SEÇÕES

Lucas Padula

Acompanhe as notícias mais relevantes e principais acontecimentos de São Paulo

Lista de Colunas

CASO GISELE: Justiça pede para polícia investigar caso como feminicídio; Marido pode ser investigado

A mudança foi pedida após divulgação de laudos indicarem que a vítima tinha lesões no pescoço e rosto

Defesa do Tenente-Coronel disse que Geraldo ainda não é investigado. | Foto: Reprodução

A morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava com o marido, passou a ser investigada como feminicídio após decisão da Justiça de São Paulo. Com a mudança na linha de investigação, o marido da vítima, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, pode ser investigado no caso.

Inicialmente, a ocorrência registrada pela polícia indicava suicídio. No entanto, após contestação da família da policial, o caso foi reclassificado primeiro como morte suspeita e agora passou a ser tratado como possível feminicídio, crime cuja pena pode variar de 20 a 40 anos de prisão.

A mudança ocorreu após a conclusão de um novo laudo necroscópico, realizado depois da exumação do corpo. Segundo os peritos, o exame identificou lesões no rosto e no pescoço da vítima, além de indícios de que ela pode ter desmaiado antes de ser baleada na cabeça. O documento também aponta que não houve sinais de defesa.

Gisele morreu no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia com o marido. Foi o próprio tenente-coronel quem acionou o socorro após o disparo.

A defesa de Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que o Tenente-Coronel ainda não é tratado como "investigado, suspeito ou indiciado no procedimento formal em curso" e que desde o início das investigações "tem colaborado com as autoridades competentes e permanece à disposição para o esclarecimento dos fatos". Leia mais informações abaixo

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que o caso segue em investigação e que detalhes não serão divulgados por causa do sigilo judicial.

Ainda nesta quarta-feira (11), representantes da Secretaria da Segurança, do Ministério Público, o delegado responsável pelo caso e o perito devem se reunir para discutir o andamento das investigações. A expectativa é pela liberação de outro laudo pericial, que poderá embasar eventuais novas medidas, incluindo um possível pedido de prisão do tenente-coronel.

LAUDO REVELA ESGANADURA E INDÍCIOS DE AGRESSÃO

O laudo necroscópico, elaborado após a exumação do corpo de Gisele realizada em 6 de março, apontou a presença de lesões no pescoço e rosto da vítima, sugerindo que ela pode ter sido agredida antes de ser baleada. As marcas indicam sinais de "pressão digital e escoriação compatível com marcas de unha". Essas descobertas reforçam a teoria de que Gisele pode ter desmaiado antes de ser atingida pelo tiro fatal.

Imagens de câmeras de segurança e depoimentos de testemunhas estão ajudando a reconstruir o que aconteceu no apartamento naquele dia. De acordo com uma testemunha, a inspetora Fabiana, do condomínio onde o casal morava, diversas pessoas entraram no imóvel após a morte de Gisele.

Fabiana relatou que três policiais chegaram ao apartamento às 17h48 para fazer a limpeza do local. Além disso, ela mencionou que o tenente-coronel retornou ao imóvel no mesmo dia para pegar alguns objetos antes de seguir para São José dos Campos, no Vale do Paraíba.

A mesma testemunha ainda afirmou que, após o atendimento inicial à vítima, o coronel ficou no corredor do prédio conversando ao telefone e com os policiais. Quando soube que Gisele ainda estava viva, teria dito: "ela não vai sobreviver."

IMAGENS DE CÂMERAS DE SEGURANÇA, ÁUDIO PEDINDO SOCORRO E HORÁRIO DO TIRO

Um detalhe relacionado ao horário do disparo passou a chamar a atenção dos investigadores que apuram a morte da soldado da Polícia Militar. Segundo o relato de uma vizinha à polícia, ela acordou por volta das 7h28 após ouvir um estampido forte e único vindo do imóvel do casal. O horário mencionado pela testemunha antecede em cerca de meia hora o primeiro contato feito pelo marido da vítima com o serviço de emergência.

Imagens obtidas pela reportagem mostram que, logo após o disparo, por volta das 8h, Neto aparece no corredor do andar do apartamento falando ao telefone. Na ligação feita ao número 190, ele afirma que a esposa teria tirado a própria vida.

“Alô. É o tenente-coronel Neto, estou no Brás. A minha esposa é policial feminina, ela se matou com um tiro na cabeça. Manda um resgate, uma viatura aqui agora, por favor”, disse o oficial durante a chamada.

Pouco depois, ele também acionou o Corpo de Bombeiros e relatou que a vítima ainda estaria respirando. OUÇA OS ÁUDIOS:

As gravações mostram que às 8h02 o tenente-coronel aparece no corredor sem camisa, falando ao telefone. Três minutos depois, às 8h05, ele surge novamente fazendo outra ligação, que seria para o Corpo de Bombeiros. Já às 8h13, equipes do Corpo de Bombeiros chegam ao prédio. Gisele foi retirada do local e encaminhada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos.

