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Pai descobre que filha se automutilava em desafios no Discord: “Ela podia ter morrido”

Adolescente começou a participar de grupos fechados na plataforma e passou a cumprir desafios que envolviam automutilação; pai relata como descobriu a situação e conseguiu interromper o ciclo.

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  • Menina de 13 anos morreu por suicídio após participar de grupos de automutilação no Discord em Naviraí (MS).
  • Pai descobriu que filha estava em grupos fechados e era incentivada a se machucar por outros adolescentes.
  • Menina passou a se isolar, sofria cortes em regiões visíveis e chegou a tomar medicamentos para se matar.
  • Pai proibiu o uso do celular e redes sociais, mas permitiu uso limitado após recuperação da filha.
  • Discord afirma não tolerar incentivo à violência e colabora com autoridades na investigação do caso.
Segundo Paulo, impedir o acesso da filha ao Discord foi uma das medidas que ajudaram no processo de recuperação. | Foto: Reprodução
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O caso de uma menina de 13 anos que morreu por suicídio após uma transmissão ao vivo no Discord, em Naviraí (MS), reacendeu o alerta sobre os riscos de grupos fechados e desafios de automutilação na internet.

Para Paulo Zsa Zsa, nome usado pelo pai para preservar a identidade da família, a notícia trouxe uma lembrança dolorosa. Anos antes, ele havia descoberto que a própria filha, então com 12 anos, participava de grupos na plataforma e era incentivada por outros adolescentes a se machucar.

“Fiquei chocado, porque minha filha podia ter chegado a esse fim”, contou.

O primeiro sinal de alerta apareceu durante um passeio de barco. Uma amiga da família percebeu cortes escondidos sob a roupa de proteção da menina e avisou o pai.

Ao conversar com a filha, Paulo perguntou se ela estava se cortando. Segundo ele, a adolescente não respondeu e apenas permaneceu parada. Quando pediu para ver os ferimentos, encontrou cortes na região da virilha.

CELULAR VIROU PORTA DE ENTRADA PARA OS GRUPOS

Paulo conta que criava a filha sozinho e percebia que ela era introspectiva e tinha dificuldades para se relacionar com outras crianças.

Durante a pandemia de covid-19, o contato com as telas aumentou ainda mais. A menina passou a dedicar muitas horas a jogos como Minecraft e Roblox, além de assistir a vídeos no YouTube.

Foi por meio de uma pessoa conhecida no Roblox que ela chegou ao Discord.

O pai afirma que, naquele momento, não imaginava que o celular poderia representar um risco. “Eu não tinha a menor ideia de que o celular era uma porta aberta para esse inferno em que a nossa vida se transformou”, relatou.

Com o passar do tempo, a adolescente passou a se isolar cada vez mais e a evitar atividades fora do quarto.

“PAI, EU SURTEI. ME INTERNA!”

Os cortes começaram a aparecer em regiões mais visíveis, como braços e pulsos. Em determinado momento, a menina tomou uma grande quantidade de medicamentos e disse que queria morrer.

Ela foi levada ao hospital e iniciou acompanhamento psiquiátrico, além do tratamento psicológico que já fazia.

A situação chegou a um ponto crítico quando, por volta das 23h, Paulo entrou no quarto da filha e a encontrou com diversos ferimentos.

“Ela fala: ‘Pai, eu surtei, me interna! Eu surtei’”, contou.

O pai registrou os ferimentos e enviou as imagens à psiquiatra. Na sequência, preparou a filha para ser levada ao hospital.

Foi nesse momento que o comportamento da adolescente com o celular chamou sua atenção. Ela pediu para levar o aparelho, mas Paulo decidiu deixá-lo com uma funcionária da família e pediu que ela verificasse o conteúdo.

PAI DESCOBRIU DESAFIOS E GRUPOS FECHADOS

Enquanto pai e filha estavam no hospital, Paulo começou a receber imagens e vídeos encontrados no celular.

