- Democratas ganham eleições legislativas e controlam Congresso, mas não têm maioria suficiente para afastar Trump.
- Novo impeachment contra Trump pode começar na Câmara, mas depende de apoio de dois terços no Senado.
- Trump já enfrentou dois processos de impeachment, ambos concluídos com absolvição no Senado.
- Espera-se que impeachment seja difícil, pois requer apoio de maioria absoluta no Senado, algo raro na história dos EUA.
- Analistas avaliam que afastamento de Trump só seria possível com crise política e queda significativa de sua popularidade.
A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta quarta-feira (4), mudou a composição do Congresso e abriu espaço para uma possível nova tentativa de impeachment contra o presidente Donald Trump. Com 54 cadeiras no Senado e 228 na Câmara dos Representantes, segundo a apuração divulgada até a manhã desta quarta, os democratas passam a controlar as duas Casas. Apesar disso, a maioria conquistada não é suficiente para retirar o republicano da Presidência: uma condenação exige o apoio de dois terços dos senadores, ou seja, 67 dos 100 votos.
A nova composição pode facilitar a abertura de um processo na Câmara, onde basta maioria simples para aprovar as acusações. No entanto, a etapa seguinte depende do julgamento no Senado, que precisaria reunir votos também entre os republicanos. Por isso, especialistas avaliam que a possibilidade de afastamento de Trump permanece distante.
Trump já enfrentou dois processos de impeachment
Durante o primeiro mandato, entre 2017 e 2021, Trump foi alvo de dois processos de impeachment aprovados pela Câmara dos Representantes. Nos dois casos, porém, o Senado votou pela absolvição, permitindo que ele permanecesse no cargo.
O primeiro processo ocorreu em dezembro de 2019. Trump foi acusado de abuso de poder e obstrução do Congresso após pedir ao presidente da Ucrânia que investigasse Hunter Biden, filho de Joe Biden, que à época era pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos. O republicano foi absolvido pelo Senado.
A segunda tentativa aconteceu após a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Trump foi acusado de incitar a insurreição por causa do discurso feito a apoiadores antes do episódio, que terminou com cinco mortos. Mais uma vez, o Senado não reuniu votos suficientes para condená-lo.
O que dizem os especialistas sobre um novo impeachment
A possibilidade de uma terceira tentativa não está descartada. A colunista do g1 Sandra Cohen, porém, avalia que seria precipitado considerar o afastamento de Trump, justamente pela dificuldade de conseguir apoio suficiente no Senado.
"Seria precipitado, pois, a exemplo dos casos anteriores, esbarraria no Senado, que precisa de maioria de dois terços para condená-lo e afastá-lo."
O cientista político Carlos Gustavo Poggio, professor do Berea College, no Kentucky, explica que conquistar a maioria simples nas duas Casas não garante a retirada do presidente do cargo.
"Precisa ter 2/3 do Senado para poder afastar um presidente. Algo que nunca aconteceu na história americana. É muito difícil alcançar esses 2/3 dos votos", afirma Poggio.
Para o professor, seria necessária uma crise política profunda, acompanhada de uma queda expressiva na popularidade de Trump, para que o afastamento se tornasse uma possibilidade concreta.
"Eu julgo que esse é um cenário bastante distante."
O cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maurício Santoro, também considera improvável uma condenação. Segundo ele, os democratas precisariam conquistar o apoio de uma parcela significativa dos republicanos no Senado.
“Acho bem improvável de acontecer. Os democratas precisariam conquistar parcela muito profunda dos republicanos. E para isso acontecer, precisaria haver um grande escândalo que afetasse Trump”, afirmou Santoro.
Como funciona o impeachment nos Estados Unidos?
O processo começa na Câmara dos Representantes, onde são apresentados os chamados artigos de impeachment, que correspondem às acusações contra o presidente. Os deputados votam cada uma delas e, caso haja aprovação por maioria simples, o processo segue para o Senado.
Diferentemente do Brasil, a aprovação do impeachment pela Câmara norte-americana não afasta o presidente do cargo. Ele permanece na Presidência enquanto aguarda o julgamento dos senadores.
No Senado, as acusações são analisadas em um julgamento parlamentar. Para que o presidente seja condenado e removido do cargo, é necessário o voto favorável de dois terços dos senadores presentes. Com as 100 cadeiras ocupadas e todos participando da votação, seriam necessários 67 votos.
A história política dos Estados Unidos registra outros presidentes que passaram por processos de impeachment. Andrew Johnson e Bill Clinton tiveram acusações aprovadas pela Câmara, mas foram absolvidos pelo Senado. Trump também foi absolvido nas duas ocasiões em que enfrentou o julgamento.
O caso de Richard Nixon, em 1974, teve outro desfecho: diante da possibilidade de ser afastado, ele renunciou antes que a Câmara votasse formalmente as acusações. Até hoje, nenhum presidente dos Estados Unidos foi removido do cargo por condenação em um julgamento de impeachment no Senado.