O presidente Lula saiu à frente e anunciou o apoio do Brasil à candidatura de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile em dois mandatos, para ocupar o cargo de Secretária-Geral das Nações Unidas.
O Brasil não está sozinho nessa ousada iniciativa. México e o próprio Chile não apenas anunciaram apoio, como se uniram ao Presidente Lula na iniciativa de construir, na origem, essa candidatura.
Se Bachelet conseguir êxito nessa jornada, ela será pioneira nesse ambiente amplamente dominado pelos homens, pois nos seus 80 anos de existência, nunca uma mulher chegou ao comando da Secretaria-Geral da ONU, que é sua instância mais elevada. E sem contar a ausência no seu comando geral, até mesmo a Assembleia Geral (UNGA), que é o maior órgão deliberativo da organização, registra uma paridade de gênero insignificante, pois até o momento da 80ª Assembleia, realizada ano passado em Nova York, ou seja, em 80 anos, apenas cinco mulheres presidiram esse encontro.
Vijaya Pandit, então presidente da Índia, em 1953; Angie Brooks, que presidia a Libéria em 1969; Haya Rashed al Khalifa, que presidiu a Barein, em 2006; Maria Fernanda Espinosa, ex-presidente do Equador, em 2018 e Annalena Baerbock, da Alemanha, em 2025, foram as úncias mulheres que tiveram o "privilégio" de comandar Assembleias Gerais.
Essa tem sido apenas mais uma ( e gravíssima) deficiência da Organização das Nações Unidas na sua missão de unir o mundo e contribuir para sua melhoria e estabilidade. A falta de respeito à paridade de gênero é algo injustificável, assim como têm sido outros declínios da instituição, que tem enfrentado há muito tempo, mas com maior gravidade no recente período de 2023 até os dias de hoje, os seus momentos de maior descrédito e paralisia operacional, incapaz de conter conflitos absurdos entre nações, a exemplo do que ocorre entre Israel e palestinos na Faixa de Gaza.
Fragilizada, assim, de mediar conflitos - um dos seus primordiais compromissos desde a criação em 1945-, a ONU tem hoje um Conselho de Segurança esvaziado e alheio à realidade. Atravessa uma aguda crise financeira (sobretudo impulsionada pela decisão de Donald Trump de retirar todo tipo de apoio à organização, especialmente financeiro), e finalmente demonstrando que perdeu sua relevância política no planeta.
Faz tempo que o Presidente Lula tenta puxar para a sua bandeira de luta o apoio de presidentes de outros países, no objetivo de fazer a ONU passar por um movimento profundo de reformulação, sobretudo abrindo o seu Conselho de Segurança para a participação de outras nações e modificando seus mecanismos de veto que fazem grandes países, como Estados Unidos, Rússia, China e Reino Unido, a travarem decisões importantes para a humanidade.
A crise de Gaza deixou escancarada essa incapacidade e aliciamento do Conselho de Segurança da ONU e a quase falência da própria organização. Falhando em agir com firmeza e de forma justa, seus conselheiros vêm prosperar conflitos duradouros e inaceitáveis como os que ocorrem na Síria, Iêmen, Sudão e MIanmar, tornando ineficazes os esforços que têm sido tentados por missões de paz.
Para agravar mais ainda essa dura realidade, o Presidente Donald Trump tem exposto ao mundo que simplesmente ridiculariza a ONU, ordenando a retirada dos Estados Unidos de cerca de 33 instituições mundiais vinculadas à Organização das Nações Unidas, com foco principal na asfixia financeira.
É nesse quadro que surgem as esperanças impulsionadas pelo Presidente Lula, de que Michelle Bachelet, que carrega na sua trajetória de êxito como Presidente do Chile em dois mandatos- e que já atuou com notoriedade como Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (entre 2018 e 2022), possa fazer a ONU renascer, com foco na paz efetiva entre os povos, e com esforço real de proteção aos mais vulneráveis, com combate à fome e às desigualdades crescentes no mundo, combate ao racismo e à violência.
E tudo isso passando pelo retorno da autoridade que a Carta de 1945 lhe conferiu, significando reformulação e ampliação do Conselho de Segurança, dando assento a países de outras regiões do mundo, como a América Latina, hoje ausentes. Atualmente, o Conselho tem 5 membros permanentes, todos com poder de veto, a saber: China, França, Rússia, Reino Unido e EUA. Tem, ainda, 10 outros membros transitórios, eleitos para mandato de dois anos, daí permanecendo um injusto e imoral controle de grandes potências, que se valem dos seus vetos para ignorar a nova realidade do mundo.
O que se espera é que a proposta nascida do desejo do Brasil, do Chile e do México transforme-se num anseio multiplicado por outras nações, e que se possa provar aquilo que pressentimos, de que uma mulher com o perfil que Bachelet ostenta, com sensibilidade, zelo, honestidade e senso de justiça, possa chegar ao posto e devolver à ONU o papel revelante de sustentar a paz e trabalhar pela redução das desigualdades.