- Perícia privada da GoUp Entertainment não investigou origem dos recursos do Havengate para financiar filme sobre Bolsonaro.
- Laudo afirma que recursos analisados eram privados, sem vínculo com dinheiro público ou Lei Rouanet.
- PF investiga se filme foi usado para desviar recursos, após vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e fundador do Banco Master.
- Flávio Bolsonaro nega ter recebido dinheiro do fundo, mas PF apura uso de recursos para custear despesas de Eduardo Bolsonaro.
- Investigação também mira contrato com Prefeitura de São Paulo suspeito de desvio de recursos públicos.
A perícia privada contratada pela GoUp Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, não rastreou a origem dos recursos repassados pelo fundo americano Havengate Development para financiar a cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL).
Segundo o laudo, obtido pelo jornal O Globo, a perícia analisou os valores gastos pela produtora na realização do filme, mas não auditou o Havengate nem investigou de onde vieram os recursos movimentados pelo fundo.
A produção do filme consumiu US$ 3,7 milhões (R$ 21,00 milhões) no Brasil e outros US$ 9,6 milhões (R$ 54,25 milhões) nos Estados Unidos, totalizando mais de US$ 13,3 milhões (cerca de R$ 75 milhões) entre 1º de junho de 2025 e 4 de junho de 2026.
O documento afirma que os recursos analisados eram privados, foram movimentados por meios formais e não apresentavam vínculo identificado com dinheiro público, incentivos fiscais ou a Lei Rouanet.
Perícia não investigou fundo
Em entrevista ao O Globo, o perito particular Anisio Castelo Branco, responsável pelo trabalho, afirmou que sua análise ficou restrita aos recursos gastos pela GoUp Entertainment.
Segundo ele, não havia autorização para auditar o fundo Havengate, responsável pelo repasse de recursos à produção.
“Eu não sei quanto foi enviado do Brasil aos EUA, nem sei se foi enviado, porque eu não estou investigando o fundo”, afirmou Castelo Branco.
O perito também explicou que sua equipe não teve contato com o fundo e não analisou sua estrutura financeira.
“Do ponto de vista de como o fundo é alimentado, não sei quanto ele tem de capital”, declarou.
Segundo documentos analisados pela Polícia Federal, cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados por meio do Havengate. O fundo é ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL).
Origem dos recursos é alvo de apuração
A origem do dinheiro é considerada uma questão relevante para a Polícia Federal, que investiga se o filme poderia ter sido utilizado para desviar recursos.
A controvérsia aumentou após o Intercept Brasil divulgar conversas entre Flávio Bolsonaro (PL) e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Os diálogos e outros documentos apontaram para um acordo estimado em R$ 134 milhões relacionado ao financiamento do filme.
Flávio inicialmente negou que o Banco Master tivesse financiado a produção. Posteriormente, afirmou ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro e declarou que os recursos foram utilizados integralmente no filme.
A PF também apura se parte desse dinheiro teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos. O ex-deputado nega ter recebido dinheiro de Vorcaro por meio do fundo.
Laudo aponta ausência de dinheiro público
Embora não tenha investigado a origem dos recursos do Havengate, a perícia concluiu que não identificou vínculo entre os valores analisados e recursos públicos, incentivos fiscais ou a Lei Rouanet.
O laudo afirma que os recursos destinados à produção tinham origem privada e foram movimentados por meios formais e documentalmente identificáveis.
A conclusão, portanto, se limita aos recursos e despesas examinados pela perícia e não esclarece a origem do dinheiro que abasteceu o Havengate.
Investigação também mira contrato em São Paulo
O laudo integra um inquérito da Polícia Civil de São Paulo que investiga uma suspeita de desvio de dinheiro relacionado ao filme a partir de um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de Wi-Fi.
A perícia foi contratada pela produtora para prestar contas sobre a produção e refuta a hipótese de que tenha ocorrido desvio de recursos públicos nesse contrato.
Em 20 de agosto, Flávio Bolsonaro afirmou que o caso “Dark Horse” era “página virada” e que não teria mais obrigação de prestar esclarecimentos sobre o financiamento do filme após o vazamento do laudo à imprensa.
A perícia, porém, não esclareceu o caminho dos recursos no exterior, justamente uma das questões que permanecem sob investigação.