- Primeira-dama Janja da Silva discursa sobre impacto do discurso de ódio contra mulheres nas redes sociais e influência em jovens.
- Elas destacam que existem cerca de 160 canais nas plataformas digitais com conteúdo misóginos que geram receita.
- Janja afirma que a juventude masculina está sendo influenciada negativamente pelo ódio espalhado nas redes sociais.
- Ministério da Educação trabalha com o Conselho Nacional de Educação para incluir temas de violência de gênero no currículo escolar.
- Primeira-dama defende que mudanças culturais e comportamentais são essenciais para combater o feminicídio e a violência contra mulheres.
A entrevista exclusiva da primeira-dama Janja da Silva para TV Meio Norte nesta quinta-feira, 30 de julho, concentrou parte de suas declarações no impacto do discurso de ódio contra mulheres nas redes sociais e na influência desse conteúdo sobre adolescentes e jovens. Ao apresentar dados sobre a circulação de conteúdos misóginos na internet, ela afirmou que a violência de gênero está diretamente relacionada à cultura de misoginia e defendeu mudanças no comportamento masculino como condição para reduzir os casos de feminicídio.
ÓDIO NAS REDES
Durante entrevista exclusiva à jornalista Cinthia Lages, da TV Meio Norte, nesta quinta-feira (30), Janja afirmou que as redes sociais têm desempenhado papel central na propagação de conteúdos que estimulam o ódio contra mulheres e influenciam principalmente o público jovem.
"Cíntia, eu tenho falado que esses números representam a cara do que hoje as redes sociais mostram para os adolescentes e até para as crianças quando se trata de ódio às mulheres."
A primeira-dama apresentou dados que, segundo ela, ilustram a dimensão desse fenômeno. Entre eles, afirmou que existem aproximadamente 160 canais nas principais plataformas digitais dedicados à disseminação de conteúdos misóginos.
"Para você ter uma ideia, a gente tem cerca de 160 canais nas redes sociais, incluindo YouTube, Instagram e TikTok, com discurso de ódio contra as mulheres. Isso monetiza, isso dá dinheiro, Cíntia. Então, a gente tem que falar muito sobre isso."
Ela também mencionou levantamentos sobre pesquisas realizadas na internet envolvendo violência contra mulheres.
"Hoje, o acesso a esse conteúdo é muito alto. A gente viu, acho que foi no começo do ano, cerca de 60 milhões de pesquisas no Google sobre como matar uma mulher sem deixar vestígios."
JUVENTUDE
Na avaliação de Janja, o alcance desse conteúdo nas plataformas digitais influencia diretamente a formação de parte da juventude masculina.
"E a gente tem uma juventude masculina muito cooptada pelo ódio nas redes sociais."
Segundo ela, esse cenário reforça a necessidade de discutir novas formas de educação voltadas ao enfrentamento da violência de gênero desde a escola.
EDUCAÇÃO COMO RESPOSTA
A primeira-dama informou que o Ministério da Educação (MEC) trabalha, junto ao Conselho Nacional de Educação (CNE), na elaboração de diretrizes para abordar masculinidade e violência de gênero no currículo escolar.
"O Ministério da Educação está trabalhando, junto ao Conselho Nacional de Educação, nas normativas de como isso vai ser apresentado no currículo escolar. Porque a gente precisa trabalhar a parte educacional. A gente precisa levar essa questão para dentro da sala de aula. Não é falar sobre as leis, mas falar de um novo comportamento dos homens, da masculinidade."
MUDANÇA DE COMPORTAMENTO
Para Janja, o combate ao feminicídio depende de uma transformação cultural que ultrapassa a atuação do Estado e alcança o ambiente familiar.
"As ações dos poderes têm um limite, e esse limite quase sempre é a porta de casa, né? Então, o que a gente precisa é de uma transformação cultural mesmo, Cíntia."
Ela afirmou que essa mudança passa necessariamente pela revisão de comportamentos masculinos, destacando posicionamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema.
"O presidente fala sempre, e eu fico muito feliz com isso. Não feliz, eu fico orgulhosa, sabe? De ter um presidente da República que tem a coragem de, numa reunião do G7, falar sobre esse tema. Ele diz que os homens precisam mudar o seu comportamento."
Em seguida, sintetizou o que considera ser o principal desafio para reduzir os índices de feminicídio no país.
"A gente só vai transformar esses números quando os homens mudarem o seu comportamento."
MISOGINIA ORGANIZADA
Ao abordar a disseminação da misoginia, Janja citou o caso de Gisèle Pelicot, na França, e afirmou que grupos organizados compartilham conteúdos e práticas de violência contra mulheres em diferentes países.
"Quando eu estava lendo o livro — até foi coincidência —, eu estava lendo o livro, e é um livro difícil de ler. É doloroso, inclusive. Eu falei para o meu marido: 'Está aqui, leia.' E ele leu."
Ela relatou ainda a reação do presidente Lula ao conhecer a história.
"Quando eu contei para ele que estava lendo esse livro, ele falou: 'Não, isso não existe.' Eu disse: 'Existe. Aconteceu. Está aqui ela, está aqui a história dela.'"
Segundo a primeira-dama, o problema é global e não se restringe a episódios isolados.
"E, quando eu li, a CNN Internacional publicou uma matéria sobre esse grupo de homens que existe ao redor do mundo. Existe aqui no Brasil, existe ao redor do mundo. Quando você acha que é um caso isolado, não é. São vários."
Ao concluir, Janja relacionou diretamente os crimes contra mulheres ao ambiente de misoginia alimentado por esses discursos.
"Então, quando a gente fala em transformar a cultura e transformar esse discurso da masculinidade, a gente está falando disso: do discurso de ódio contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres."
"Aliás, o crime contra a mulher existe num contexto de misoginia. Tudo aquilo que eu descrevi, aquela preferência por atingir uma mulher, preferencialmente para atingir o presidente. Eu sempre digo isso. Acho que, para eles, é muito fácil usar uma mulher. Porque, não importa, é só uma mulher, entendeu? Ela não tem importância. Não estou falando de mim, estou falando da personagem mulher."