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Coluna do jornalista José Osmando - Brasil em Pauta

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Taxas Selic nas alturas levam agronegócio a recorde histórico de recuperação judicial

Essa taxa imposta pelo Copom, (Comitê do Banco Central), exerce uma pressão negativa extraordinária sobre o agronegócio, encarecendo o custo do crédito

Agronegócio | Divulgação/Ministério das Comunicações

Um efeito drástico das altíssimas taxas de juros Selic (hoje em 15% ao ano) para os operadores  do agronegócio brasileiro está exposto nessa notícia: em 2025, foram registrados nada menos do que 1.990 pedidos de recuperação judicial, com um salto de 56,4% se comparado ao ano de 2024, um recorde histórico, conforme relatório emitido pela Serasa Experian. 

Essa taxa imposta pelo Copom, (Comitê do Banco Central) exerce uma pressão negativa extraordinária sobre o agronegócio, encarecendo o custo do crédito, aumentando o endividamento e, por fim, reduzindo a capacidade operacional no campo, daí caindo na inadimplência e nas muitas falências que têm ocorrido.

Esse é um cenário restritivo e imensamente perigoso - pois, vai além do malefício pouco exposto na mídia, que é o fato de afetar o consumidor final, pela elevação de preços de produtos - e passa a incidir de modo depreciativo sobre o setor da economia que representa 23% do Produto Interno Brasileiro (PIB) e sempre responde com grande peso nas exportações do país, fazendo a balança comercial ser sempre favorável aos brasileiros.

Embora o Governo Federal continue dando atenção especial aos setores produtivos do campo, mantendo um Plano Safra vigoroso, que só para este período de julho/2025 a junho/2026, destinou R$ 605,2 bilhões, sendo R$ 516,2 bilhões exclusivamente para o agronegócio- com juros abaixo do mercado, que podem ficar em até 8,5% ano ano, a depender do tipo de operação-,  o fato é que os reflexos das taxas de 15% aplicadas pelo Copom tornam até mesmo mesmo o Plano Safra menos acessível, pressionando as taxas finais, que podem superar os 14% no ano.

E esse ciclo de juros elevados, combinado com custos de produção altos, está fazendo crescer  o risco de inadimplência e de endividamento. A Selic desestimula novos investimentos e reduz a capacidade de produção do que já estava em andamento.

 E daí vem um outro agravante: muitos operadores do agronegócio não rigorosamente consolidados, com temor do endividamento e suas consequências, terminam colocando as reservas que sobram em aplicações do mercado financeiro, porque isso rende mais e os protege da falência.

Isso é tão visivelmente dramático que, mesmo diante dos créditos oferecidos pelo Plano Safra, com juros subsidiados, houve entre julho e agosto de 2025 uma queda substancial no acesso a esses créditos, seguramente para fugir do alto custo dos financiamentos, restringindo-se o capital de giro e dificultando a compra de insumos essenciais à produção rural.

Esses riscos de pedido de recuperação judicial, resultantes de juros altos com oscilações nos preços de commodities, tendem a se agravar agora, em face da guerra no Oriente Médio, que está elevando expressivamente os preços do petróleo e derivados, e tornando também mais caros e inacessíveis insumos determinantes para a produção rural, como adubo e fertilizantes, quase todos fornecidos por países daquela região, como ureia, fertilizantes nitrogenados e gás natural.

O agro brasileiro tem forte dependência de fertilizantes importados, sobretudo do Oriente Médio, que é um fornecedor chave para a produção agrícola e pecuária locais. É difícil saber como os produtores brasileiros farão para se manterem operando sem esses insumos fornecidos pelo Catar, Omã e Irã, três países que estão sob as bombas e mísseis dos EUA e de Israel.

Esse conjunto de países vendeu, ano passado, para o Brasil, o volume importante de US$ 1,067 bilhão em ureia, insumo essencial para os fertilizantes, 35% de tudo que o país importou desse produto. Também vieram dessa região, em 2025, US$ 398 milhões em cloro de potássio, representando 10% do total importado.

Os analistas advertem que, mesmo que o barril do petróleo se estabilize em 100 dólares, o impacto sobre os preços de fertilizantes será grande, com notável pressão sobre a inflação. Com isso, o salto de 11,7% que o agronegócio brasileiro deu no ano passado, apesar dos juros altos, estará certamente comprometido.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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