O relatório final da Polícia Civil sobre a morte da soldado da PM Gisele Alves Santana traz novos elementos considerados decisivos para o avanço da investigação. A análise das imagens das câmeras corporais dos policiais que atenderam a ocorrência revela uma sequência de falas, contradições e atitudes que levantaram suspeitas ainda no local do crime, no dia 18 de fevereiro de 2026.
Os registros examinados são das câmeras do soldado D.S., do cabo F., do tenente L. e do soldado P. Segundo os investigadores, os vídeos têm alto valor probatório por registrarem, em tempo real, os diálogos e o comportamento do tenente-coronel Geraldo Neto logo após o disparo que matou a vítima.
Primeira versão e omissões
Nas imagens da câmera de D.S., que chega ao 27º andar às 08h25, aparece a primeira fala espontânea do investigado, ainda nos momentos iniciais:
Ten. Cel Neto: - “A gente ia se separar. Falei para ela que ia separar, entrei no banho, no banheiro aqui e ela entrou no outro; daqui a pouco eu escutei o barulho e eu saí, achei que ela tivesse batido a porta com força porque ela estava nervosa, mas ela estava lá caída”
Para a Polícia Civil, a fala chama atenção pela ausência de detalhes fundamentais. O investigado não menciona a origem da arma, nem explica como Gisele teria tido acesso a ela.
Pouco depois, ao ser questionado diretamente por D.S., o próprio Geraldo confirma:
Ten. Cel Neto -“Pelo o que eu saiba não. Porque essa arma é minha. Ela nunca foi policial, ela trabalha interno. Ela deixa a arma dela no quartel. Ela so pega arma pra fazer .... Entao a arma dela ela deixa lá. Eu que trago minha arma para casa.”
Com isso, segundo o relatório, ele admite que a pistola usada no disparo era de sua propriedade exclusiva.
PONTO-CHAVE: ONDE ESTAVA A ARMA?
Durante um momento registrado pelas câmeras, o investigado conduz um desembargador pelo apartamento e aponta para o guarda-roupa:
Ten. Cel. Neto: - "Só que a minha arma eu deixo em cima do guarda roupa, nesse quarto, e deixo a porta trancada. Como ela entrou no banho, e o banho dela, normalmente, demora 30 ou 40 minutos e o meu demora 5, eu não me preocupei em trancar a porta do quarto. Eu entrei no banho, deixei a porta do quarto aberta, foi ela sair do banho."
O gesto indica a parte superior do móvel. Para a Polícia Civil, essa fala é crucial, pois reforça a conclusão pericial de que Gisele, de baixa estatura, não teria condições de alcançar o local sem apoio — e nenhum objeto auxiliar foi encontrado no quarto.
CONTRADIÇÃO SOBRE O BANHO
O relatório diz que um dos momentos importantes é quando Geraldo Leite anuncia a intenção de tomar banho. O Soldado Dos Santos e o Cabo Fernandes tentam impedir, mas o investigado recusa de forma ríspida, afirmando que "o local está preservado" e que "não vai fugir". Ao tentar entrar no banheiro novamente, Geraldo é confrontado pelo Cabo F.:
F.: “Você não disse que acabou de tomar banho?”
Diante da pergunta, ele altera a narrativa:
Neto: “Irmão, eu entrei no banho, liguei o chuveiro, eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta. Peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho. Eu nem fiz a barba ainda, fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro irmão”.
Para os investigadores, essa mudança compromete diretamente a cronologia apresentada por ele e evidencia inconsistência na versão inicial.
Insistência em tomar banho e risco de provas
Mesmo alertado, o investigado insiste em tomar banho. Os policiais demonstram preocupação com a possível perda de vestígios.
Em determinado momento, Cabo F. alerta o Tenente L:
Tenente L.: “só pra você entender como está sendo feito, (inicia falando) ele vai se tro... (não termina a frase) ele vai terminar a assessoria jurídica dele ai”
CB F: “ele vai fazer residuográfico antes né?”
Tenente L.: “depende do que o perito falar, eu não vi nada”
CB F.: “vai deixar ele tomar banho e tudo?”
Tenente L.: “ah billy, não tem como ele ir assim”
CB F.: “se tomar banho vai perder tudo os baguio da mão, e as conversas dele tá estranha, é Tenente Coronel né, porque se fosse um paisano a gente já arrasta pra perto... porque as conversas dele tá estranha”
Ainda assim, Geraldo mantém a decisão:
Neto - “Entrei no chuveiro e logo saí. Vou tomar banho!”
Após cerca de cinco minutos, ele deixa o banheiro. As imagens mostram que, em seguida, ele dobra a bermuda que vestia e a guarda no armário. A peça foi apreendida depois e apresentava vestígios de sangue.
TENTATIVA DE QUESTIONAR A CENA
Em outro trecho, ao retornar ao apartamento, o investigado afirma:
Neto - “O quarto não estava assim.”
A fala é imediatamente rebatida pelo cabo F.:
F.: - “Toda ocorrência é filmada. Esse tipo de questionamento não cabe.”
Para a Polícia Civil, o diálogo indica uma tentativa de sugerir alteração na cena, rapidamente neutralizada pelos agentes. VEJA A MATÉRIA COMPLETA SOBRE O CASO GISELE EXIBIDA NO PROGRAMA "PATRULHA COM LUIZ FORTES":
Estranhamento entre os policiais
Após a saída do investigado, as próprias imagens revelam o nível de desconfiança entre os policiais.
O tenente L. comenta com a equipe e critica a atitude do investigado:
“O armamento é dele, ele estava no local, ela está com um tiro na cabeça e tem alguns detalhes ali que eu não entendi. Mas eu não ligo para desembargador para vir no local, certo? Mas você é amigo pessoal dele, entende a diferença? Eu não tiro a camiseta e vou tomar banho, certo?.”
Ausência de sangue e comportamento atípico
Em outro momento, registrado pela própria câmera, Tenente L. aprofunda as suspeitas ao conversar com outros policiais:
“Ele não tem marca de sangue com ele porque geralmente quando você sai e vê alguém com um disparo, você não abaixa e pega o armamento? você não vê se tem pulsação? [...] a pessoa geralmente tenta socorrer, abraça a pessoa, não é? Não tem nada, não tinha sangue com ele. É estranho.”
O tenente também destaca outra atitude estranha com o fato de que a primeira atitude de Geraldo foi ligar para um Desembargador ir até o local. Além disso, chama atenção para o excesso de justificativas do investigado:
- “É muita ênfase nos detalhes.”
Conclusão da Polícia Civil
Para a Polícia Civil, o conjunto dessas falas — captadas em tempo real — tem peso decisivo na investigação. O relatório aponta que:
As contradições surgem ainda nos primeiros minutos;
O comportamento do investigado já gerava desconfiança imediata;
Houve risco concreto de destruição de provas;
A versão apresentada não é compatível com os elementos objetivos da cena.
Segundo os investigadores, os vídeos não apenas confirmam os depoimentos colhidos ao longo do inquérito, como também evidenciam, de forma direta, incoerências e atitudes suspeitas do tenente-coronel.
A conclusão é que as imagens das câmeras corporais reforçam a tese de que a dinâmica do crime não corresponde à narrativa apresentada pelo investigado — e que os indícios de irregularidade estavam visíveis desde os primeiros momentos da ocorrência.