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Maioria dos feminicídios no Piauí aconteceu dentro de casa, aponta boletim inédito da SSP

Levantamento com 37 casos registrados em 2025 mostra que parceiros e ex-parceiros foram responsáveis por quase 60% dos crimes.

Feminicídios Piauí 2025: maioria ocorreu dentro de casa | Foto: Getty Images/Reprodução
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A maioria dos feminicídios registrados no Piauí em 2025 aconteceu dentro de casa, segundo o 1º Boletim de Dados de Feminicídio divulgado nesta terça-feira (31) pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-PI). O levantamento aponta que, dos 37 casos contabilizados ao longo de 2025, 22 ocorreram dentro de residências, o que representa 59,5% das ocorrências e reforça o caráter doméstico da violência contra a mulher.

O levantamento reúne informações estratégicas sobre o perfil das vítimas, a dinâmica dos crimes e os principais contextos em que as mortes ocorreram, reforçando a necessidade de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento à violência contra a mulher.

O estudo foi elaborado pela Gerência de Análises Estatísticas (GACE) e pela Superintendência de Cidadania e Defesa Social (SUCID), com apoio técnico do Grupo de Pesquisas em Violências de Gênero e Feminicídios (GEPEFEM) e da Sala Lilás da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Maioria das vítimas tinha entre 25 e 34 anos

De acordo com o boletim, a maior concentração de vítimas está entre mulheres jovens. A faixa etária de 25 a 29 anos lidera os registros, com 6 casos (16,22%), seguida pelo grupo de 30 a 34 anos, com 5 ocorrências (13,51%).

Também foram registrados 4 casos entre mulheres de 15 a 19 anos e outros 4 na faixa de 40 a 44 anos, o que representa 10,81% em cada grupo. O levantamento ainda mostra que a violência letal também atingiu mulheres idosas, com 3 vítimas entre 65 e 79 anos.

86% das vítimas eram mulheres negras

Os dados apontam ainda um recorte racial alarmante. Das 37 vítimas, 29 eram pardas (78,4%), 3 pretas (8,1%) e 5 brancas (14%).

Quando somadas, mulheres pardas e pretas representam 32 vítimas, o equivalente a 86% dos casos, evidenciando a maior vulnerabilidade de mulheres negras diante da violência letal no estado.

Parceiros e ex-parceiros foram responsáveis por quase 60% dos crimes

O boletim mostra que a maior parte dos feminicídios foi cometida por pessoas com vínculo íntimo com as vítimas. Em 22 dos 37 casos (59,5%), os autores eram parceiros ou ex-parceiros. Entre esses casos, 9 crimes (24,3%) foram praticados por ex-companheiros, 6 (16,2%) por companheiros atuais e 3 (8,1%) por cônjuges.

Os vínculos familiares também aparecem de forma significativa, com 9 casos (24,3%). Nessa categoria, os autores eram irmãos (3), padrastos (2), primos (2), além de genro (1) e sobrinho (1).

Casa foi o principal cenário dos feminicídios

A residência da vítima aparece como o principal local onde os crimes aconteceram. Segundo o levantamento, 22 feminicídios (59,5%) ocorreram dentro de casa, reforçando o caráter doméstico e íntimo da violência.

Outros 7 casos (18,9%) ocorreram na zona rural, enquanto 4 crimes (10,8%) foram registrados em via pública. Também houve ocorrências isoladas em centro urbano, comércio, povoado e até em rio, com 1 caso cada (2,7%).

Domingo foi o dia com mais feminicídios

A análise temporal mostra que os domingos concentram o maior número de ocorrências, com 10 casos (27,03%). Na sequência aparecem segunda-feira, quarta-feira e sábado, com 6 casos cada (16,22%). Já a sexta-feira registrou 3 casos (8,11%), e a quinta-feira, 1 caso (2,70%).

Quanto ao período do dia, a maior incidência foi registrada à tarde, com 15 casos (40,54%). Em seguida aparecem a manhã, com 12 ocorrências (32,43%), e a noite, com 8 casos (21,62%).

Em quase 80% dos casos, vítimas não haviam registrado boletim de ocorrência

Um dos dados mais preocupantes do boletim revela que, em 29 dos 37 casos de feminicídio (78,4%), a vítima não havia registrado boletim de ocorrência contra o autor antes do crime. O número reforça os desafios no acesso à rede de proteção e na identificação precoce de situações de risco.

Teresina lidera número de casos; março foi o mês mais letal

Entre os municípios, Teresina concentra o maior número de feminicídios em 2025, com 9 casos (24,3%). Em seguida aparece Parnaíba, com 6 registros (16,2%). O município de Dom Expedito Lopes teve 2 casos (5,4%), enquanto os outros 20 feminicídios foram distribuídos em 20 cidades diferentes, com 1 ocorrência em cada município.

Na análise mensal, março foi o mês mais letal, com 9 casos (24,32%), seguido por janeiro, com 8 casos (21,62%). Juntos, os dois meses concentram quase metade de todos os feminicídios registrados no ano (45,94%).

Já fevereiro, julho e dezembro tiveram 3 casos cada (8,11%). Os meses com menor incidência foram junho, agosto e outubro, com 1 ocorrência cada (2,70%).

Arma branca foi predominante entre vítimas brancas; entre mulheres negras, violência foi mais diversificada

O cruzamento entre o instrumento utilizado no crime e a cor da pele das vítimas revela diferenças no padrão da violência. Entre as vítimas brancas (5 casos), a arma branca foi o meio mais utilizado, com 3 ocorrências (60%), seguida pela arma de fogo, com 2 casos (40%). Não houve registros de envenenamento ou outros métodos nesse grupo.

Já entre as vítimas negras (32 casos, somando pardas e pretas), o cenário foi mais diversificado:

    •    Arma branca: 11 casos (34,38%)

    •    Outros instrumentos: 12 casos (37,50%)

    •    Arma de fogo: 5 casos (15,63%)

    •    Envenenamento: 4 casos (12,50%)

Para o delegado João Marcelo Brasileiro, o boletim representa um avanço importante na produção de inteligência aplicada à segurança pública.

“Esse levantamento, baseado em 37 casos, mostra com clareza o perfil das vítimas e a dinâmica dos crimes. A maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa, praticados por pessoas próximas, principalmente companheiros ou ex-companheiros. O primeiro boletim de dados de feminicídio é um instrumento que vai auxiliar o Estado do Piauí a enfrentar este crime, bem como reforçar o compromisso da Secretaria de Segurança Pública com a transparência dos dados, buscando maior proximidade com a sociedade civil e também com a academia, por meio das universidades”, afirmou.

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