SEÇÕES

Crise energética afeta agricultura mundial e gera risco de alta nos alimentos

Agricultores da Ásia, Europa e Oceania enfrentam falta de combustível, elevando custos e ameaçando colheitas de grãos e arroz.

Pescadores compram combustível em um posto às margens do rio | Foto: Getty Images/Ezra Acayan
Siga-nos no

A produção agrícola em diferentes regiões do mundo começa a sentir os efeitos da crise energética provocada pelo conflito no Oriente Médio. Agricultores da Ásia, Europa e Oceania relatam dificuldades para conseguir combustível, essencial para o funcionamento de máquinas usadas no plantio, colheita e irrigação.

Na Austrália, produtores de grãos afirmam que as entregas de combustível foram reduzidas justamente no período que antecede o plantio da safra de inverno. Já em Bangladesh, agricultores que cultivam arroz relatam dificuldade para comprar diesel suficiente para abastecer bombas de irrigação. Nas Filipinas, pescadores também podem ser impactados e há risco de parte das embarcações permanecer em terra por falta de combustível.

Especialistas alertam que, caso a escassez se prolongue, o problema pode pressionar os preços dos alimentos e intensificar a inflação global associada ao conflito. A agricultura moderna depende fortemente de energia para operar tratores, colheitadeiras, sistemas de irrigação e transporte da produção.

No Reino Unido, o agricultor Richard Heady afirmou que a situação preocupa produtores que dependem do diesel para manter a atividade no campo. Segundo ele, quando a temporada agrícola atingir o pico, máquinas e tratores estarão em funcionamento contínuo, aumentando rapidamente o consumo de combustível. Caso o estoque acabe, os produtores podem ter que pagar preços mais altos ou enfrentar falta do produto.

A tensão no mercado de energia aumentou após ataques a infraestruturas energéticas no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais para transporte de petróleo. O cenário afetou o fluxo de petróleo, gás natural liquefeito e fertilizantes, insumos fundamentais para a produção agrícola.

Com isso, agricultores já enfrentam aumento no preço de fertilizantes e, em alguns casos, restrições no acesso a mercados de exportação. Agora, a dificuldade para obter combustível surge como mais um desafio para o setor.

A dependência de diesel é especialmente evidente em Bangladesh, onde grande parte dos sistemas de irrigação funciona com motores movidos a esse combustível. O governo passou a limitar a compra diária a dois litros por pessoa, quantidade considerada insuficiente por muitos produtores. Agricultores afirmam que suas lavouras exigem mais combustível para manter o bombeamento de água subterrânea necessário ao cultivo de arroz.

A situação também preocupa produtores nas Filipinas. Agricultores que alugam máquinas para colher arroz relatam que o custo do serviço deve aumentar por causa do diesel mais caro, o que pode reduzir os ganhos da safra. O país, apesar de ter duas colheitas por ano, ainda depende de importações para atender à demanda interna.

Na Tailândia, produtores avaliam que o aumento do custo do combustível pode tornar inviável economicamente a colheita em algumas áreas. Já pescadores filipinos relatam perdas diárias devido ao encarecimento do diesel usado nas embarcações.

Analistas afirmam que a crise pode provocar impactos de longo prazo nos custos de produção agrícola. Para Paul Joules, especialista em insumos agrícolas do Rabobank, há risco de que a pressão sobre fertilizantes e combustíveis resulte em aumento estrutural dos custos no setor, o que tende a ser repassado ao consumidor final.

Além da alta nos preços, a escassez de combustível pode reduzir a área plantada em alguns países. Na Austrália, produtores se preparam para o plantio de grãos de inverno, enquanto agricultores europeus se organizam para culturas de primavera, como cevada e milho. No entanto, a dificuldade para garantir combustível pode limitar o plantio em algumas regiões.

No oeste australiano, principal área produtora e exportadora de grãos do país, fornecedores têm entregue volumes menores de combustível do que os solicitados pelos agricultores. Segundo representantes do setor, algumas empresas estão racionando o produto para tentar atender diferentes produtores.

Na Europa, o impacto também já é percebido. Na Alemanha, agricultores afirmam que o custo do diesel aumentou significativamente desde o início do conflito, elevando os gastos para operar máquinas agrícolas durante o período mais intenso da temporada.

Produtores alertam que a falta de combustível pode comprometer o uso de fertilizantes e defensivos nas lavouras, aumentando o risco de perdas nas colheitas e prejuízos financeiros para o setor agrícola.

Tópicos
Carregue mais
Veja Também