Em entrevista às Páginas Amarelas da revista Veja, o governador Rafael Fonteles (PT) avalia que a disputa presidencial de 2026 será definida pelos eleitores de centro e pelos independentes — os mesmos que, segundo ele, decidiram o pleito de 2022. Apontado como uma das principais apostas de renovação do PT, o governador mais jovem do país defende que Lula amplie alianças com forças de centro e até de centro-direita para garantir a reeleição diante de Flávio Bolsonaro.
Na entrevista concedida à jornalista Isabella Alonso Panho, Fonteles também: Descarta espaço para uma terceira via na corrida presidencial e atribui o avanço de Flávio Bolsonaro à aglutinação do eleitorado de direita; Alerta que a radicalização da disputa eleitoral prejudica a formação de consensos no pós-eleição e a aprovação de reformas; Comenta a situação do senador Ciro Nogueira (PP), seu principal adversário no estado, investigado no escândalo do Banco Master; Defende a política de segurança pública do Piauí com a frase "bandido bom é bandido preso", citando que o estado tem a polícia menos violenta do Brasil; Fala sobre os planos do PT para o pós-Lula, suas dezesseis viagens internacionais em três anos e o desafio da esquerda no ambiente digital.
CONFIGRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA NAS PÁGINAS AMARELAS DA VEJA
"O CENTRO VAI DECIDIR"
Uma das apostas de renovação do PT, governador do Piauí afirma que Lula não governa só para a esquerda, pede frente ampla nas eleições e diz que a radicalização dificulta consensos no país
ISABELLA ALONSO PANHO
A PRECOCIDADE sempre foi uma marca na trajetória de Rafael Fonteles. Aos 17, passou em primeiro lugar no vestibular de matemática da Universidade Federal do Piauí, formou-se após dois anos e, aos 21, terminou o mestrado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio. Filho de um fundador do PT, o ex-deputado Nazareno Fonteles, entrou para a política como secretário da Fazenda do governador Wellington Dias (PT), hoje ministro, em 2015. Escolhido para ser o sucessor, venceu a primeira eleição que disputou, em 2022, e tornou-se, aos 37 anos, o governador mais jovem do Brasil. À frente do Piauí, um dos estados mais pobres da Federação, conseguiu bons números em áreas como educação, saúde e segurança pública. Com isso, tornou-se um dos governadores mais bem avaliados do país. Com o apoio de partidos como MDB e PSD na campanha à reeleição, que lidera com 58% dos votos, ele será também um importante cabo eleitoral de Lula no Nordeste. Para o presidente vencer, segundo o governador, será preciso ampliar alianças. "A disputa vai ser novamente decidida por eleitores do centro e os mais independentes", afirma.
As pesquisas presidenciais mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, que cresceu nos últimos meses. Como o senhor vê esse cenário? Esse crescimento do Flávio nada mais é do que uma aglutinação do eleitorado de direita e de extrema direita em torno do nome dele, em detrimento dos outros pré-candidatos. Há um cenário de polarização muito semelhante ao de 2022. A disputa vai ser novamente decidida por eleitores do centro e os mais independentes, que não se vinculam automaticamente ao lulismo ou ao bolsonarismo.
Como se aproximar desse eleitor? Cabe a nós conversarmos mais e de maneira mais direta com esse público específico para demonstrar, assim como conseguimos em 2022, que representamos a melhor opção dentro de uma frente ampla. O vice-presidente Geraldo Alckmin era um adversário do nosso campo político. Colocá-lo na chapa foi uma demonstração clara de que Lula quer governar para públicos mais heterogêneos do que apenas o lulismo e o petismo. Mostra que temos que nos unir a outras forças políticas, mais ao centro e até mesmo à centro-direita, para garantir que o nosso time represente a maioria da população.
