- Brasil projeta superávit comercial de US$ 84,4 bilhões em 2026, segundo MDIC, que revisou estimativa após queda no preço do petróleo.
- Exportações cresceram 9,8% em 2026, atingindo US$ 382,5 bilhões, enquanto importações subiram 6,4% para US$ 298,1 bilhões.
- Petróleo impulsiona balança comercial, com receita de US$ 43 bilhões em 2026, 30% acima do mesmo período de 2025.
- Conflito no Oriente Médio favoreceu exportações brasileiras para a China, que comprou metade do petróleo vendido pelo Brasil.
- Governo destaca diversificação de mercados e plano Brasil Soberano para proteger a indústria nacional diante da crise internacional.
Mesmo diante dos choques externos provocados pelas tarifas dos Estados Unidos e pela guerra no Oriente Médio, a balança comercial brasileira mantém resultados positivos e caminha para alcançar, em 2026, o segundo maior superávit da história. A valorização do petróleo ao longo do ano contribuiu significativamente para o crescimento das exportações, apesar da recente redução relativa no preço do barril.
Governo revisa projeção da balança comercial
As mudanças no cenário internacional levaram o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a revisar duas vezes a estimativa para o superávit comercial de 2026.
Em abril, a previsão inicial era de US$ 72,1 bilhões. Em julho, diante da alta do petróleo tipo Brent, a projeção subiu para US$ 90 bilhões. Já no início de outubro, o governo reduziu a estimativa para US$ 84,4 bilhões, influenciado pela queda relativa no preço do barril.
A previsão atual considera US$ 382,5 bilhões em exportações, crescimento de 9,8% em relação a 2025, e US$ 298,1 bilhões em importações, alta de 6,4% na mesma comparação.
Caso o resultado se confirme, será o segundo maior superávit comercial já registrado pelo Brasil, atrás apenas de 2023, quando o saldo alcançou US$ 98,9 bilhões. O desempenho também representará um crescimento de 24% em relação a 2025, que terminou com superávit de US$ 68,1 bilhões.
Brasil acumula superávit de US$ 68,4 bilhões
Dados de janeiro até a terceira semana de outubro mostram que a balança comercial brasileira acumula superávit de US$ 68,4 bilhões em 2026. No período, as exportações somaram US$ 305,7 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 237,3 bilhões.
Para o economista Gabriel Cintra, responsável pela área private da Eleva Invest e especialista em Relações Internacionais pela Columbia University, a projeção de US$ 84,4 bilhões do MDIC é possível, mas está acima da expectativa média do mercado.
No Relatório Focus divulgado na segunda-feira (19), a mediana das projeções para o superávit comercial ficou em US$ 80,15 bilhões.
“Eu tomaria os US$ 80 bilhões como mais factível”, afirmou Cintra. Segundo ele, para alcançar a estimativa do governo, o Brasil precisará registrar aproximadamente US$ 16,05 bilhões em saldo positivo entre o restante de outubro e dezembro.
O economista avalia que o resultado é plausível, mas depende da continuidade dos embarques, dos preços das commodities e do comportamento das importações. Para 2027, a expectativa do mercado é de um superávit menor, de US$ 79,7 bilhões.
Petróleo impulsiona exportações brasileiras
O petróleo tem sido um dos principais responsáveis pelo desempenho positivo da balança comercial. Segundo Herlon Brandão, diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior, a receita com a exportação do produto cresceu 77,3% em setembro.
No acumulado de 2026, o petróleo se consolidou como o principal item da pauta exportadora brasileira, com US$ 43 bilhões em vendas, quase 30% acima dos US$ 33,4 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
O fechamento do Estreito de Ormuz, em meio ao conflito no Oriente Médio, também favoreceu as exportações brasileiras para a China. Segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o país asiático comprou metade do petróleo vendido pelo Brasil.
Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações brasileiras de petróleo para a China cresceram 49% na comparação com o mesmo período do ano anterior, alcançando o recorde de US$ 21,8 bilhões. O aumento foi acompanhado por uma alta de 27% no volume embarcado e de 16,8% no preço do produto. A expansão das compras ocorreu após a guerra envolvendo o Irã interromper o fornecimento de petróleo a partir do Golfo Pérsico.
Conflito no Oriente Médio favoreceu o Brasil
A economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carla Beni, avaliou que o conflito acabou produzindo um efeito positivo para a balança comercial brasileira, considerando que o país é exportador de energia.
Ela também destacou a atuação da Petrobras e a política de preços adotada pela companhia, que deixou de seguir exclusivamente a Paridade de Preço Internacional (PPI). Segundo Beni, essa estratégia contribuiu para evitar alterações nos preços internos dos combustíveis, ao mesmo tempo em que favoreceu os resultados financeiros da estatal.
O economista Gabriel Cintra também reconheceu a contribuição do petróleo para o saldo comercial, mas fez uma ressalva sobre o cenário. “O governo contou mais com a sorte do que com o juízo”, afirmou.
Abertura de novos mercados ajuda a compensar tarifas dos EUA
Apesar do crescimento das exportações brasileiras, as tarifas impostas pelos Estados Unidos afetaram o comércio entre os dois países. As vendas brasileiras para o mercado americano apresentam queda desde o primeiro tarifaço, anunciado em agosto de 2025.
Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações do Brasil para os Estados Unidos recuaram 6,5%, totalizando US$ 27,46 bilhões. No mesmo período, as importações de produtos americanos caíram 7,1%, somando US$ 31,79 bilhões. Com isso, o Brasil registrou déficit comercial de US$ 4,33 bilhões na relação com os Estados Unidos.
Diante desse cenário, o governo federal tem apostado na diversificação dos parceiros comerciais. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o país ampliou as relações com mercados como China, Índia, Vietnã e Japão.
Brasil abriu 700 novos mercados desde 2023
Segundo informações do governo federal, a atual gestão abriu 700 novos mercados internacionais desde 2023, número superior aos 241 registrados durante o governo anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A ampliação também foi destacada por especialistas. Para Carla Beni, da FGV, a abertura de novos mercados teve papel importante para fortalecer a posição brasileira no comércio internacional, especialmente diante das tarifas adotadas pelo governo de Donald Trump.
A economista ressaltou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisou retomar relações internacionais e estabelecer acordos comerciais desde o início do mandato.
Outro ponto mencionado foi o lançamento do plano Brasil Soberano, criado para proteger a indústria nacional diante das instabilidades internacionais. Beni também avaliou positivamente a decisão de não aplicar a lei da reciprocidade aos Estados Unidos.
Governo destaca medidas diante da crise internacional
Em cerimônia realizada em outubro, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o cenário internacional enfrenta dificuldades em razão das duas guerras em curso e dos impactos sobre a inflação.
Alckmin destacou as iniciativas do governo para reduzir custos no país e ressaltou os desafios impostos pelo contexto externo. Com a contribuição das exportações de petróleo e a ampliação dos mercados internacionais, o Brasil mantém uma trajetória positiva na balança comercial e pode encerrar 2026 com um dos maiores superávits de sua história.