado após a defesa deixar o plenário, segundo decisão do juiz responsável. Um novo julgamento deverá ser realizado.
(Com informações do TAB UOL)