- Família de Tancredo Neves obtém acesso a documentos médicos sigilosos sobre sua morte em 1985.
- TRF-1 autoriza liberação de prontuários e registros da internação no Hospital de Base, em Brasília.
- Decisão judicial busca esclarecer possíveis falhas no tratamento que antecederam a morte do ex-presidente.
- Família busca entender motivo da advertência aplicada a médicos que participaram do atendimento.
- Processo judicial teve mais de uma década de tramitação após solicitação da família em 2010.
Mais de 40 anos após a morte de Tancredo Neves, a família do ex-presidente eleito poderá ter acesso a documentos sigilosos relacionados ao tratamento médico recebido por ele em 1985. A autorização foi concedida nesta semana pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em decisão unânime. A medida determina que o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) liberem prontuários, exames, relação de médicos e outros registros da internação no Hospital de Base, em Brasília. O objetivo é esclarecer dúvidas sobre possíveis falhas no atendimento que antecedeu a morte de Tancredo.
O conteúdo dos documentos, no entanto, ainda não foi divulgado publicamente. Procuradas, as entidades informaram que não haviam sido oficialmente notificadas da decisão.
Internação mudou os rumos da história política
Tancredo Neves foi eleito presidente em 1985, durante o processo de transição do regime militar para o governo civil. Ele seria o primeiro presidente civil após cerca de duas décadas de ditadura, mas precisou ser internado na véspera da posse, quando apresentou um quadro de diverticulite, inflamação que atinge uma região do intestino grosso.
O político passou por procedimentos médicos e enfrentou complicações durante o período de internação. Após hemorragias e outros problemas de saúde, foi transferido do Instituto do Coração (Incor) em estado grave. Tancredo morreu em 21 de abril de 1985, pouco mais de um mês depois da eleição e sem assumir a Presidência da República.
A morte provocou questionamentos sobre o tratamento recebido e levantou suspeitas de possíveis erros médicos. As dúvidas também alimentaram teorias sobre as circunstâncias do falecimento, que permanecem sem esclarecimento público.
Família busca documentos desde 2010
A tentativa de obter informações sobre o atendimento começou a ganhar força em 2010, após a publicação do livro O paciente, do escritor Luís Mir. Com autorização da família, ele pesquisou os procedimentos médicos realizados durante a internação e apontou possíveis falhas no tratamento.
A família solicitou aos conselhos de medicina acesso aos documentos, mas os pedidos foram negados com base no sigilo da relação entre médico e paciente. Diante da negativa, a questão foi levada à Justiça e o processo se estendeu por cerca de uma década.
A advogada Juliana Porcaro, que representa e atua como porta-voz da família, explicou que a intenção é compreender os motivos de uma advertência aplicada a médicos que participaram do atendimento de Tancredo pelo CRM-DF.
Quatro pontos levantaram suspeitas sobre o tratamento
Entre os questionamentos apresentados no livro e pela família estão quatro aspectos do atendimento. Um deles envolve a realização de uma cirurgia de emergência. Especialistas consultados pelo autor questionaram a necessidade de uma intervenção imediata, já que procedimentos para tratar a diverticulite costumam ser programados, conforme as condições clínicas do paciente.
Outro ponto diz respeito à presença de mais de 30 acompanhantes na sala de cirurgia, situação apontada como incompatível com as normas de segurança para esse tipo de procedimento.
A família também busca entender uma advertência aplicada pelo CRM-DF a médicos envolvidos no tratamento. O motivo da medida administrativa não foi esclarecido publicamente. Além disso, o autor do livro levantou dúvidas sobre possíveis falhas nos protocolos adotados durante a recuperação do ex-presidente.
Uma fotografia conhecida daquele período, que mostra Tancredo sentado ao lado de médicos, também foi questionada. Segundo os argumentos apresentados pelo escritor, a posição em que ele aparece na imagem seria incompatível com a região do corpo submetida à cirurgia.
Família quer entender advertência aplicada a médicos
Para Juliana Porcaro, o acesso aos documentos poderá esclarecer o que motivou a advertência aplicada pelo conselho profissional e qual foi a avaliação feita sobre a conduta dos médicos responsáveis pelo atendimento.
"Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse 'algo' que a família quer ter acesso. Quer entender como os próprios médicos do Conselho entenderam a postura dos médicos responsáveis pelo presidente Tancredo Neves", afirmou.
A advogada também relatou que conversou com o ex-presidente José Sarney, vice na chapa de Tancredo e que assumiu a Presidência após a morte do titular. Segundo ela, Sarney confirmou ter receio sobre como seria recebida a possibilidade de assumir o cargo naquele momento.
"Ele confirmou que teve esse receio de assumir a presidência, porque foi muito delicado. Ninguém sabia se isso ia ser bem aceito", comentou Juliana.
Com a decisão do TRF-1, a família espera avançar na busca por respostas sobre o atendimento médico e as circunstâncias da morte de Tancredo Neves. A liberação dos registros poderá acrescentar informações a um episódio que marcou a transição política brasileira em 1985.