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Entenda como a doença do filho do chefe de uma facção no Haiti levou à maior chacina do século nas Américas

O filho de Micanor, Benson, morreu na madrugada de 7 de dezembro de 2024, aos seis anos. Durante seis dias, o homem tira a vida de 207 pessoas.

Mulher chorando em velório de uma das vítimas de um ataque a drones durante os conflitos no país | Foto: Clarens Siffroy/ BBC
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O chefe de gangue conhecido como rei Micanor, que controla partes de Porto Príncipe e integra a aliança criminosa Viv Ansanm, acreditava que a doença de seu filho era causada por supostos feiticeiros, chamados de “homens-lobos”, que teriam poderes para prejudicar crianças. Uma reportagem especial da BBC News detalhou como adoença do filho do chefe de facção no Haiti levou ao maior chacina massacre da história nas Américas. 

Convencido disso, ele ordenou que seus homens saíssem em busca desses supostos responsáveis. A partir desse momento, diversos moradores — principalmente idosos — começaram a ser levados à força de suas casas.

Testemunhas relatam o desespero: pessoas escondidas enquanto parentes eram sequestrados, famílias tentando entender o que estava acontecendo e descobrindo mortes brutais logo depois. Alguns foram encontrados já sem vida, outros assassinados com extrema violência.

Entre as vítimas estavam familiares de vários moradores, incluindo pais, avós e outros parentes. No meio dessa onda de ataques, o filho de Micanor, Benson, morreu na madrugada de 7 de dezembro de 2024, aos seis anos. Durante seis dias, o homem tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos.

Meses após o massacre, no início de 2025, um repórter da BBC News vai até o Haiti e consegue marcar um encontro com a advogada Rosie Auguste Ducéna, defensora de direitos humanos. No entanto, chegar até ela é difícil devido à situação extrema da capital.

Porto Príncipe vive um cenário de colapso: a maior parte da cidade está dominada por gangues da coalizão Viv Ansanm, que ao longo de 2024 destruíram bairros inteiros, incendiando prédios públicos, escolas e outros espaços.

Após semanas tentando contato, o jornalista finalmente consegue entrevistar a advogada Rosie Auguste, especialista em violência no Haiti. Ao falar sobre o massacre, ela afirma que nem mesmo os analistas sabem exatamente por que as gangues agem dessa forma, mas acredita que a violência serve como estratégia para acelerar o domínio total da cidade.

Segundo ela, os líderes criminosos planejam as ações, mas muitas vezes não controlam os jovens armados, que, influenciados pela violência constante, cometem atrocidades contra a população. Rosie critica duramente os grupos, afirmando que eles atacam principalmente civis indefesos, como mulheres e crianças, enquanto evitam confrontar autoridades.

Ela também denuncia a omissão do Estado haitiano e revela temer por sua própria vida devido ao trabalho de investigação que realiza há anos.

O acesso aos sobreviventes do massacre é extremamente difícil, já que o bairro segue isolado e sob forte vigilância das gangues. Mesmo assim, meses depois, alguns sobreviventes conseguem chegar até o local da entrevista, atravessando áreas de conflito para relatar o que viveram.

Seus depoimentos, junto a relatórios de organizações locais e internacionais, permitiram reconstruir os acontecimentos de dezembro de 2024, considerados o maior massacre cometido por uma gangue nas Américas neste século. Muitos sobreviventes afirmam que ainda mantêm uma ligação simbólica com os familiares mortos, que aparecem em seus sonhos.

Morte do filho de Micador

Após a morte do filho de Micanor, em dezembro de 2024, a violência se intensifica. Mesmo com o menino já morto, o líder ordena que seus homens matem também familiares dos idosos acusados. Famílias inteiras são capturadas enquanto tentam fugir ou se esconder.

Um grupo que planejava escapar pelo mar é interceptado e levado à força. Muitos são feridos e depois submetidos a torturas. Testemunhos indicam que o próprio Micanor participou das agressões, tentando descobrir quem teria causado a suposta “maldição” contra seu filho.

Sem obter respostas, os prisioneiros são executados de forma brutal, com corpos destruídos e eliminados para dificultar qualquer identificação.

