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Coluna do jornalista José Osmando - Brasil em Pauta

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Entre os 4.330 mortos pelas balas da polícia, 64,8% eram jovens, e até crianças, negros

Relatório revela que 64,8% dos mortos por policiais eram jovens negros, com destaque para crianças e adolescentes em áreas periféricas

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  • Relatório revela que 64,8% das vítimas fatais de disparos policiais em 2025 eram jovens negros, em estados como Amazonas e Rio de Janeiro.
  • Estudo aponta que jovens negros têm quatro vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que brancos, segundo cálculo por 100 mil habitantes.
  • Em 2025, 312 crianças e pré-adolescentes negros foram vítimas de letalidade policial, quase todos em áreas periféricas e favelas.
  • Estados como Maranhão e Ceará usam categoria "não informado" para ocultar dados raciais, com desinformação chegando a 57,5% no Ceará.
  • Populações negras enfrentam maiores taxas de evasão escolar e dificuldades na inserção no mercado de trabalho, segundo PNAD Contínua 2025.
Entre os 4.330 mortos pelas balas da polícia, 64,8% eram jovens | Reprodução

Uma estatística divulgada ontem pelo relatório Pele Alvo, elaborado pela Rede de Observatórios da Segurança, tem ao que me parece, o simples efeito de demonstrar mais uma vez, de maneira permanente,  o quanto os jovens negros e pardos do Brasil são as principais vítimas da letalidade policial no país, perdendo a vida pelas balas assassinas disparadas por chamados agentes da lei.

O relatório aponta que entre o espantoso número de 4.330 vítimas das balas disparadas  por homens que são pagos para dar proteção aos cidadãos- sejam eles integrantes de qualquer crupo social e que tenham qualquer cor de pele-, isso apenas no ano de 2025, exatos 64,8%, ou 2.805, eram jovens  negros (pretos ou pardos). Desse total de vítimas fatais, 312 casos envolveram crianças e pré-adolescentes, quase todos moradores de favelas e ou áreas periféricas dos espaços urbanos.

E vejam que esses números não  dizem respeito ao Brasil por inteiro, pois foram levantados por meios oficiais, via Lei de Acesso à Informção, com dados plenos apenas dos Estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambucio, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.  

Sem contar que ainda há outros tipos de camuflagem dentro do próprio sistema de segurança em alguns Estados, que visam esconder a realidade, como no Maranhão e no Ceará, que utilizam a categoria "não informado", para ocultar o perfil racial das vítimas. Essa desinformação chega a 54,9% no Maranhão e a 57,5% no Ceará.

Os pesquisadores do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania )CESeC), dedicado a acompanhar políticas públicas de segurança, fenômenos de violência e criminalidade nesses 9 Estados, dizem que as pessoas negras - jovens e até crianças, sobretudo-, sofrem quatro vezes mais riscos de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas, conforme cálculo feito com base nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para população negra e população branca.

Fora do ciclo público jovem (adolescentes, pré-adolescentes  e crianças), no cenário geral da letalidade policial, ou seja, na população em geral, 86,3% dos mortos por policiais eram pessoas negras.

A triste realidade é que a juventude negra no Brasil carrega um estúpido desafio de crescer sob o manto do racismo estrutural,dessa herança trágica montada pelo modelo econômico da colonização, que se mantém enraizada, fertilizada e abastecida por elites econômicas que detém quase toda a riqueza do país e atuam para manter sob seus pés grandes massas da população, consideradas "inferiores". 

Apesar de constituirem a maioria da população brasileira e formarem a força de trabalho que diuturnamente geram riquezas, homens e mulheres, jovens, adolescentes tes e até mesmo crianças, sofrem com a falta  de oportunidade, mantém-se com baixos níveis de escolaridade e, historicamente, vão seguindo inferiorizadas e sem força de competição no mercado. 

A estrutura montada para fundar o modelo econômico do Brasil foi e permanece como um sistema perverso, apesar de todas as transformações que já conseguiram vingar com programas ousados ( e quase sempre repelidos pelas elites, que os classifica de protecionismo, esmola e desperdício, como se vê em muito discurso da Faria Lima). 

Ser jovem e negro no Brasil significa carregar um peso injusto e não merecido de levar sempre,  do amanhecer até o cair na cama, o medo inseparável de perder a vida. É assim a sensação dos que moram nas favelas do Rio de Janeiro ou de outras grandes cidades brasileiras. 

Jovens negros, como  assim de expõem, são o principal alvo da letalidade policial, miras fáceis de serem rotuladas por sistemas de segurança como ameças permanentes, suscetíveis à criminalidade, ao furto, ao roubo e à violência. Daí, as estatísticas, como essas que se repetem agora, apontarem para uma incidência desproporcional de homicídios e mortes por intervenção policial, tornando o medo uma constante na vida diárias dessas pessoas.

As populações negras, apesar de todos os esforços que o Governo Federal exerce, muito especialmente nas gestões públicas capitaneadas pelo Presidente Lula- que constrói e mantém ativos programas importantes de transferência de renda e amparo familiar-, enfrentam maiores taxas de evasão escolar e têm mais acentuadas dificuldades para inserção no mercado de trabalho, resultando em maiores dificuldades paras as famílias e elevando os níveis de adoecimento mental, de internações hospitalares, de custo de medicação,  e também de letalidade natural.

Segundo a PNAD Contínua 2025, do IBGE, o Brasil tem mais de 46,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, ou seja, quase um quarto da população. Entre as juventudes minorizadas, predominam trajetórias marcadas por atraso ou interrupção escolar, baixos níveis de aprendizagem, informalidade e acesso restrito ao trabalho digno. Para os pesquisadores, a combinação desses fatores aprofunda desigualdades estruturais e limita perspectivas de futuro.

E enquanto isso não for entendido e abraçado, não apenas por entidades governamentais- dispostas a manter programas de apoio aos mais vulneráveis e  programas de incentivo financeiro que os façam evoluir-, mas que envolva o interesse e o compromisso de todos os que  têm o papel de liderar a economia nos seus mais variados sentidos, será tarefa sempre mais difícil vencer essas dificuldades gritantes e imaginar outras formas de evolução. 

Enquanto persistir o anseio de ganho sobre ganho, de aumentar riqueza sobre riqueza, em benefício de grupos privilegiados, sem  qualquer sompromiso com o país, jogando ao fosso massas e massas de pessoas desprotegidas,  fica impossível sonhar.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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