Desde o início de seu pontificado, o Papa Leão XIV tem intensificado os posicionamentos da Igreja Católica contra a pena de morte. Ao longo do último ano, o pontífice fez diversos pronunciamentos defendendo a abolição da punição capital e reforçando o entendimento atual da Igreja de que a prática é moralmente inadmissível.
Em abril, o papa voltou a abordar o tema em diferentes ocasiões. Em uma delas, direcionou a mensagem a ativistas pró-vida de Chicago, sua cidade natal, incentivando a continuidade da mobilização pelo fim das execuções nos Estados Unidos.
Durante o retorno de uma viagem apostólica à África, Leão XIV também condenou publicamente a pena de morte ao afirmar que toda vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção até a morte natural. Em setembro de 2025, o pontífice já havia declarado que apoiar a punição capital contraria os princípios pró-vida defendidos pela Igreja.
Os pronunciamentos do papa seguem a atualização promovida em 2018 pelo Papa Francisco no Catecismo da Igreja Católica. A revisão passou a classificar a pena de morte como “inadmissível”, sob o argumento de que ela representa um atentado contra a dignidade e a inviolabilidade da pessoa humana.
O texto do Catecismo reconhece que, por muito tempo, a execução foi considerada uma resposta aceitável para crimes graves. Entretanto, destaca que houve um avanço na compreensão sobre a dignidade humana, mesmo após delitos considerados severos, além da evolução dos sistemas penitenciários, capazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente dos condenados a possibilidade de redenção.
A mudança de entendimento da Igreja sobre o tema ocorreu gradualmente ao longo das últimas décadas. Na encíclica Evangelium Vitae, publicada em 1995, o Papa João Paulo II já defendia que a execução de criminosos só deveria ocorrer em situações extremas, quando não houvesse outra forma de proteger a sociedade. Na época, o pontífice afirmou que esses casos se tornavam cada vez mais raros diante da modernização dos sistemas penais.
Posteriormente, o Papa Bento XVI também fez apelos públicos pela eliminação da pena de morte e pela reforma dos sistemas prisionais para garantir respeito à dignidade humana dos detentos.
Apesar do posicionamento mais rígido adotado pela Igreja, o debate teológico sobre a aplicação moral da pena capital ainda gera discussões. Especialistas ouvidos pela EWTN News afirmam que permanece um espaço restrito para debate em cenários excepcionais, especialmente em locais sem sistemas eficazes de detenção.
O padre Phillip Brown, presidente do Seminário St. Mary, em Baltimore, destacou que a lei natural reconhece o direito à legítima defesa, inclusive com uso extremo da força, mas afirmou que isso só poderia ocorrer como último recurso. Segundo ele, as sociedades modernas possuem meios suficientes para proteger a população sem recorrer à execução de condenados.
Já monsenhor Stuart Swetland, presidente do Donnelly College, afirmou que teólogos ainda discutem o alcance do termo “inadmissível” usado no Catecismo. Mesmo assim, argumentou que a intenção direta de provocar a morte de uma pessoa torna a pena capital moralmente problemática dentro da doutrina católica atual.
O padre Thomas Petri, teólogo dominicano e ex-presidente da Faculdade Pontifícia da Imaculada Conceição, avaliou que a revisão do Catecismo provocou debates sobre os limites da autoridade do Estado para aplicar a pena de morte. Segundo ele, a Igreja busca reforçar a necessidade de preservar a dignidade humana mesmo nos casos de crimes considerados extremamente graves.
Petri afirmou ainda que o entendimento atual não elimina totalmente hipóteses excepcionais, mas considera que o ônus moral para justificar a execução seria extremamente elevado, especialmente em países com sistemas penitenciários estruturados.
Os Estados Unidos permanecem entre os poucos países desenvolvidos que ainda realizam execuções com frequência. Conferências de bispos católicos norte-americanos têm pressionado autoridades estaduais e federais pelo fim da prática, sobretudo em estados como Texas e Flórida, onde a pena capital continua sendo aplicada regularmente.
Em dezembro de 2025, grupos católicos e organizações civis criaram a Campanha dos EUA para Acabar com a Pena de Morte. A diretora executiva da Catholic Mobilizing Network, Krisanne Vaillancourt Murphy, afirmou à EWTN News que a iniciativa demonstra o fortalecimento do movimento contrário às execuções no país e reúne entidades de diferentes áreas em defesa da abolição da pena capital.