A reportagem também mostra o contexto religioso do Haiti, destacando o vodu, uma crença com raízes africanas e influências do catolicismo, profundamente ligada à cultura e à história do país. Apesar de ser frequentemente associado à violência, estudiosos afirmam que essa religião não tem relação direta com práticas violentas.

Ainda assim, ao longo da história haitiana, líderes autoritários e chefes armados usaram elementos do vodu como forma de controle e intimidação. Esse uso político da religião remonta à ditadura de François Duvalier, e continua influenciando grupos armados atuais.

Nesse sentido, as ações de Micanor não são um caso isolado, mas parte de uma longa tradição de violência e manipulação de crenças em meio à instabilidade do país.

Com o avanço das notícias sobre o massacre, Micanor intensifica o controle sobre o bairro. Ele manda confiscar celulares, impõe toque de recolher e ordena novos sequestros, tentando descobrir quem divulgou as informações. Pessoas capturadas são levadas para interrogatórios sob tortura.

Mesmo com esse bloqueio, relatos conseguem sair. Um dos sobreviventes, Manú, conta que voltou ao bairro para procurar os pais e descobriu que o pai havia sido brutalmente assassinado. Ele conseguiu retirar a mãe dali, mas ela acabou morrendo pouco tempo depois, abalada pela perda.

Mortes continuam

Enquanto isso, moradores continuam sendo mortos ao tentar fugir, não por motivos ligados a crenças, mas para impedir que o massacre se torne público. Apesar dos esforços, vídeos e testemunhos acabam chegando à imprensa e a organizações de direitos humanos.

A repercussão é tão grande que até outros líderes da própria aliança criminosa, como Jimmy Chérizier, passam a exigir explicações, já que uma violência desse nível chama atenção até dentro das próprias gangues.

Cada vez mais paranoico, o líder passa a agir com maior desconfiança para impedir que o massacre se torne público. Pessoas que ainda tinham celulares são acusadas de repassar informações e acabam capturadas.

Esses moradores são levados para o mesmo local onde outras vítimas já haviam sido executadas, reforçando o clima de medo e repressão no bairro.

Ali, ele os tortura, mata e seus corpos têm o mesmo destino dos demais: facões, fogo e água salgada.

Com o avanço das notícias sobre o massacre, cresce a instabilidade dentro do próprio grupo criminoso. Rumores de que o líder estaria perdendo o controle começam a circular, inclusive entre aliados, enquanto ele tenta demonstrar força e autoridade sobre o território.

Em uma tentativa de reforçar sua imagem, ele libera alguns reféns e distribui alimentos à população, obrigando moradores a agradecê-lo publicamente, mesmo em meio ao medo e à violência. Para ele, a ação seria uma forma de justificar suas atitudes, alegando que estaria “protegendo” o bairro.

Apesar disso, a repressão continua. Pessoas acusadas de divulgar informações são novamente capturadas e levadas para locais onde outras vítimas já haviam sido mortas.

Ao fim dos acontecimentos, centenas de pessoas já haviam sido assassinadas, em sua maioria idosos, deixando o bairro marcado pela violência e pelo medo. Mesmo após as perdas, sobreviventes relatam que continuam sendo assombrados pelas memórias dos mortos, que retornam em sonhos, simbolizando o impacto psicológico da tragédia.

O “rei Micanor” não é um monarca de fato, mas um chefe de gangue que domina parte de Porto Príncipe com violência e impunidade. Ele não foi fundador do grupo, mas chegou ao poder por meio de sua agressividade e histórico de brutalidade, sendo descrito como instável e paranoico.

Antes de liderar a facção, já havia sido associado a assassinatos dentro do próprio meio criminoso e a ataques motivados por acusações de feitiçaria. A disputa entre grupos armados na capital haitiana sempre foi marcada por conflitos internos e violência extrema pelo controle dos territórios.

Em meio a esse cenário, a reportagem acompanha dias de tensão na cidade, com confrontos armados, fumaça e medo constante. Sobreviventes relatam perdas familiares e dificuldades para se manter vivos, enquanto o bairro se transforma em uma área de guerra.

Ao final, o massacre continua sem punição, mesmo com múltiplos testemunhos e evidências, deixando o caso como símbolo da crise de violência e impunidade no Haiti.

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