- Cenipa divulga relatório final sobre queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, com 62 mortos.
- Relatório inclui análise de caixas-pretas, reconstrução do voo e exames de sistemas da aeronave envolvida.
- Documento foi revisado por autoridades francesa e canadense, conforme protocolos internacionais.
- Investigação criminal da Polícia Federal avança, com expectativa de conclusão nos próximos dias.
- Familiares das vítimas planejam ação coletiva por danos morais após conclusão do inquérito.
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulga nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do avião da Voepass, ocorrida em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, acidente que deixou 62 mortos.
Antes da divulgação pública, o órgão fará uma apresentação reservada aos familiares das vítimas. Em seguida, às 17h, investigadores concederão uma coletiva de imprensa, em Brasília (DF), para apresentar as conclusões da investigação.
O que será divulgado?
O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) para identificar os fatores que contribuíram para a queda do avião da Voepass. Durante a apuração, os investigadores realizaram dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou ao acidente.
Entre os principais procedimentos realizados estão:
- análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
- reconstrução completa do voo, incluindo os comandos realizados pelos pilotos e os alertas emitidos pela aeronave;
- exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
- análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
- entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
- estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves do mesmo modelo operadas pela companhia;
- testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
- análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos.
Segundo o Cenipa, também foram examinados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave, além das lâmpadas dos painéis de instrumentos, para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Revisão internacional
Antes de ser divulgado, o relatório final passou pelas etapas previstas nos protocolos internacionais para investigações de acidentes aeronáuticos.
O documento foi analisado pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, órgão responsável pelo projeto e pela fabricação do ATR 72-500, e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.
A revisão por autoridades dos países envolvidos faz parte do processo de validação técnica previsto para investigações desse tipo.
O relatório aponta culpados?
A investigação conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) tem caráter exclusivamente preventivo. O objetivo é identificar os fatores que contribuíram para o acidente e emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação.
O relatório final não atribui responsabilidades civis ou criminais aos envolvidos nem tem finalidade de apurar culpa pelo acidente.
Investigação criminal também está na reta final
Paralelamente à investigação técnica do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar a existência de eventuais crimes e identificar possíveis responsáveis pela queda da aeronave.
No fim de junho, representantes das famílias das vítimas tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine do avião. O documento integra o laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que subsidia a investigação da Polícia Federal.
As gravações eram consideradas importantes para esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo, uma das hipóteses analisadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares das vítimas, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito nos próximos dias e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá sobre eventuais medidas judiciais.
Ação judicial
Após a conclusão do inquérito da Polícia Federal, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais.
Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização que já estão em andamento. O objetivo é buscar a responsabilização civil de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que, conforme a apuração, possam ter contribuído, por ação ou omissão, para o acidente.
O que diz a Voepass
Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas.
A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.