Decorridos 24 anos, as mulheres deixam de ter participação direta na disputa à Presidência da República no Brasil, uma realidade que marca um expressivo retrocesso político.
Desde 2002, mulheres encabeçaram chapa à chefia do Executivo nacional, o que até agora, depois de fechadas as janelas de transferências partidárias, não há nenhum registro da presença feminina nessa corrida que só tem homens, com o atual presidente Lula e Flávio Bolsonaro como os mais indicados na prefeência de voto do eleitor.
Este cenário atual difere substancialmente das últimas eleições presidenciais de 2022, quando quatro mulheres encabeçam chapa na disputa pelo Palácio do Planalto, marcando um recorde histórico de presença feminina. Lá estavam liderando os seus partidos, Simone Tebet(MDB), Vera Lúcia(PSTU), Soraya Tronicke (União Brasil) e Sofia Manzano(PCB).
Marina Silva, que encabeçou chapa em eleições anteriores, nesse pleito de 22 foi eleita deputada federal por São Paulo.
Simone Tebet, que agora concorre a uma vaga ao Senado pelo Estado de São Paulo, formava uma chapa puro-sangue, tendo outra mulher como sua companheira de chapa em 2022, a atual e então senadora, Mara Gabrilli, eleita em 2016, cujo mandato vai até 2027, encerrando-se agora, portanto.
E este protagonismo feminino nas eleições de 2022 não ficou apenas no número de candidatas como cabeça-de-chave.
Foi um pleito bastante movimentado, com notável protagonismo das representantes femininas, como se deu no primeiro debate realizado na televisão, quando todas as análises mostaram que Simone Tebet fora a mais bem avaliada.
O debate , tevendo como tema central o respeito e as políticas para mulheres, na esteira da repercussão dos ataques que o então candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, fizera contra a jornalista Vera Magalhães. Esse foi um ponto marcante nas discussões, que deixaram o então presidente encurralado.
E Tebet teve participação marcante, com suas falas sempre pontuadas de coragem.
Por que, agora, ocorre essa lamentável ausência de mulheres na disputa presidencial?
Praticamente todas as conclusões que os analistas e cientistas políticos conseguem extrair dessa dessa realidade politicamente deplorável, que deixa as mulheres fora do centro da disputa, é resultado das barreiras criadas pelas organizações partidárias, dominadas por homens, representando, ao final, o enfraquecimento do debate político, e a falência dos próprios partidos.
Trata-se aqui de um atraso civilizatório, que reforça ainda mais o domínio masculino sobre a vida política, sobre a administração, sobre o controle de orçamentos públicos, sobre o exercício público de serviços aos cidadãos e cidadãs.
Quando não há mulheres na disputa pelo cargo máximo do país, morre a ideia de representatividade e reforça-se o esteriótipo, o preconceito estúpido, de inferiorização do gênero feminino.
No centro degradante desse ambiente que o Brasil tem vivido nas últimas três décadas, está a fragmentação dos partidos políticos, caracterizada por um número desnecessário de agremiações partidárias, muitas delas criadas e vivendo para a prática de negócios, relações até mesmo indecorosas, algumas funcionando como ambiente de troca e aluguel.
Raros no país são os partidos que mantém princípios republicanos, com doutrina, regras e disciplina, voltados ao bem público e à conquista dos espaços de poder no objetivo de servir à população.
Nessa movimentação vergonhosa que se tem obervado a cada eleição, as mulheres são vistas como um obstáculo a ser afastado, não apenas porque a lógica é do domínio do machismo, mas também porque elas têm muito mais senso de realidade, das dificuldades inerentes à vida das famílias, às necessidades crescentes que o povo vive, e trazem em si, como mães, muitas vezes, um sentido maior de proteção e de partilha. E isso não tem lugar em ambientes que se acostumam às trocas perniciosas, ao uso indevido de emendas parlamentres, ao acionamento do pix para atender a interesses de apadrinhados.
É de fato lamentável que as mulheres percam espaço na política brasieira e que partidos gragmentados e vazios continuem dando as cartas na vida pública.