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Banco Master usou Word, PDFs e códigos para fabricar documentos falsos, diz PF

PF identificou uma estrutura que combinava dados reais, programação, produção em massa de documentos, assinaturas digitais e edição de PDFs para montar dossiês de operações de consignado negociadas com o BRB.

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  • PF investiga fraude no Banco Master que produzia documentos falsos para créditos atribuídos à Tirreno Consultoria.
  • Documentos eram criados com dados reais de clientes e ferramentas do Microsoft Office, incluindo mala direta.
  • 2.700 procurações foram geradas em lote, com páginas de assinatura separadas e reutilizadas em PDFs.
  • Assinaturas digitais revelaram datas inconsistentes, com registros de alteração de datas em Termos de Consentimento.
  • Documentos foram organizados em pastas de rede e enviados a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Banco Master | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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A fraude investigada pela Polícia Federal (PF) no Banco Master funcionaria, segundo relatório técnico-pericial, como uma espécie de linha de montagem digital para produzir documentos que dariam aparência de legitimidade a contratos de créditos atribuídos à Tirreno Consultoria e apresentados ao Banco de Brasília (BRB).

A estrutura utilizava dados reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office, programação e edição de arquivos. A investigação aponta que documentos eram produzidos em massa, páginas de assinaturas eram separadas e diferentes peças eram reunidas posteriormente em arquivos PDF.

Quando os documentos continham informações que poderiam indicar sua origem ou a verdadeira data de produção, também havia procedimentos para remover ou alterar esses registros, segundo a perícia.

Relatório descreveu produção dos documentos

As informações constam de um relatório técnico-pericial da PF elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo, intitulado “Investigações internas – Banco Master”, tinha 30 slides e registrava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 relacionadas à produção de documentos para a cessão de créditos consignados ao BRB.

Segundo a perícia, a operação combinava ferramentas comuns de escritório, programação e edição de documentos para transformar dados de operações reais e antigas em documentação que apresentasse como existente uma carteira de créditos atribuída à Tirreno.

Dados de clientes foram usados na produção

De acordo com a investigação, o primeiro passo era obter informações de clientes que haviam realizado operações legítimas. Entre os dados utilizados estavam informações armazenadas nos sistemas internos do banco, inclusive relacionadas ao CredCesta, produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams.

Vinicius reuniu os dados no arquivo cpf_cessao.csv e, no dia seguinte, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx e enviado por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57.

A planilha continha informações cadastrais como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe.

As conversas entre integrantes da área de tecnologia também registraram questionamentos sobre a base de dados. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem das informações. Rafael apontou que havia um CPF associado a apenas uma proposta de 2019 e afirmou que a lista estava “meio furada”.

2.700 procurações foram produzidas em lote

Com os dados reunidos, uma das etapas consistia na produção de procurações. Segundo a perícia, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word, que permite preencher automaticamente um modelo a partir de uma planilha.

O procedimento vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.

Com isso, foram produzidas 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.

Programa separava páginas de assinaturas

A área de tecnologia também teria participado da montagem dos documentos. A perícia identificou a participação de Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. no desenvolvimento de aplicações em C# registradas no GitHub do Banco Master.

Uma das funções identificadas permitia extrair a segunda página de arquivos PDF, correspondente à página de assinatura dos documentos originais.

Também foi encontrado o arquivo compactado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. O arquivo continha 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento. Essas páginas poderiam ser utilizadas posteriormente na montagem de novos conjuntos documentais.

Assinaturas digitais revelaram datas diferentes

Outra etapa envolvia as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust, identificados pela raiz CCB_credcesta_.

Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa pelo Teams para assinar os documentos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma. As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader, utilizando certificado digital corporativo do Banco Master e certificado individual de Allan Machado.

A perícia encontrou, nessa etapa, uma diferença entre as datas apresentadas nos documentos e os registros digitais. Em determinados arquivos, a data escrita no corpo da CCB era anterior, como 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura indicava que o documento havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

Datas de documentos foram apagadas

A perícia também encontrou registros de remoção de datas em Termos de Consentimento. Em uma conversa no Teams de 20 de junho, Allan Machado pediu a Moacir que retirasse informações de data e hora dos documentos. Um dos casos analisados foi o Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, que originalmente apresentava o registro 24/02/2023 às 13h05.

Segundo a perícia, durante uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, a informação foi apagada visualmente. A alteração, porém, não eliminou todos os vestígios. Registros do arquivo e da assinatura digital permitiram, segundo a perícia, reconstruir parte da cronologia.

Documentos eram reunidos em dossiês

Depois de produzidas e alteradas, as diferentes peças eram reunidas em um único arquivo. Allan utilizou o PDF24 para juntar documentos de cada operação, incluindo CCB, procuração e Termo de Consentimento com a data retirada.

Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede denominadas “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras”. Dessa forma, documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em um único conjunto documental.

Comprovantes bancários também foram alterados

A investigação aponta ainda que os comprovantes de transferências bancárias foram alvo de tentativas de alteração. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a retirada de informações de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. Segundo a conversa, deveriam ser retirados o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações presentes nos comprovantes estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

Romy afirmou que conseguia alterar alguns documentos, mas que seria inviável realizar o procedimento manualmente em 2.700 comprovantes. A troca de mensagens indica, segundo a investigação, uma diferença entre os procedimentos automatizados utilizados na produção de documentos e a dificuldade de alterar graficamente milhares de comprovantes.

Auditoria da Deloitte também foi mencionada

As mensagens analisadas pela investigação mostram que os envolvidos também discutiam como responder a questionamentos sobre inconsistências. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte cobrava informações.

Segundo a mensagem apresentada no relatório, Alberto afirmou que determinada situação deveria ser atribuída a um “erro operacional na seleção”. Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. A auditoria havia solicitado CCBs e Termos de Consentimento, segundo as mensagens analisadas pela PF.

Documentos chegaram a Daniel Vorcaro

A investigação identificou ainda o envio de amostras da documentação produzida na operação. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”. Alberto respondeu que providenciaria o material. Pouco depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e das assinaturas.

Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos. Segundo a investigação, o material produzido na operação não ficou restrito aos funcionários envolvidos diretamente na montagem dos documentos.

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