- Jornalista salvadorenho Carlos Dada deixou o país por medo à repressão e ameaças à liberdade de imprensa.
- Dada criticou o modelo de segurança de Bukele, que centraliza poder e controla instituições do Estado.
- El Faro investigou pactos entre governo e gangues, revelando negociações e violações de direitos.
- Repressão e prisões em massa, segundo Dada, caracterizam o regime de exceção prolongado no país.
- Jornalista alerta que modelo Bukele é adotado por políticos brasileiros, com base em prisões e controle total.
O jornalista salvadorenho Carlos Dada, um dos fundadores do veículo El Faro, deixou El Salvador diante do agravamento das condições para o exercício da liberdade de imprensa e de preocupações com sua segurança. O veículo também retirou suas operações de San Salvador em meio à concentração de poder no governo do presidente Nayib Bukele.
Bukele ganhou projeção internacional com uma política de segurança de linha-dura que reduziu os índices de homicídios no país e passou a ser apontada como referência por setores da direita latino-americana. Críticos, porém, questionam o modelo diante de denúncias de violações de direitos e garantias fundamentais.
Durante passagem por São Paulo para o Festival Piauí de Jornalismo, Dada conversou com O Globo e avaliou a situação política de seu país.
“Bukele deu um golpe na Corte Constitucional, controla os três Poderes do Estado, a Promotoria, a Polícia e o Exército. Em El Salvador, Bukele decide quem é criminoso e quem não é”, afirmou.
El Faro investigou atuação das gangues
Quando o El Faro foi fundado, em 1998, a violência urbana ainda não era o principal foco do veículo, segundo Dada. O país havia saído de uma guerra civil em 1992 e passava por um processo de consolidação democrática.
“Nós vínhamos de uma guerra civil, que terminou em 1992, e tudo ainda estava se acomodando para essa nova etapa. O El Faro nasce pensando em criar um meio de comunicação mais adequado à nossa era democrática”, contou.
Segundo o jornalista, as gangues passaram a ganhar maior relevância política na virada do milênio, entre 2001 e 2002, quando começaram a se organizar para reagir às medidas repressivas do Estado.
Jornalista relata ameaças e espionagem
El Salvador chegou a registrar 106 homicídios por 100 mil habitantes em 2015. Dada afirmou que o El Faro evitava tratar o conflito entre Estado e organizações criminosas a partir de uma divisão entre “bons e maus”.
O veículo passou a investigar a estrutura das quadrilhas e suas diferenças em relação a cartéis e facções brasileiras. Segundo Dada, a equipe também conseguiu estabelecer contato com líderes de gangues.
Quando o então presidente Mauricio Funes (2009-2014) fez uma trégua com as gangues, o El Faro investigou e publicou informações sobre o acordo. A partir daí, segundo o jornalista, o veículo passou a receber ameaças de integrantes do governo, das gangues e de organizações de narcotráfico.
Durante o governo Bukele, Dada afirma que a situação se agravou. Segundo ele, o El Faro investigou um suposto pacto entre o governo e as gangues e publicou informações sobre o caso.
O jornalista também afirmou que as comunicações do veículo foram interceptadas com o uso do Pegasus, sistema de espionagem desenvolvido pela empresa israelense NSO Group.
O jornalista Carlos Dada, fundador do 'El Faro', em entrevista ao GLOBO durante sua passagem por São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira
Investigação apontou negociações com criminosos
Segundo Dada, o El Faro tomou conhecimento de negociações entre integrantes do governo Bukele e criminosos por meio de documentos oficiais. O veículo teria posteriormente confirmado as informações com fotografias, vídeos e entrevistas.
O jornalista afirmou ainda que documentos registravam entradas e saídas de líderes de gangues de presídios e trocas de mensagens entre autoridades e criminosos.
Em maio do ano passado, segundo Dada, o El Faro entrevistou, em vídeo, líderes de gangues que haviam sido presos em El Salvador e posteriormente estavam livres em outros países. Eles teriam relatado detalhes das negociações com o governo.
Para o jornalista, a publicação dessas informações aumentou a pressão do governo sobre o veículo e acelerou a decisão de deixar El Salvador.
Regime de exceção se prolonga
Dada afirma que o pacto entre Bukele e as gangues terminou em 2022. Naquele ano, o governo passou a promover prisões em massa e aprovou um regime de exceção, uma das principais bases de sua política de segurança.
Segundo o jornalista, a medida, que pela Constituição deveria durar 30 dias, já se estende por quase cinco anos.
Dada afirma que, durante esse período, a polícia passou a ter autorização para prender pessoas consideradas suspeitas sem ordem judicial ou apresentação de provas. Segundo ele, mais de 90 mil pessoas foram presas em quatro anos.
O jornalista também relatou restrições ao acesso de presos a familiares e advogados e afirmou que os julgamentos passaram a ocorrer de forma coletiva, com decisões envolvendo grupos de acusados.
“Quer dizer, é uma perda de todos os direitos. Esse é o modelo Bukele. Mais de 400 pessoas morreram por tortura em prisões”, afirmou.
Modelo Bukele ganha admiradores no Brasil
Dada também criticou a adoção do modelo salvadorenho como referência por políticos brasileiros. Segundo ele, entre as principais candidaturas à Presidência do Brasil, quatro citam abertamente o modelo Bukele como exemplo.
O jornalista mencionou a proposta de construção de megaprisões inspiradas no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), inaugurado em 2023 e apresentado pelo governo salvadorenho como uma unidade de segurança máxima.
“Aos olhos do resto do mundo, o Cecot é esse modelo de prisão de segurança máxima, que oferece tours a jornalistas, com celas perfeitamente iluminadas, membros de gangues colocados em fila e etc.”, afirmou.
Dada ressaltou, porém, que El Salvador possui 23 prisões e que, segundo ele, jornalistas não têm acesso às outras 22.
“O modelo Bukele é o que ele quer que você veja. Ninguém conhece as cifras reais de homicídio. Não há acesso a informação pública”, disse.
Na avaliação do jornalista, a concentração de poder é outro elemento central do modelo salvadorenho. Ele voltou a afirmar que Bukele controla os principais órgãos do Estado.
“Bukele deu um golpe na Corte Constitucional, controla os três Poderes do Estado, a Promotoria, a Polícia e o Exército. Em El Salvador, Bukele decide quem é criminoso e quem não é”, afirmou.