"Toda campanha é uma disputa de projetos, então sempre há uma polarização. Mas, se for radicalizada, ela é ruim para o país, pois dificulta a formação de consensos no pós-eleição"
Pode haver espaço ainda para uma terceira via na corrida presidencial? Acredito que não. Os dois campos políticos principais têm mais de 40% das intenções de voto. Vai ser uma eleição muito disputada, mas favorecendo mais o candidato da situação, que é o presidente Lula, pelas entregas que fez, pela experiência política que tem e pela capacidade de formar uma frente ampla. Mas todo detalhe importa, inclusive o percentual de votos que a terceira via ou os outros candidatos terão nesta eleição. Eles serão importantes num eventual segundo turno.
A polarização é ruim para a democracia? Toda campanha é uma disputa de projeto. Então, sempre há uma polarização nesse sentido. Mas, se for radicalizada, ela é ruim para o país, pois dificulta a formação de consensos no pós-eleição. A aprovação de matérias mais difíceis e de reformas importantes fica dificultada. Esse cenário não acontece só no Brasil, mas em vários países, inclusive nos EUA, que têm uma democracia antiga. Torço para diminuir a radicalização e a disputa se basear em propostas concretas para a vida do povo, e não em assuntos secundários que acabam se tornando prioritários para a definição do voto.
Por ser jovem, o senhor é tido como uma das promessas de futuro do PT. Como o partido lida com o fato de Lula disputar um quarto mandato já perto dos 81 anos? Isso não é um problema, porque o presidente tem um vigor físico e mental de fazer inveja a muita gente mais jovem. Esse ponto não será relevante. O que vai pesar mesmo é a experiência de gestão dele ao longo dos três mandatos e as diferenças entre os dois projetos políticos em disputa. A proposta de Lula é a do campo popular democrático, que envolve vários partidos, não só os de esquerda, mas os de centro-esquerda, de centro e até alguns apoiadores na direita.
E quais são os planos do PT para um pós-Lula? É muito difícil fazer qualquer prognóstico neste momento. A prioridade absoluta é a reeleição. Sendo reeleito, se Deus quiser, ele é quem vai conduzir a transição para a sua sucessão, apontando nomes viáveis para continuar o projeto de redução de desigualdades no Brasil, que é a principal meta do nosso campo político.
Na disputa estadual do Piauí, se o senhor for reeleito, será o quarto mandato seguido do PT no estado. Quais foram os erros e acertos do partido no estado? Primeiro, eleição a gente só sabe o resultado depois que ela acontece. Temos muita humildade e pé no chão, mesmo com o nosso governo muito bem avaliado. Desde os mandatos do governador Wellington Dias (2003-10 e 2015-22), o Piauí melhorou muito os seus indicadores sociais e econômicos. É um projeto político que realmente tem resultados efetivos, sobretudo na superação da pobreza, na geração de oportunidades e na melhoria dos serviços públicos. Na educação, somos o único estado que universalizou a oferta do tempo integral no ensino médio.
Seu maior rival político no estado, o senador Ciro Nogueira (PP), está com dificuldades para renovar o mandato, segundo as pesquisas, e agora é investigado no escândalo do Banco Master. Como vê isso? Nosso campo político já definiu como pré-candidatos a senador um nome do MDB, Marcelo Castro, pré-candidato à reeleição, e um do PSD, o deputado federal Júlio César. MDB e PSD no estado apoiam o nosso projeto e o projeto de Lula. De 2002 para cá, em todas as eleições no Piauí, foram vencedores os candidatos ao governo e ao Senado ligados a Lula (Ciro Nogueira foi aliado de Lula em 2018, quando se elegeu senador). Cada eleição tem a sua história, quem decide é o povo.
Apesar de ser um dos governadores mais jovens, o senhor é mais bem avaliado pelo eleitorado mais velho, de acordo com as sondagens eleitorais. Qual sua análise a respeito disso? O eleitor mais idoso, que conhece melhor o que era o Piauí e o Brasil antes de 2003, sentiu as mudanças dos projetos de Lula e do governador Wellington Dias e, naturalmente, tem uma tendência maior a se vincular ao nosso campo político. Mas pesquisas também mostram um cenário favorável no eleitorado mais jovem, dado um investimento muito grande que fizemos, sobretudo em escolas de tempo integral.
