O mercado de ações brasileiro se consolida em 2026 como o principal destino de capital na América Latina , com um desempenho que supera amplamente o de seus pares regionais e de Wall Street , em um cenário marcado pela rotação global em direção aos mercados emergentes e pela busca por exposição a commodities devido à guerra no Oriente Médio.
No acumulado do ano, o Ibovespa registra uma alta de 29,55% em dólares, contra 4,57% do S&P 500, enquanto a bolsa peruana avança 17,21% e a colombiana, 14,71%.
A diferença aumenta, paralelamente, a um fluxo sustentado de capital estrangeiro que reposicionou o Brasil como eixo da estratégia nos mercados emergentes.
Esse movimento se reflete no ETF iShares MSCI Brazil, que recebeu US$ 1,53 bilhão neste mês, seu maior influxo desde 2009, segundo dados da Bloomberg . O fluxo é um sinal de que a demanda internacional por ativos brasileiros está se acelerando em meio à reestruturação das carteiras globais.
Os especialistas do Bank of America indicam que a América Latina continuou a receber fluxos de capital, apesar do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, e que o Brasil se manteve como o principal destinatário. Os investidores institucionais mantêm suas posições diante de um cenário de dólar fraco e termos de troca favoráveis, o que levou os analistas a questionarem se o gigante latino-americano pode ser considerado “o novo ouro”.
Nesta semana, os analistas do BofA elevaram sua projeção para o Ibovespa de 180.000 para 210.000 pontos, em um cenário de menor tensão global. “Acreditamos que um eventual cenário de distensão poderia favorecer a continuidade dos fluxos de investimento nos mercados emergentes, graças à diminuição das pressões inflacionárias e a uma maior margem para que os bancos centrais reduzam as taxas de juros”, afirmaram os analistas.
FLUXOS GLOBAIS
A posição em relação ao Brasil reflete uma mudança mais ampla na alocação global de ativos. Os analistas do JPMorgan destacam que os investidores demonstram “um tom ligeiramente mais otimista em relação à América Latina, especialmente ao Brasil”, graças à maior alocação em commodities e ao fato de que a preparação para perturbações globais ganha relevância nas estratégias institucionais.
Essa mudança se baseia em fatores estruturais que reforçam a tese de investimento. Pedro Grimaldi e Ben Laidler, analistas do Bradesco BBI, afirmam que “as ações brasileiras têm ‘nove vidas’, beneficiando-se de forma quase única de uma confluência de fatores relacionados aos mercados emergentes, à geopolítica, à macroeconomia global e local , que acreditamos ainda terem potencial de crescimento”. Para os especialistas, isso contrasta com ciclos anteriores marcados pela deterioração das finanças públicas ou por choques externos.
O fluxo para o Brasil também se explica por um atraso acumulado na exposição aos mercados emergentes. Grimaldi e Laidler destacam que “há uma enorme subponderação dos investidores nos mercados emergentes”, o que abre espaço para uma reestruturação gradual das carteiras, com o Brasil como um dos principais beneficiários devido ao seu tamanho, liquidez e diversificação setorial.
No mercado cambial, a valorização do real brasileiro reforça essa tendência. David Beker e Natacha Pérez, analistas do Bank of America, afirmam que “os investidores continuam confortáveis em manter sua exposição ao real brasileiro e às ações brasileiras”, em um cenário em que a desvalorização do dólar é considerada um fator essencial para a continuidade do fluxo de recursos para os mercados emergentes.
No acumulado do ano, a moeda brasileira é a que mais se valorizou na América Latina, com uma alta de cerca de 10%, o que também a posiciona como a que mais subiu entre os mercados emergentes.
O QUE AJUDA A ENTENDER A ALTA
O desempenho do Brasil pode ser explicado por uma combinação de fatores macroeconômicos e setoriais. A equipe do UBS, da qual faz parte o analista Alejo Czerwonko, destaca que “o Brasil se destaca entre os mercados emergentes, apoiado por fundamentos sólidos, cortes nas taxas locais e seu papel como grande exportador de commodities ”, em um contexto de preços elevados da energia que favorecem as economias produtoras. O peso das commodities no índice reforça essa dinâmica. O Bank of America destaca que as empresas petrolíferas são responsáveis por cerca de um terço da contribuição para a alta do índice no ano, em um mercado onde o aumento do preço do petróleo impulsiona tanto a balança comercial quanto os lucros das empresas.
Paralelamente, o ciclo monetário introduz um catalisador adicional. Grimaldi e Laidler observam que “o Brasil iniciou cortes nas taxas a partir de 15% no mês passado, em um ciclo único, abrangente e com duplo impacto”, com efeitos tanto sobre as valorizações quanto sobre os fluxos domésticos, o que poderia reverter anos de saídas para o mercado de renda fixa. A combinação de taxas elevadas e potencial de cortes cria um diferencial atraente em relação a outros mercados.
Para o Bank of America, “os rendimentos das taxas locais são atraentes”, embora persista a percepção de que a inflação possa limitar o ritmo da flexibilização monetária. A questão política acrescenta um fator adicional. O JPMorgan observa um interesse crescente dos investidores pelo processo eleitoral, em um contexto em que “o Brasil pode se sair bem em qualquer cenário”, enquanto o Bradesco BBI considera que há “opcionalidade nas eleições de outubro”, em um mercado com alta exposição a empresas estatais e sensibilidade às decisões fiscais.
AVALIAÇÕES E RISCOS
Apesar da alta, o debate sobre as avaliações continua em aberto. O Bank of America alerta que “as ações brasileiras já não são baratas em termos de avaliação”, embora mantenha uma visão otimista, baseada no crescimento dos lucros e na geração de caixa em setores-chave.
O mercado apresenta múltiplos relativamente moderados e altos rendimentos por dividendo. Grimaldi e Laidler, ao contrário do JPMorgan, observam que “o Brasil continua sendo um dos mercados acionários mais baratos do mundo”, com um PER futuro próximo a 10,2x e um rendimento por dividendo estimado em 5,3%, o que mantém o interesse dos investidores globais em busca de valor.
No entanto, os riscos continuam presentes e condicionam o cenário. Para Beker e Pérez, do Bank of America, “uma reviravolta no dólar americano seria um risco fundamental”, ao pressionar a inflação e limitar os cortes nas taxas, enquanto o UBS identifica como fatores de risco uma correção nos preços das commodities , um ciclo de flexibilização mais limitado ou choques políticos locais Por isso, o acompanhamento desses fluxos será determinante para avaliar a sustentabilidade da recuperação.
A evolução do dólar, a trajetória das taxas e a definição do cenário político constituem variáveis-chave em um mercado que, após liderar a região, entra em uma fase em que a continuidade do apetite dos investidores dependerá da consolidação desses fatores."
(Com informações da Bloomberg Línea)