SEÇÕES

“A IA pode pensar, mas a decisão continuará sendo humana”, diz Guilherme Horn

Executivo do WhatsApp defende que a inteligência artificial amplia capacidades humanas, mas não substitui o julgamento e a responsabilidade

Ver Resumo
  • Guilherme Horn lança livro sobre IA e humanidade, destacando que a tecnologia amplia capacidades, mas não substitui o julgamento humano.
  • Executivo alerta que líderes cometem erros ao delegar decisões à IA, ignorando valores e contexto humano essenciais.
  • IA pode potencializar empatia, criatividade e propósito, mas não sente emoções nem possui intencionalidade.
  • Relação do brasileiro com o WhatsApp é marcada por conversa diária, tornando-o plataforma central para negócios e comunicação.
  • Adoção da IA nas empresas exige transformação humana, combinando tecnologia com discernimento e responsabilidade.
Guilherme Horn, head do WhatsApp | Foto: Reprodução
Siga-nos no

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar parte da rotina de empresas e pessoas. Em meio ao avanço acelerado dessa tecnologia, cresce também o debate sobre seus limites, impactos no mercado de trabalho e o papel do ser humano em um cenário cada vez mais automatizado.

 É nesse contexto que o executivo Guilherme Horn lança o livro O Mindset da IA – Ela pensa, você decide, obra que propõe uma reflexão sobre como a inteligência artificial pode ampliar capacidades, sem substituir o julgamento humano.

Em entrevista exclusiva ao MeioNews, Guilherme Horn — head do WhatsApp para Mercados Estratégicos, responsável pelas operações da plataforma no Brasil, Índia e Indonésia, e referência em inovação e transformação digital — fala sobre os desafios da adoção da IA nas empresas, o futuro das profissões, a relação dos brasileiros com o WhatsApp e alerta que o maior erro dos líderes é delegar decisões à tecnologia. 

“A IA pode ampliar nossas capacidades, mas não substitui o julgamento humano”, afirma o executivo, que também defende que “a liderança do futuro não será definida por quem usa mais IA, mas por quem consegue combinar inteligência artificial com discernimento humano”.

ENTREVISTA COMPLETA

1. O título do livro afirma que a IA "pensa" e o humano "decide". O senhor sustenta que a IA pensa de fato, ou isso é uma licença para vender a ideia?

O título é provocativo de propósito. Quando digo que a IA pensa, não estou afirmando que ela possui consciência, emoções ou intencionalidade como os seres humanos. O que ela faz é processar informações, identificar padrões, formular hipóteses e gerar conteúdo de forma cada vez mais sofisticada. A IA não tem valores, responsabilidade moral nem contexto humano. Por isso, a decisão continua sendo nossa. O ponto central do livro é justamente esse: a IA pode ampliar nossas capacidades, mas não substitui o julgamento humano.

2. O senhor escreve que o medo da IA diz mais sobre o nosso cérebro do que sobre a tecnologia. Que medo concreto o senhor considera infundado? Há medos legítimos diante da IA?

Um medo bastante infundado é o de que a IA vá simplesmente acordar e dominar a humanidade por vontade própria. Essa narrativa faz sucesso porque somos programados para reagir a ameaças desconhecidas, inclusive, foi tema de vários filmes que ficaram no imaginário das pessoas. Por outro lado, existem cuidados legítimos. O uso inadequado de dados, a concentração de investimentos, a disseminação de desinformação e a ampliação das desigualdades são preocupações reais. O desafio não é frear a tecnologia, mas desenvolver governança, educação e responsabilidade para utilizá-la da melhor forma.

3. É seu segundo livro pela mesma editora, depois do best-seller sobre inovação. O que mudou na sua visão entre O Mindset da Inovação, de 2021, e este?