Segundo o relato, havia registros da adolescente se automutilando enquanto recebia orientações de outras pessoas. Entre os desafios estavam ações como fazer cortes no próprio corpo, provocar queimaduras e realizar outras práticas perigosas.

Nas conversas, aparecia o termo “LULZ”, expressão derivada de “LOL”, utilizada na internet para se referir à diversão obtida às custas do sofrimento ou constrangimento de outras pessoas.

Paulo descobriu que a filha participava de grupos fechados no Discord, conhecidos como servidores e, em alguns casos, “panelas”.

De acordo com ele, adolescentes participavam das transmissões e incentivavam uns aos outros a realizar desafios de automutilação.

“Todos são vilões e todos são vítimas. Não é um ‘bicho-papão’, uma pessoa mais velha induzindo a fazer maldades. São os próprios adolescentes agindo, como se isso fosse uma coisa bacana”, afirmou.

“ELA PODIA TER MORRIDO PELA MINHA IGNORÂNCIA”

A descoberta ajudou Paulo a compreender o que estava por trás dos episódios de automutilação da filha.

Ele conta que passou a perceber uma relação entre os ferimentos e a participação nos grupos. Segundo o pai, a menina costumava se cortar principalmente aos domingos, justamente quando participava dos desafios.

A partir da descoberta, a família iniciou uma nova etapa de tratamento e controle do acesso à internet.

Inicialmente, o uso do celular e das redes sociais foi totalmente proibido. Com a evolução do quadro, a adolescente voltou a utilizar um aparelho, mas sem acesso às redes sociais e ao WhatsApp.

Atualmente, aos 15 anos, ela está em melhor condição, pratica academia e teatro, tem amigos e mantém relacionamentos sociais. O pai, porém, afirma que ainda carrega o sentimento de culpa.

“Minha filha podia ter morrido pela minha ignorância”, declarou.

Para ele, acompanhar a vida digital dos filhos deve ser tão importante quanto saber onde eles estão quando saem de casa.

“Quando ele vai para a rua, você quer saber com quem ele está, para onde ele vai. Com a internet é a mesma coisa, só que eu não sabia que o Discord era essa rua, mas à enésima potência”, afirmou.

DEBATE SOBRE REGULAMENTAÇÃO

Paulo transformou a experiência da família no livro Aconteceu com minha filha, lançado em 2025. Segundo ele, a intenção é alertar outros pais sobre os perigos que podem existir no ambiente digital.

Após a morte da adolescente de 13 anos em Naviraí (MS), o pai voltou a defender medidas mais rígidas para proteger crianças e adolescentes.

Ele também afirmou ser favorável ao debate sobre a regulamentação do Discord e avaliou positivamente medidas adotadas pelas autoridades brasileiras.

“Alguma coisa tem de ser feita e, infelizmente, essas grandes corporações só se mexem quando a corda aperta”, disse.

Segundo Paulo, impedir o acesso da filha ao Discord foi uma das medidas que ajudaram no processo de recuperação.

“Para mim, o que funcionou foi banir o Discord da vida da minha filha, foi botar ele offline. Talvez esse seja o caminho para o Brasil”, afirmou.

DISCORD DIZ QUE NÃO TOLERA INCENTIVO À VIOLÊNCIA

Em nota, o Discord afirmou que não tolera grupos ou indivíduos que promovam ou incentivem a violência.

A plataforma informou que está colaborando com as autoridades na investigação do caso ocorrido em Naviraí e que mantém diálogo com órgãos brasileiros, incluindo o Ministério da Justiça.

A empresa também declarou possuir equipes dedicadas a identificar e desarticular grupos, remover conteúdos que violem suas políticas e adotar medidas contra os responsáveis.

O Discord afirmou ainda que tem realizado denúncias às autoridades brasileiras e colaborado com investigações que resultaram em prisões.

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