O Brasil viveu momentos gloriosos na noite desse domingo, com o brasileiro Wagner Moura conquistando o troféu de melhor ator em filmes de dramas e o próprio filme por ele protagonizado, Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, arrebatando o título de Melhor Filme em língua não inglesa.
Este é o segundo ano consecutivo em que o cinema brasileiro firma-se com grandiosidade no prestigiado e importante Globo de Ouro, que é sempre considerado uma prévia do ocorrerá no Oscar, cuja premiação será realizada em 15 de março deste ano.
No ano passado, a extraordinária Fernanda Torres foi premiada como Melhor Atriz, por seu desempenho formidável no filme Ainda Estou Aqui, um drama biográfico memorável sobre a vida de Eunice Paiva, de seu marido Rubens Paiva(interpretado por Selton Mello) e sua família, depois que o então deputado federal foi sequestrado, torturado e morto durante a ditadura militar.
O filme foi baseada no livro escrito por Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens Paiva e dirigido por Walter Salles. Em 2025, Ainda Estou Aqui conquistou a estatueta de ouro como Melhor Filme Internacional.
A vitória de ontem no Globo de Ouro abre caminho e fortalece esperanças de que no Oscar deste ano o cinema nacional, merecidamente, volte a brilhar.
No feliz e justo reconhecimento de Wagner Moura e do filme Agente Secreto, em meio a uma imensa torcida que tomou conta das redes sociais e marcou presença relevante na mídia de todo o mundo- com destaque especial para as manifestações expressivas na França, desde o Festival de Cannes-, as movimentações até à premiação foram marcadas por muita integração do elenco com o público.
E no meio disso tudo surgiu um amuleto, a "Santa Nanda", que passou acompanhar Wagner Moura, o diretor Kleber Mendonça e elenco durante todo o tempo de preparação.
Era uma indicação de que Fernanda Torres, que ganhara o título de Melhor Atriz no ano passado, estava presente todo o tempo, agora no formato do santinho “Santa Nanda", que todos passaram a carregar no bolso como forma de chamar a sorte para o resultado. E, finalmente, deu certo.
Outro aspecto revelante sobre esse novo e esperançoso cinema brasileiro é que tanto Ainda Estou Aqui, quanto o agora premiado Agente Secreto, retratam histórias fundadas na triste realidade que o Brasil sofreu durante a ditadura militar que dominou o país entre 1964 e 1985, contando estórias de sequestros, torturas e mortes aplicadas a quem se aventura em pensar e se contrapor nesses 21 anos de intolerância e violência.
Mostra, por outro lado, que o Brasil está disposto a abrir o seu passado e relator as tragédias que lhe abateram no passado, para que elas não se renovem no futuro, como se tentou recentemente no dia 8 de janeiro de 2023.
Essa nova etapa de renascimento do cinema brasileiro instala-se a partir de 2023.
Sob os domínios de Michael Temer- seguindo à queda de Dilma Rousseff na Presidência da República-, e de Jair Bolsonaro, eleito presidente em 2018, o país passou por seis sofridos anos de destruição do seu sistema de cultura, com enfrentamento e desrespeito à classe artística, enfraquecimento e desmonte das políticas públicas de apoio e incentivo às atividades cultuais.
O processo de desmantelamento começa com Michel Temer. Como Vice-Presidente de Dilma, que ele ajudou a derrubar, inicia seu mandato em 2016 com a extinção do Ministério da Cultura, uma de suas primeiras medidas provisórias. Sob Bolsonaro, a partir de 2019, intensificou-se o enfrentamento aos artistas nacionais e se aprofundaram os desmontes de programas e organismos voltados para a cultura.
O governo passado partiu para asfixiar financeiramente a produção cultural no país, aplicando severas restrições e cortes de gastos a instrumentos como a Lei Rouanet, que só passaram a ter recursos liberados após determinação do STF.
Além disso, estabeleceu-se uma prática de discurso de ódio, com o governo adotando uma espécie de guerra cultural, atacando publicamente artistas e produções que eles consideram contrários aos interesses dos mandatários de poder.
Este novo momento, vivido a partir de 2024, com premiações no Globo de Ouro, Cannes, Oscar e outros avaliadores de peso internacional, trazem o Brasil de volta à grandeza de sua cultura e das suas artes, renovando as esperanças de que esse é um avanço que jamais poderá receber retrocesso.