No primeiro livro, minha preocupação principal era mostrar como empresas e profissionais poderiam desenvolver uma mentalidade inovadora em um mundo de mudanças aceleradas. A inovação ainda depende do estabelecimento de uma cultura organizacional que propicie um ambiente seguro para a experimentação. Hoje, com a IA generativa, entramos em uma nova fase. Não estamos apenas diante de uma ferramenta que acelera processos. Estamos diante de uma tecnologia que altera a forma como aprendemos, trabalhamos, criamos e tomamos decisões. A essência continua a mesma, mas se antes a palavra chave era adaptação, agora ela é transformação.

4. O senhor afirma que a cultura organizacional pode acelerar ou sabotar a adoção de IA. Na prática, isso costuma significar decisões. O senhor escreve para o executivo que adota a IA ou para o trabalhador que ela substitui?

Escrevo para ambos. A adoção de IA não é apenas uma decisão tecnológica, é uma transformação humana. O executivo precisa entender que implementar IA não significa apenas comprar ferramentas, mas criar uma cultura de aprendizado, experimentação e transformação. Ao mesmo tempo, o profissional precisa compreender que seu maior risco não é ser substituído pela IA, mas ser substituído por alguém que saiba trabalhar com ela. O livro busca justamente criar uma ponte entre esses dois mundos. O futuro não será construído apenas por líderes que entendem tecnologia, nem apenas por trabalhadores que dominam ferramentas. Será construído por pessoas capazes de combinar tecnologia e julgamento humano.

5. O livro indica a IA capaz de ampliar empatia, criatividade e propósito. Como exemplificar a ampliação, e não terceirização, dessas capacidades?

A IA não sente empatia, não tem propósito, nem valores. Mas ela pode ampliar nossa capacidade em todas as áreas. Na empatia, por exemplo, um profissional pode usar IA para analisar milhares de comentários de clientes e compreender melhor suas necessidades e sentimentos. Empresas que estão adotando IA no atendimento a clientes estão respondendo aos clientes com textos mais elaborados, personalizados e empáticos do que antes, apenas com humanos. Noutro dia ouvi um feedback de um cliente, dizendo algo como: “agora sim sinto que estou falando com um ser humano"; quando na verdade estava acontecendo o contrário. Na criatividade, a IA pode gerar alternativas, referências e caminhos que talvez não considerássemos. Sessões de brainstorming podem ser potencializadas com a IA. Eu sempre tive dificuldade, por exemplo, em encontrar o melhor título para os artigos que escrevo. Agora eu subo o artigo para a IA e peço cinco sugestões de títulos. Aí misturo um pouco de cada e chego ao melhor resultado. Quanto ao propósito, a IA pode nos liberar de tarefas repetitivas, permitindo que dediquemos mais tempo a atividades de maior impacto e significado. Todo dia quando chegava ao escritório, eu costumava dedicar os primeiros 30 minutos à análise de dashboards, que mostravam como os usuários haviam se comportado no dia anterior. Hoje um agente de IA analisa uma quantidade muito maior de dados em tempo real e me avisa caso tenho algo que mereça minha atenção. Com isso, tenho mais tempo para dedicar ao que realmente pode gerar mais impacto dentro das minhas funções.

6. O senhor dirige o WhatsApp num país onde o aplicativo está em quase todos os celulares. Que diferencial o senhor atribui à relação do brasileiro com a ferramenta?

No Brasil temos uma cultura conversacional. Gostamos de pedir opiniões antes de tomar uma decisão. Temos até um termo: ”jogar conversa fora", que mostra como a conversa faz parte do nosso dia a dia. E o brasileiro adotou o WhatsApp como uma plataforma para o seu dia a dia. As pesquisas mostram que o WhatsApp é o primeiro aplicativo que as pessoas abrem quando acordam e o último que elas fecham antes de ir dormir. 

7. O WhatsApp virou ferramenta de venda para milhões de pequenos empreendedores no Brasil. Quanto desse uso é estratégia da empresa e quanto foi o brasileiro que se virou sozinho com o que tinha à mão?

Esse movimento aconteceu de forma espontânea e ganhou muito força na pandemia, quando o WhatsApp foi responsável por manter muitas pequenas empresas vivas, pois era o único meio de comunicação com os clientes, principalmente para aqueles negócios que não tinham nenhuma presença no mundo digital. Para esses, o WhatsApp foi também a ponte que os levou ao mundo digital.