Por que razão Lula tem dificuldades com o eleitor jovem? Nesse ponto, a minha idade facilita, porque é uma questão de se comunicar com esse público, que já nasceu sob um outro paradigma. Antes havia concentração da comunicação em poucos veículos. Agora são milhares, por causa das redes sociais e da internet. É necessário falar das mesmas coisas para públicos distintos em veículos variados. No fundo, o que vai contar é a avaliação do que você fez ou deixou de fazer.
"No estado do Piauí, bandido bom é bandido preso. Agimos com dureza e prendemos aqueles que cometem crimes. Ao mesmo tempo, temos a polícia menos violenta do Brasil"
O senhor é bem ativo nas redes sociais. Por que a esquerda ainda tem muito mais dificuldades que a direita para se comunicar nesse campo digital? Nessa área ainda há uma atuação majoritária dos perfis de direita, mas é óbvio que a centro-esquerda e a esquerda foram melhorando ao longo do tempo. Os protagonistas devem ser os próprios agentes políticos, que devem se esforçar para falar no formato mais adequado. Vídeos curtos, diretos, com a mensagem central dita no começo. E há a questão do timing, a velocidade de dar as notícias, responder a críticas ou fake news. Devemos nos aprofundar para pelo menos igualar a presença, a visibilidade e o engajamento nas redes.
O senhor fez dezesseis viagens internacionais em três anos. Não foi um excesso? Fui promover o Piauí e o seu potencial para investidores em áreas como energias renováveis, agro, economia digital, turismo, economia criativa e mineração. A participação do governante gera confiabilidade muito maior para investidores. Eu poderia citar diversas empresas chinesas que investem em energias renováveis no Piauí. No agro, há investimentos em usinas de biocombustíveis, em algodoeiras, em frigoríficos. O Piauí passou a ser o sexto maior exportador de minério de ferro e não estava nem no mapa da mineração. Na área de educação e tecnologia, o Piauí já enviou mais de 300 estudantes e professores para intercâmbios em seis países. Fizemos várias missões levando startups piauienses para a Web Summit em Lisboa ou comitivas com mais de 100 empresários para a China.
O estado ganhou destaque por conta do êxito das políticas de segurança pública, tanto que o senhor emplacou seu ex-secretário, Chico Lucas, como secretário nacional da área. O que tem a ensinar ao governo federal, que acabou de lançar um pacote de combate ao crime (leia a reportagem "De olho no crime")? O Piauí reduziu a criminalidade usando muito duas palavrinhas-chave: integração e inteligência. O grande papel da União é coordenar as ações de segurança e colocar mais dinheiro, porque ela detém 65% do bolo tributário.
Como conciliar a defesa de direitos humanos, que é uma bandeira do PT, com o combate forte à criminalidade? No Piauí, bandido bom é bandido preso. Temos uma dureza no sentido de prender aqueles que cometem crime e de lutar para que permaneçam presos. Ao mesmo tempo, temos a polícia menos violenta do Brasil. Em 2025 inteiro tivemos vinte mortes por intervenção policial (superior apenas a Acre, Roraima e Distrito Federal). No Piauí, temos um governo com visão favorável aos direitos humanos, mas que coloca como prioridade a segurança pública, até porque quem mais sofre com a violência é a população mais pobre.
Os números do Piauí não são iguais aos de outros estados governados pelo PT, como Bahia e Ceará. Por que isso ocorre? Tenho certeza que meus colegas estão fazendo um esforço tremendo. Cada estado tem a sua dor específica. Não cabe a mim comentar.
Quais seriam as principais bandeiras que a esquerda deveria levar à eleição? Segurança pública é uma pauta que devemos abraçar cada vez mais. A educação é algo muito importante, porque Lula, nos três mandatos, teve grandes conquistas ao dar escala ao acesso e à qualidade do ensino público. Outra questão importante é a dos empreendedores — micro, pequenos, médios e grandes. Todos têm contribuições a dar ao país. ∎