Por volta das 9h, as câmeras registraram a chegada de um homem identificado pela investigação como o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. De acordo com o inquérito, o magistrado foi chamado por Neto, que o descreveu como amigo pessoal.

Segundo o boletim de ocorrência, mesmo após ser orientado a não retornar ao imóvel para preservar a cena, o tenente-coronel voltou ao apartamento acompanhado do desembargador. No local, ele tomou banho e trocou de roupa.

Em depoimento, Neto afirmou que decidiu se lavar e mudar de roupa porque acreditava que ficaria afastado de casa por um longo período.

Esse comportamento chamou a atenção dos investigadores, já que na versão inicial o oficial havia declarado que estava tomando banho quando ouviu o disparo da arma de fogo e encontrou a esposa caída no chão.

Em nota, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que foi acionado como amigo do coronel após o ocorrido. Ele acrescentou que, caso sejam necessários, os esclarecimentos serão prestados à Polícia Judiciária. VEJA OS VÍDEOS DAS CÂMERAS DE SEGURANÇA:

DEPOIMENTOS DE TESTEMUNHAS

Policiais militares que estavam no prédio no dia do ocorrido relataram, em depoimento, que o tenente-coronel informou que tomaria banho mesmo após receber orientação para não entrar no apartamento naquele momento.

Uma das testemunhas afirmou que o oficial ignorou a recomendação e entrou no imóvel acompanhado do desembargador. Outro policial confirmou a mesma versão, relatando que Neto acessou o local apesar da determinação para preservação da cena.

Em outro depoimento, um PM disse que permaneceu próximo ao tenente-coronel e ao magistrado por um período dentro do apartamento. Segundo ele, o desembargador não explicou o motivo de sua presença no local.

O policial também afirmou que o oficial aparentava estar seco no momento do resgate e disse não se recordar de ter visto toalhas no local, o que contradiz a versão de que Neto estaria no banho quando ouviu o disparo.

Durante a vistoria no imóvel, o agente relatou ainda ter visto fardas penduradas em cabides do lado de fora do guarda-roupa, além de um colete balístico. Sobre a cama havia uma árvore de Natal, objeto que, segundo o depoimento, foi questionado pelo próprio tenente-coronel, que afirmou que alguém poderia ter mexido em seu quarto. VEJA A MATÉRIA EXIBIDA NO PROGRAMA 'PATRULHA COM LUIZ FORTES':

BOMBEIRO ESTRANHO POSIÇÃO DA VÍTIMA 

Um dos bombeiros que participou do atendimento também apontou inconsistências na cena encontrada no apartamento. Segundo o relato, Gisele estava caída entre o sofá e a estante da sala, com grande quantidade de sangue na região da cabeça, parte dele já coagulado. A policial segurava a arma na mão direita, mas com o dedo fora do gatilho.

O bombeiro afirmou ter considerado a situação incomum e decidiu fotografar o local por iniciativa própria, com o objetivo de preservar registros da cena antes da retirada da vítima para atendimento médico.

Ele relatou ainda que procurou o cartucho da arma no ambiente, mas não o encontrou. De acordo com o depoimento, a vítima não apresentava rigidez cadavérica, e a arma foi retirada da mão dela com facilidade.

LEIA NOTA NA ÍNTEGRA DA DEFESA DO TENENTE-CORONEL

"O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.

Até o presente momento, o Tenente-Coronel não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento formal em curso. Desde o início das apurações, tem colaborado com as autoridades competentes e permanece à disposição para o esclarecimento dos fatos.

Não obstante a distribuição dos autos da investigação para a 5ª Vara do Júri da Comarca da Capital/SP, trata-se de circunstância processual absolutamente comum, ante a ocorrência de morte – cujo resultado decorreu do trágico suicídio de sua esposa – o que, pela própria natureza do fato investigado, atrai a competência do rito especial do Júri, por força constitucional (art. 5º, XXXVIII, “d”). 

Ademais, malgrado as informações veiculadas na imprensa no sentido de que a prisão preventiva do Tenente-Coronel tenha sido decretada, a Defesa, por ora, desconhece a existência de qualquer determinação do Poder Judiciário nesse sentido, tratando-se, portanto, de meras ilações.

Independentemente disso, é certo que sua equipe jurídica reprochará toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha a vilipendiar direitos fundamentais assegurados constitucionalmente ao Tenente-Coronel.

Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel permanece à disposição para colaborar com a completa elucidação dos fatos".

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
Tópicos
Carregue mais
Veja Também