- Investigação sobre compra de votos na Câmara Municipal de Francisco Alves no Paraná resulta na cassação da maioria dos vereadores eleitos.
- O vereador Devair Porto Santos, conhecido como Cutuca, evita comentar as acusações e esquiva-se das perguntas do repórter.
- A coligação "Pra Frente Francisco Alves" teria utilizado sua estrutura financeira para influenciar o eleitorado por meio da distribuição de vales-combustível.
- O Ministério Público reuniu provas extraídas do telefone celular da então candidata derrotada Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cida.
O que deveria ser uma sessão marcada pelo debate público e pela transparência na Câmara Municipal de Francisco Alves, no Paraná, acabou evidenciando o desconforto dos parlamentares diante de um dos maiores escândalos políticos da cidade. Alvos de uma investigação sobre compra de votos que resultou na cassação da maioria dos vereadores eleitos, os legisladores evitaram comentar o caso quando procurados pela imprensa.
Ao ser questionado pela equipe da GloboNews sobre as acusações de distribuição de combustível a eleitores em troca de apoio político, o vereador Devair Porto Santos, conhecido como Cutuca, esquivou-se de responder. “Já venho aí. Vou em casa e já volto”, afirmou. Em seguida, colocou o capacete, montou na motocicleta e deixou o local sem prestar esclarecimentos, mesmo diante das perguntas insistentes do repórter. Cutuca está entre os sete dos nove vereadores eleitos que tiveram os mandatos cassados pela Justiça Eleitoral em 2026.
Apesar da condenação, os parlamentares seguem exercendo suas funções porque os recursos apresentados ainda aguardam julgamento definitivo.
Esquema de compra de votos
De acordo com investigação conduzida pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), a coligação “Pra Frente Francisco Alves” teria utilizado sua estrutura financeira para influenciar o eleitorado por meio da distribuição de vales-combustível.
As apurações apontam que um posto de combustíveis situado a cerca de 10 quilômetros da área central da cidade funcionava como ponto de operação do esquema. Na véspera da eleição municipal de 2024, policiais apreenderam notas fiscais e bilhetes que permitiam a retirada de cinco ou dez litros de gasolina ou álcool.
Além das evidências recolhidas no local, o Ministério Público também reuniu provas extraídas do telefone celular da então candidata derrotada Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cida. Em gravações de áudio, ela orientava apoiadores e mencionava “o negócio lá para vocês pegarem a gasolina”.
A resistência em comentar o caso não ficou restrita a Cutuca. A vereadora Célia informou que somente se manifestaria acompanhada de seu advogado. Já o vereador Miguel afirmou não ter “nada a declarar” e encerrou a conversa antes de deixar o local.
O único integrante da Casa Legislativa que concordou em conceder entrevista foi o presidente da Câmara, vereador Cioni. Embora também tenha sido condenado pela Justiça Eleitoral, ele rejeita qualquer envolvimento no esquema investigado.
Impacto na democracia
Para o promotor Filipe Rocha e Silva, a prática investigada representa uma ameaça direta ao processo democrático, ao substituir o debate de propostas pela oferta de benefícios materiais aos eleitores.
“A partir do momento em que o nosso voto é trocado pelo abastecimento de um veículo, isso compromete todo um sistema e prejudica a própria vida futura do município”, alertou.