- Delegada Vilma Alves morreu em Teresina após sofrer infarto e parada cardíaca, em estado grave desde terça-feira.
- Primeira mulher e primeira negra a ser delegada do Piauí, dedicou quase 50 anos à segurança pública e defesa dos direitos das mulheres.
- Construiu carreira em ambiente predominantemente masculino, enfrentando preconceito e conquistando espaços na Polícia Civil e na corregedoria.
- Defendeu autonomia feminina, destacou importância da Lei Maria da Penha e atuou em combate à violência contra a mulher.
- Deixou legado de pioneirismo e ativismo, falecimento foi comunicado pela família nas redes sociais após internação hospitalar.
A delegada Vilma Alves morreu neste sábado (22), em Teresina, após ser internada em estado grave na terça-feira (18), depois de sofrer um infarto. Primeira mulher a ingressar na Polícia Civil do Piauí (PC-PI) e primeira a ocupar o cargo de delegada no estado, Vilma dedicou quase cinco décadas à segurança pública e se tornou uma das principais referências na defesa dos direitos das mulheres e no combate à violência no Piauí.
Pioneirismo
Vilma Alves construiu sua trajetória profissional em um período em que a estrutura da segurança pública era predominantemente masculina. Ao longo da carreira, acumulou 36 anos de atuação como delegada, antes de se aposentar.
Ela também foi a primeira corregedora-geral da Polícia Civil do Piauí, ocupando espaços que, até então, eram majoritariamente destinados aos homens.
Em entrevista à TV Meio Norte, em agosto de 2021, Vilma relembrou as dificuldades enfrentadas no início da carreira e a necessidade de conquistar espaço por meio da preparação e do conhecimento.
“Nós éramos invisíveis. Eu digo muito que o trabalho de mulher inserida numa cultura machista é um desafio.”
Segundo a delegada, a presença feminina na segurança pública foi construída ao longo dos anos e exigiu preparação para que as mulheres pudessem ocupar espaços ligados ao direito e à defesa da sociedade.
“Houve uma construção intelectual para que pudéssemos penetrar nesse mundo que é o mundo do direito público.”
Primeira delegada preta
Além de ser a primeira mulher a ingressar na Polícia Civil do Piauí, Vilma Alves também foi a primeira delegada preta do estado.
Em entrevista concedida em 2012, ela contou que o preconceito racial ficou mais evidente quando começou a trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. Segundo seu relato, foi naquele ambiente que percebeu pela primeira vez que sua presença era observada de maneira diferente.
“Quando eu cheguei na Secretaria de Segurança, quando eu fui trabalhar, eu fui, pela primeira vez, eu me senti medida pesada.”
Vilma relatou que foi questionada sobre sua presença naquele espaço, mas demonstrou sua preparação profissional. Ela também contou que foi escolhida para trabalhar com dossiês relacionados ao AI-5, durante o período da ditadura militar.
Defesa feminina
A atuação de Vilma Alves também foi marcada pela defesa dos direitos das mulheres. Ela participou de movimentos ligados à pauta feminina e acompanhou as transformações nas políticas de enfrentamento à violência.
Ao relembrar a trajetória das mulheres na sociedade, Vilma destacou as mudanças ocorridas ao longo das décadas.
“O século XXI abriu as portas. E hoje a mulher, ela trabalha onde ela quer.”
A delegada também destacava a importância da Lei Maria da Penha para ampliar a proteção às mulheres vítimas de violência.
“Ela veio conquistando e dando a seguridade à mulher dos seus direitos, a proteção, a coragem da mulher.”
Ao longo da carreira, Vilma se tornou referência no combate à violência contra a mulher e participou da defesa e do fortalecimento de estruturas especializadas para o atendimento às vítimas no Piauí.
Infância
Vilma também costumava relembrar a infância em Teresina. Natural da capital, ela contou em entrevista que nasceu na Zona Norte, mas cresceu na Zona Sul.
A delegada descreveu uma infância marcada por brincadeiras, festejos e convivência com familiares. Segundo ela, a avó e a bisavó tiveram papel importante em sua formação.
Na juventude, estudou na Escola Normal Antonino Freire, instituição voltada à formação de professoras. Na época, a carreira de professora era uma das principais possibilidades profissionais para as mulheres.
Vilma, porém, tinha outros planos. Ela cursou Direito e contou que tinha o sonho de se tornar advogada, desejo que também era compartilhado pelo pai.
Liberdade
A defesa da autonomia feminina também aparecia nas falas de Vilma. Em entrevista, ela afirmou que sempre teve uma relação forte com a ideia de liberdade e que não aceitava situações que limitassem seus direitos.
“Eu sou amante da liberdade.”
Ao falar diretamente sobre as mulheres, defendia que elas deveriam conhecer seus direitos e ter autonomia para tomar decisões sobre a própria vida.
“Ela tem que aprender a dizer não para defender a sua liberdade.”
Vilma também ressaltava que a violência contra a mulher não estava restrita a um determinado grupo social.
“A violência contra a mulher não tem cor e nem classe social.”
Últimos dias
Vilma Alves foi internada em um hospital particular de Teresina na terça-feira (18), após sofrer um infarto. Antes de ser encaminhada à unidade de saúde, recebeu os primeiros atendimentos de médicos que eram seus vizinhos e do próprio filho.
Ainda em casa, ela sofreu uma parada cardíaca. Após ser levada ao hospital, teve uma segunda parada cardíaca e permaneceu internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Vilma deixa uma trajetória marcada pelo pioneirismo na Polícia Civil do Piauí, pela atuação como delegada e corregedora-geral e pela defesa dos direitos das mulheres no estado. O falecimento foi comunicado pela família na manhã deste sábado (22), por meio das redes sociais.