Às vésperas da posse de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto no Brasil desde 1960, a Unidos do Cabuçu, escola de menor expressão no carnaval carioca, levou à avenida um desfile que já revelava incertezas quanto à decisão tomada pelos eleitores.
Essas dúvidas, no entanto, não se dirigiam exclusivamente a Collor. O enredo havia sido concebido antes do resultado das eleições, e o questionamento presente no verso “Eu votei, se votei certo só mesmo o tempo dirá” poderia se aplicar a qualquer candidato que viesse a assumir o cargo.
Mesmo com esse tom crítico, o samba também abria espaço para a esperança. No refrão, a escola apelava à fé ao cantar “Peço a Deus sinceramente/ Que ilumine o presidente”. Em outros trechos, os compositores Afonsinho, João Anastácio, Walter da Ladeira e Carlinhos do Grajaú expressavam surpresa e desconfiança diante do momento político: “Vejam só/ A ironia do destino está presente/ Vejam só, parece mentira eu votei pra presidente”, versos que davam início ao samba-enredo.