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Lucas Padula

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CASO GISELE: Laudos, depoimentos e fraudes processual: entenda o que levou a prisão do Tenente-Coronel

Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita após inconsistências apontadas por laudos periciais.

Tenente-coronel PM preso por feminicídio de policial Gisele | Reprodução

Após prestar um longo depoimento, sobre a investigação sobre a morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, foi preso preventivamente na manhã desta quarta-feira (18), em São José dos Campos, após ser indiciado por feminicídio e fraude processual.

A prisão foi decretada pela Justiça Militar, com aval do Ministério Público de São Paulo e após pedido da Corregedoria da PM, com base em elementos reunidos pela Polícia Civil. Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita após inconsistências apontadas por laudos periciais. Após ser ouvido na delegacia responsável, Geraldo foi levado para o IML e posteriormente deve ser levado para o presídio Romão Gomes.

Laudos desmontam versão de suicídio

Dos 24 laudos elaborados pela Polícia Técnico-Científica, ao menos dois foram considerados cruciais para afastar a hipótese de suicídio: a análise da trajetória do disparo e a profundidade dos ferimentos no pescoço da vítima.

Segundo os peritos, Gisele foi imobilizada pelo pescoço, possivelmente perdeu a consciência e, em seguida, foi baleada. A trajetória da bala que atingiu a cabeça pelas costas é incompatível com um disparo autoinfligido.

Além disso, exames realizados após a exumação do corpo, no dia 7 de março, identificaram marcas de pressão e lesões que indicam luta corporal. Os laudos também confirmaram que a policial não estava grávida e não havia consumido álcool ou drogas.

Outro elemento que reforçou a suspeita de homicídio foi a análise da dinâmica do sangue no local. Peritos identificaram manchas em pontos considerados incompatíveis com um suicídio, sugerindo que a cena do crime foi manipulada.

Arma foi encontrada na mão da PM Gisele Alves - Foto: Reprodução

Indícios de fraude e tentativa de ocultação

A investigação aponta que o tenente-coronel teria alterado a cena para simular suicídio. Vestígios de sangue foram encontrados em roupas do oficial, no banheiro e em uma toalha, mesmo após ele alegar não ter tido contato com o sangue da vítima.

De acordo com os autos, o policial tomou banho após o ocorrido, mesmo sendo orientado a não fazê-lo, e utilizou sua posição hierárquica para impor decisões no local. A atitude é vista como tentativa de eliminar provas, como resíduos de pólvora.

Também foi identificado um intervalo de cerca de 33 minutos entre o momento em que uma vizinha ouviu o disparo, por volta das 7h28, e o acionamento do socorro, às 8h01. Nesse período, segundo a investigação, o oficial realizou ligações pessoais antes de acionar a polícia.

Prisão e desdobramentos

Na decisão que decretou a prisão preventiva, o Tribunal de Justiça Militar destacou a gravidade dos fatos, o risco de interferência nas investigações e a possibilidade de influência sobre testemunhas.

“O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados”, informou o tribunal em nota.

A Justiça também autorizou a apreensão de celulares, quebra de sigilo de dados eletrônicos e compartilhamento de provas com a Polícia Civil. Após ser detido, Geraldo foi encaminhado ao 8º Distrito Policial, no Brás, onde será interrogado e passará por exames de corpo de delito. Em seguida, deverá ser transferido para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital.

Tenente-Coronel Geraldo Leite Rosa e Gisele Alves Santana - Foto: Reprodução

 Defesa questiona competência da Justiça Militar

A defesa do tenente-coronel contestou a legalidade da prisão, afirmando que a Justiça Militar não teria competência para julgar o caso. “A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares”, declarou o advogado Eugênio Malavasi, que pretende suscitar conflito de competência com a Justiça comum.

Até então, o oficial sustentava que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão — versão agora considerada inconsistente diante das evidências reunidas.

Histórico de violência e impacto institucional

A investigação também aponta que Gisele teria sido vítima de violência física, psicológica e patrimonial ao longo do relacionamento. Para a Justiça Militar, o caso ganha contornos ainda mais graves por envolver um oficial de alta patente e o possível uso da estrutura da corporação para cometer e ocultar o crime.

Na decisão, o magistrado classificou a conduta como de “elevadíssima reprovabilidade”, ressaltando que o episódio abala a credibilidade da Polícia Militar e compromete a disciplina interna. O inquérito policial militar deve ser concluído nos próximos dias, enquanto as investigações da Polícia Civil seguem em paralelo para o completo esclarecimento do caso.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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