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Preço do vinho pode cair até 20% com acordo Mercosul-UE, mas não agora, diz especialista

CEO da maior varejista de vinhos do país, Alexandre Magno afirma que impacto será maior na qualidade da bebida e na competição com Chile e Argentina

Vinhos podem ter preços impactados com acordo Mercosul-UE | Foto: Reprodução
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A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia deve levar a uma redução real no preço dos vinhos importados no Brasil, mas o efeito não será imediato.

Segundo Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine, maior varejista de vinhos do país, a diminuição deve ocorrer de forma gradual ao longo dos próximos anos e tende a impactar mais a qualidade do vinho consumido do que o bolso do consumidor no curto prazo.

“Pelas nossas contas, deve haver uma queda em torno de 20% no preço dos vinhos europeus. Quando houver alíquota zero de verdade, o preço tende a diminuir, sim”, afirmou Magno em entrevista à Bloomberg Línea.

O executivo ressaltou que o cronograma do acordo é longo e exige cautela na leitura de seus efeitos. Ele explicou que o custo dos vinhos importados no Brasil vai muito além do imposto de importação. Fatores como logística, tributos internos e variação cambial aumentam significativamente o preço final do produto.

“O consumidor às vezes vai ao supermercado na Espanha e vê que o vinho custa 5 euros, mas esquece que o euro já virou quase R$ 40. Somando IPI, PIS, Cofins e ICMS, o preço final no Brasil fica muito mais alto”, explicou Magno.

Segundo ele, o acordo comercial representa uma mudança estrutural relevante para o setor, abrindo espaço para um mercado mais competitivo e condições mais próximas às praticadas na América do Sul.

Hoje, o Chile lidera com folga o mercado brasileiro de vinhos importados, em grande parte por não pagar imposto de importação e ter custos logísticos mais baixos. Com o acordo, vinhos europeus, especialmente de Portugal e Espanha, poderão competir em condições mais equilibradas.

“Um dos motivos de o Chile ser líder da categoria no Brasil é que não tem imposto de importação e os custos de transporte são melhores. Trazendo Portugal e Espanha em condições mais equivalentes, teremos uma briga de escala de verdade”, disse Magno.

Impacto gradual nos preços

Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine (Foto: Reprodução)

Apesar do otimismo com o impacto de longo prazo, o consumidor não deve esperar uma redução imediata nos preços. O acordo funciona como um “guarda-chuva” e ainda depende de negociações setoriais e de um cronograma específico de redução tarifária.

Segundo o executivo, o Ministério do Desenvolvimento estima que seja possível zerar o imposto entre oito e 10 anos. A redução efetiva do imposto de importação deve começar apenas daqui a dois ou três anos, e o impacto nos preços será desigual entre os diferentes tipos de vinhos.

“O consumidor não vai sentir um impacto imediato. Quando a redução começar, vinhos mais baratos terão variações pequenas na gôndola, enquanto rótulos de maior valor devem concentrar os maiores ganhos”, explicou.

Para exemplificar, Magno afirmou:

“Quando você fala de um vinho que custa R$ 5 ou R$ 6, a diferença será mínima. Mas um rótulo de R$ 200 pode passar a custar R$ 150”.

Ajustes do mercado sul-americano

A queda mais expressiva nos preços de vinhos de maior valor tende a estimular o movimento de premiumização, com consumidores migrando para produtos de qualidade um pouco superior. Segundo Magno, isso pode acelerar a mudança de padrão de consumo no país.

O impacto do acordo também deve provocar ajustes na estratégia de produtores sul-americanos. Muitos vinhos de entrada já operam próximos do piso de preço, e as vinícolas podem reposicionar esses produtos para categorias médias, oferecendo rótulos melhores.

“Pode ser que os vinhos de entrada da América do Sul fiquem mal posicionados e as vinícolas tentem se reposicionar em categorias médias com produtos melhores”, explicou Magno, destacando que se trata de uma leitura baseada em conversas com fornecedores, e não de uma certeza de mercado.

No caso do Grupo Wine, a empresa já vem se posicionando para este novo cenário. Atualmente, 37% dos vinhos vendidos pelo grupo são de origem europeia, acima da média do mercado brasileiro, que gira em 32%.

Desafio do mercado brasileiro de vinhos

Para Magno, o principal desafio estrutural do mercado brasileiro sempre foi esclarecer a percepção de custo-benefício do consumidor. O preço médio de venda ao consumidor final gira em torno de R$ 45 por garrafa, com cerca de 60% do volume concentrado até essa faixa de preço.

“O vinho começou a ser importado no Brasil de uma maneira ‘meio torta’ e foi posicionado como produto premium. Muitos consumidores têm receio de comprar um vinho de R$ 40 ou R$ 50 achando que vão errar”, disse.

Ele reforça que acordos comerciais que permitam repasse ao consumidor são fundamentais para aumentar o engajamento com a categoria.

“A redução dos preços, quando ocorrer, não será apenas sobre cortar custos a curto prazo, mas sobre mudar o padrão de consumo em todo o país. O efeito mais duradouro tende a ser a melhora da qualidade do vinho que chega ao consumidor brasileiro, ainda que isso leve tempo para se materializar”, concluiu.

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