- Operador financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior transferiu US$ 12,3 milhões para fundo Havengate, sediado nos EUA, a pedido de Daniel Vorcaro.
- Fundo Havengate foi usado para financiar filme Dark Horse, que retrata trajetória política de Jair Bolsonaro, com produção majoritariamente nos EUA.
- PF e PGR investigam destinação dos recursos, incluindo possível uso para financiar permanência de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
- Perícia aponta que 72% dos gastos do filme ocorreram nos EUA, com etapas como soft production e pré-produção consumindo grande parte do orçamento.
- Produtora Go Up Entertainment respondeu a solicitação da PF sobre aspectos financeiros e operacionais da produção do filme.
O operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, confirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter realizado sete transferências bancárias para o fundo Havengate, a pedido do banqueiro Daniel Vorcaro, ao longo de 2025. Os repasses totalizam US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época, e, em tese, foram destinados ao financiamento do longa-metragem Dark Horse, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Fundo é sediado nos EUA
O Havengate é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O fundo foi utilizado para receber os valores relacionados à produção de Dark Horse.
O filme aborda a trajetória política de Jair Bolsonaro, com destaque para a campanha eleitoral de 2018 e o episódio da facada sofrida pelo ex-presidente. A produção deve chegar aos cinemas somente depois das eleições deste ano.
As transferências para o Havengate são alvo de investigação da Polícia Federal (PF) e da PGR). Além de verificar a destinação dos recursos para o filme, os investigadores apuram se os valores também podem ter sido utilizados para financiar o período em que Eduardo Bolsonaro permaneceu nos Estados Unidos.
O filho 03 de Jair Bolsonaro se mudou para o Texas em fevereiro de 2025, alegando sofrer perseguição política no Brasil.
Sete pagamentos em 2025
Segundo o relato de Mineiro, os sete repasses foram realizados entre fevereiro e setembro de 2025. O sétimo pagamento, de US$ 1,66 milhão, aproximadamente R$ 9 milhões na época, já havia sido revelado pela revista piauí.
Além das transferências bancárias, o delator relatou aos investigadores que também realizou entregas de dinheiro em espécie, inclusive em malas, a terceiros indicados por Vorcaro. Mineiro, entretanto, afirmou que não sabia qual era a finalidade desses outros repasses.
Acordo será analisado no STF
Nesta terça-feira (8), às 14h, a defesa de Mineiro vai ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso Banco Master.
A análise faz parte do procedimento que antecede a eventual homologação do acordo de colaboração premiada. Entre os pontos que serão avaliados estão a voluntariedade, a regularidade e a legalidade da negociação.
Após essa etapa, caberá ao ministro decidir sobre a homologação do acordo.
Filme entrou na campanha de Flávio
O financiamento de Dark Horse provocou uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República depois que o Intercept Brasil publicou mensagens nas quais o senador cobrava Daniel Vorcaro por pagamentos relacionados à produção do filme.
Após a repercussão do caso e o impacto nas pesquisas eleitorais, Flávio havia prometido apresentar detalhes das contas do longa. Posteriormente, porém, passou a se desvincular do assunto e afirmou que o caso era uma “página virada”.
Maioria dos gastos ocorreu nos EUA
Uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, apontou que 72% dos gastos do filme ocorreram nos Estados Unidos, enquanto 28% foram realizados no Brasil.
Das cinco fases de realização do projeto, segundo a perícia, apenas as filmagens aconteceram no Brasil. As demais etapas foram realizadas nos Estados Unidos. A Go Up, conforme as informações apresentadas, nunca lançou um filme nos cinemas brasileiros.
O levantamento aponta que o longa teria custado US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões, considerando a cotação utilizada pelo perito Anísio Costa Castelo Branco.
Do total gasto nos Estados Unidos, US$ 2,66 milhões foram destinados à pré-produção, US$ 1,96 milhão à pós-produção e US$ 1,97 milhão à produção. Também foram registrados US$ 383,2 mil para o desenvolvimento do projeto e US$ 2,69 milhões para a chamada “soft production”.
Perícia aponta gastos elevados
A chamada “soft production” corresponde a uma etapa anterior à pré-produção, voltada principalmente a questões logísticas e administrativas do projeto. Segundo a perícia, essa fase consumiu aproximadamente 20% do orçamento total, com cerca de US$ 2,68 milhões.
Produtores do mercado audiovisual brasileiro ouvidos reservadamente pelo blog responsável pela divulgação da perícia apontaram que o valor seria elevado em comparação com o percentual normalmente destinado a essa etapa.
Na chamada “soft pré”, são realizadas reuniões preparatórias do núcleo principal da produção. Nesse momento começam a ser definidas questões como escolha de atores, locações, fotografia, equipamentos e figurinos.
A própria pré-produção de Dark Horse também teve custo semelhante, de US$ 2,66 milhões, segundo o documento elaborado pelo perito. Essa fase envolve a mobilização das equipes, preparação técnica, viagens, figurinos e ensaios com o elenco.
PF cobra esclarecimentos da produtora
No mês passado, a Polícia Federal (PF) solicitou à Go Up Entertainment esclarecimentos sobre aspectos financeiros, contratuais e operacionais relacionados ao filme.
A produtora encaminhou a resposta à PF na última sexta-feira (4). As informações devem ser analisadas no âmbito das investigações que apuram a origem, a destinação e a movimentação dos recursos utilizados na produção de Dark Horse.