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Lucas Padula

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CASO GISELE: Veja laudos e reconstrução que apontaram feminicídio e resultou na prisão do Tenente-Coronel

Entre as versões apresentadas está o fato em que a PM não teria condições físicas de acessar a arma, reforçando a hipótese de execução após luta corporal

Reconstituição também foi fundamental para entender a dinâmica do crime. | Foto: Reprodução/Gerada através de IA com base nas investigações

A morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 30 anos, ganhou novos contornos após a conclusão de laudos periciais e da reconstituição do crime. A investigação aponta que ela foi vítima de feminicídio, e não de suicídio, como sustentou inicialmente o companheiro, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que agora é réu na Justiça. 

Gisele foi encontrada com um tiro na cabeça, na sala do apartamento onde morava com o oficial, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro de 2026. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu no Hospital das Clínicas. A Coluna do Padula teve acesso ao relatório final e traz agora alguns pontos importantes na investigação. 

RECONSTRUÇÃO

Um dos pontos mais contundentes da investigação veio da reconstituição realizada pela Corregedoria da PM. O estudo concluiu que Gisele não teria condições físicas de alcançar a arma, que, segundo o próprio investigado, ficava sobre um armário a quase dois metros de altura.

De acordo com o laudo, uma pessoa com 1,65 m — altura da vítima — alcançaria, no máximo, cerca de 1,73 m, mesmo na ponta dos pés. Já a arma estava apoiada a aproximadamente 1,96 m do chão, em um guarda-roupa de 2,04 m. A conclusão contradiz diretamente a versão do tenente-coronel, que afirmou que a esposa teria pegado a arma antes do disparo. Veja:

Reconstituição mostra a altura do Tenente-Coronel e da Gisele que não alcaçaria o móvel para buscar a arma. Foto: Reprodução

DINÂMICA DO CRIME APONTA ATAQUE E LUTA CORPORAL

O laudo da Polícia Científica descreve uma sequência de ações que apontam para abordagem violenta e execução. Segundo os peritos, o crime pode ter ocorrido em quatro etapas:

  • Gisele teria sido surpreendida por trás dentro do apartamento;

  • O investigado a teria imobilizado, segurando-a pelas costas;

  • Houve luta corporal, com tentativa de reação da vítima;

  • Em seguida, o suspeito teria efetuado o disparo com a arma próxima à cabeça.

Exames identificaram lesões compatíveis com pressão de dedos no rosto e no pescoço, além de marcas de unha, indicando tentativa de esganadura ou contenção antes do tiro fatal. VEJA:

Laudo mostra como Gisele teria sido abordada. Foto: Reprodução

CONTRADIÇÕES NA VERSÃO DO TENENTE-CORONEL

A versão apresentada por Geraldo Neto — de que estava no banho e ouviu um barulho antes de encontrar a esposa caída — também foi desmontada por inconsistências técnicas.

Entre os principais pontos destacados pelos peritos estão:

  • Posição da arma: o investigado disse que a arma estava no chão, mas socorristas e fotos mostram que ela estava na mão da vítima;

  • Árvore de Natal: ele afirmou que o objeto não estava na sala, mas imagens comprovam que estava ao lado do corpo, o que impediria a visão que ele descreveu;

  • Linha de visão: a posição da porta e dos objetos no ambiente torna improvável que ele visse o corpo como relatou;

  • Ausência de cartucho: não foi localizado o estojo da munição, o que indica possível manipulação da cena.

Outro ponto considerado crucial é que, após o disparo, a arma permaneceu na mão de Gisele — algo classificado pelos peritos como extremamente improvável do ponto de vista fisiológico em casos de suicídio com arma de fogo de alto calibre. Veja imagens dos pontos citados:

Imagens da planta do imóvel mostram que ele não teria visão da sala. Foto: Reprodução

Laudo mostra que o investigado não teria visão na sala. Foto: Reprodução

COMPORTAMENTO DO INVESTIGADO LEVANTOU SUSPEITAS

Testemunhas relataram que o tenente-coronel teve uma postura considerada atípica:

  • não demonstrou desespero;

  • permaneceu ao telefone durante o socorro;

  • não acompanhou a vítima ao hospital;

  • e insistiu em tomar banho após o ocorrido, mesmo sendo orientado a não alterar a cena.

A atitude é vista pela investigação como possível tentativa de eliminar vestígios. Relembre imagens das câmeras de segurança:

HISTÓRICO DE VIOLÊNCIA REFORÇA FEMINICÍDIO

Depoimentos de familiares revelaram um relacionamento marcado por controle, ciúmes excessivos e violência psicológica.

Segundo relatos, Gisele era impedida de sair sozinha, sofria humilhações e havia tentado se afastar do investigado dias antes do crime. A filha da vítima também relatava medo das brigas constantes. Familiares afirmaram ainda que Gisele não tinha histórico de depressão ou comportamento suicida, além de estar satisfeita com a vida profissional e pessoal. Veja algumas das mensagens trocadas:

RÉU POR FEMINICÍDIO E ALVO DA JUSTIÇA MILITAR 

Com base no conjunto de provas — incluindo laudos periciais, reconstituição, depoimentos e análise da cena — a Polícia Civil concluiu que a hipótese de suicídio é inviável. O Ministério Público denunciou o tenente-coronel por feminicídio e fraude processual, e a Justiça aceitou a acusação, tornando-o réu.

Além disso, ele também é investigado pela Justiça Militar, responsável por apurar crimes envolvendo policiais. Para os investigadores, o caso reúne elementos típicos de feminicídio: histórico de violência, tentativa de controle da narrativa e inconsistências graves na versão do suspeito. Veja o momento da saída do Tenente-Coronel da delegacia:

A soma das evidências técnicas e testemunhais aponta que Gisele não tirou a própria vida, mas foi vítima de um crime dentro de casa — cenário que agora será analisado pela Justiça.

LEIA NA ÍNTEGRA A NOTA DA DEFESA DO TENENTE-CORONEL:

O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.

Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.

Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.

Informa, por fim, que já ajuizou Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.

Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade. A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.

Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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