8. Daqui a cinco anos, qual tarefa que o senhor faz hoje no seu trabalho e a IA estará fazendo no seu lugar?

Provavelmente grande parte do trabalho de pesquisa, preparação de materiais, participações em reuniões, análise de informações e produção de conteúdo. Hoje ainda gasto tempo reunindo dados, estruturando apresentações e organizando conhecimento. Em pouco tempo, agentes de IA farão isso por mim. O que continuará sendo essencial será definir prioridades, formular perguntas relevantes, interpretar contextos complexos, construir relacionamentos e tomar decisões. Quanto mais a IA assumir tarefas operacionais e cognitivas de baixa e média complexidades, mais valiosas se tornarão as capacidades genuinamente humanas.

9. No Brasil, onde a penetração do WhatsApp é de praticamente 100%, a jornada de inovação das empresas inverteu. Antigamente, o primeiro passo de um projeto digital era: 'Precisamos criar um aplicativo próprio'. Hoje, a estratégia passou a ser: 'Precisamos criar uma solução nativa dentro do WhatsApp'. Na sua visão, o modelo tradicional de aplicativos dedicados perdeu o sentido para o mercado brasileiro, dando lugar a essa descentralização em canais conversacionais.

Muitas das funções presentes em aplicativos podem ser executadas por meio de conversas dentro do WhatsApp. Por exemplo, uma companhia aérea pode vender uma passagem por meio de uma conversa. O cliente pode, inclusive, reservar assento, pagar por uma bagagem extra, tudo isso por meio de uma conversa, de uma forma muito mais natural e simples. Esse movimento já está acontecendo. Existem bancos que já têm dezenas de processos e transações sendo feitos por meio de conversas no WhatsApp. Isso não significa que os aplicativos vão deixar de existir. Até mesmo porque tem usuários que vão preferir usar o aplicativo. Porém, o WhatsApp já é uma plataforma presente na grande maioria dos celulares, aberta o dia inteiro e sem necessidade de aprendizado. Passa a ser mais natural para as empresas usar o WhatsApp do que investir no direcionamento do usuário para um aplicativo específico.

10. Como o líder de tecnologia decide o equilíbrio saudável entre usar a força do WhatsApp e não ficar refém de um único ecossistema?

Líderes de tecnologia estão sempre tomando decisões sobre que tecnologias adotar em seus negócios. Quando o líder escolhe um fornecedor ou tecnologia para o banco de dados principal da empresa, ele sabe que ele estará vinculado a ele por muito tempo. Quando escolhe a linguagem de programação, a mesma coisa. Sistemas de segurança, idem. Esse é o dia a dia de um líder da área. Ele deve ser capaz de desenvolver sua própria metodologia para tomada de decisão. 

11. No cenário atual, em que a automação busca eficiência máxima, qual é o maior erro que os líderes cometem ao tentar delegar o 'pensamento' e a 'decisão' para a IA antes da hora?

Um dos maiores erros é confundir recomendação com decisão. A IA pode indicar probabilidades, sugerir caminhos e analisar volumes gigantescos de informação. Mas ela não assume consequências. Toda decisão relevante envolve fatores que nem sempre aparecem nos dados: cultura, reputação, valores, contexto social, impacto humano e visão de longo prazo. Quando um líder transfere integralmente sua capacidade de julgamento para a IA, ele não está sendo mais eficiente; está abrindo mão de sua principal responsabilidade. A liderança do futuro não será definida por quem usa mais IA, mas por quem consegue combinar inteligência artificial com discernimento humano. A tecnologia pode sugerir o caminho. A responsabilidade de escolhê-lo continuará sendo nossa.

Guilherme Horn, head do WhatsApp para Mercados Estratégicos (Brasil, Índia e Indonésia) e autor do livro O mindset da IA – ela pensa, você decide

Tópicos

VER COMENTÁRIOS

Carregue mais
Veja Também