- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza segunda reunião ministerial de 2026 em meio a tensões diplomáticas com EUA.
- Agenda inclui novas tarifas anunciadas pelo governo norte-americano e classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras.
- Governo brasileiro reage às medidas com indignação, atribuindo a iniciativa à "família Bolsonaro" e exigindo diálogo direto com o presidente dos EUA.
- Reunião ministerial também abordará temas como fim da jornada de trabalho em escala 6x1 e indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realiza nesta quarta-feira (3) a segunda reunião ministerial de 2026, em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Entre os principais temas da agenda estão as novas tarifas anunciadas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros e a decisão dos EUA de classificar facções criminosas do Brasil como organizações terroristas estrangeiras.
O encontro marca a primeira reunião ampliada de Lula com toda a equipe ministerial desde a reforma administrativa realizada em abril.
Mudanças na Esplanada
As alterações ocorreram em razão do prazo de desincompatibilização, exigência legal que obriga ocupantes de cargos públicos a deixarem suas funções para disputar eleições.
Ao todo, 18 ministérios tiveram mudança de comando. A última reunião ministerial neste formato ocorreu no fim de março.
A expectativa é que Lula e seus ministros abordem temas que passaram a dominar o debate político nacional, entre eles:
- A nova política tarifária dos Estados Unidos;
- A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas;
- O fim da jornada de trabalho em escala 6x1;
- A indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Tarifas e tensão comercial
Os Estados Unidos concluíram nesta segunda-feira (1º) uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que "oneram ou restringem" o comércio com empresas norte-americanas.
O relatório cita questões como o PIX, o combate ao desmatamento ilegal, a pirataria e supostas falhas na aplicação de leis anticorrupção.
Com base na investigação, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propôs uma tarifa adicional de 25% sobre mercadorias brasileiras. Apesar disso, uma lista de exceções foi criada para produtos considerados estratégicos para a economia americana, como carne, frutas, café, aeronaves e minerais de terras raras.
A medida ainda não entrou em vigor. Pela legislação dos Estados Unidos, a investigação precisa ser formalmente concluída e passar por consultas públicas antes da implementação das tarifas.
Reação do governo
Em nota, o governo brasileiro afirmou ter recebido o relatório com "indignação" e atribuiu a iniciativa a uma "provocação da família Bolsonaro".
Segundo o Palácio do Planalto, o documento representa uma tentativa de interferência em assuntos internos do país.
Durante discurso realizado em Catalão (GO), na terça-feira (2), Lula cobrou diálogo direto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e disse aguardar um telefonema para que o líder norte-americano explique as medidas anunciadas.
Nova investigação amplia pressão
Uma segunda investigação conduzida pelo governo americano concluiu, nesta terça-feira (2), que 60 países, entre eles o Brasil, falharam em fiscalizar adequadamente a importação de produtos fabricados com trabalho forçado.
Como consequência, os Estados Unidos propuseram uma tarifa adicional de 12,5% sobre mercadorias provenientes desses países.
Interlocutores do governo brasileiro avaliam que a nova cobrança poderá ser somada aos 25% já anunciados, elevando a sobretaxa total para 37,5%, percentual próximo aos cerca de 40% aplicados pelos EUA em 2025.
Facções na mira dos EUA
Na semana passada, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a intenção de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras.
O governo brasileiro ainda analisa os possíveis impactos da medida. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, informou que deve se reunir nos próximos dias com autoridades americanas para discutir a decisão.
Um dia após o anúncio, Lula declarou que o combate ao crime organizado será conduzido internamente pelo Brasil e afirmou que o país não aceitará intervenções externas.
Debate sobre a escala 6x1
Outro tema que deve ganhar espaço na reunião ministerial é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala de trabalho 6x1 e reduz a jornada semanal.
O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados na semana passada com apoio de partidos que integram a base do governo.
Na terça-feira (2), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), afirmou que a Casa não pode ser obrigada a apenas "carimbar" a proposta aprovada pelos deputados.
A PEC chegou ao Senado na quinta-feira (28). No mesmo dia, Alcolumbre encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) uma proposta alternativa sobre jornada de trabalho.
STF e Jorge Messias
A situação da vaga aberta no Supremo Tribunal Federal também deve entrar na pauta do encontro.
Em abril, o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a Corte, impondo uma derrota significativa ao governo federal.
Na mesma semana, o Congresso Nacional derrubou o veto presidencial ao Projeto de Lei da Dosimetria, que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na semana passada, Lula afirmou que pretende reenviar ao Senado a indicação de Jorge Messias para a vaga no STF, aberta desde o ano passado.