- Brasil registra superávit de US$ 23 bilhões em agosto de 2026, segundo dados da ApexBrasil.
- Índia e Europa ampliam participação nas exportações, enquanto Estados Unidos reduz compras.
- ApexBrasil lança plano de R$ 210 milhões para ajudar 5.300 empresas afetadas por tarifas.
- Setores como têxtil e calçados enfrentam dificuldades com aumento de tarifas norte-americanas.
- Brasil busca diversificação de mercados para reduzir dependência do mercado norte-americano.
A balança comercial brasileira acumulou superávit de US$ 23 bilhões nos oito primeiros meses de 2026, segundo dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O resultado ocorre em meio à busca de empresas nacionais por novos mercados após o aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
China, Índia e Europa aparecem entre os principais responsáveis pelo desempenho. Para o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o resultado mostra uma maior diversificação dos destinos das exportações brasileiras.
Segundo Müller, 78% das 2.400 empresas que exportavam para os Estados Unidos em maio de 2025 já haviam iniciado vendas para outros mercados até junho deste ano.
Índia e Europa ampliam participação
Os Estados Unidos continuam como o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China. Argentina aparece em terceiro lugar, seguida pela Índia, que teve um dos maiores avanços nas compras de produtos brasileiros.
Entre janeiro e agosto, as exportações para a Índia cresceram US$ 3,6 bilhões. No mesmo período, as vendas destinadas aos Estados Unidos recuaram US$ 2,6 bilhões.
A mudança também aparece na posição ocupada pela Índia entre os destinos dos produtos brasileiros. De acordo com Müller, o país, que há duas décadas ocupava a 40ª posição, chegou ao quarto lugar em agosto de 2026, praticamente no mesmo patamar da Argentina.
Com a China, o Brasil registrou superávit de US$ 10 bilhões. Já a Europa apresentou uma mudança significativa na balança comercial: o déficit de US$ 885 milhões registrado entre janeiro e agosto de 2025 deu lugar a um superávit de US$ 5 bilhões no mesmo período deste ano.
Plano busca ajudar empresas afetadas
Além da Ásia e da Europa, o Brasil também vem ampliando relações comerciais com países africanos, entre eles África do Sul, Angola, Etiópia e Nigéria.
Apesar da expansão de novos mercados, alguns setores continuam enfrentando dificuldades com as tarifas norte-americanas. Müller cita as indústrias têxtil, de calçados e moveleira entre as mais afetadas, principalmente porque parte dessas empresas produz de acordo com as demandas específicas do consumidor dos Estados Unidos e enfrenta forte concorrência internacional.
Para auxiliar os negócios atingidos, a ApexBrasil lançou, em agosto, o Plano de Diversificação de Exportações. A iniciativa prevê R$ 210 milhões em investimentos e pretende atender 5.300 empresas. Desse total, 1.600 já recebem atendimento.
O programa inclui ferramentas de inteligência de mercado, ações de promoção comercial, aproximação com compradores e atendimento especializado. As empresas também poderão participar de feiras e iniciativas comerciais em países como Canadá, México, nações da América Central, Caribe e Bahamas.
A economista Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre e professora da Uerj, avalia que os efeitos das tarifas foram diferentes entre as empresas brasileiras. Grandes companhias teriam mais facilidade para direcionar suas vendas a outros países por já possuírem redes de fornecedores e compradores.
Pequenas e médias empresas, especialmente de setores de manufatura personalizada, como calçados e produtos de madeira, enfrentam mais dificuldades. Segundo a economista, esses negócios têm menos margem para reduzir custos e compensar o impacto das tarifas.
No setor de calçados, mais de 90% das empresas são micro ou pequenas. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados), as exportações do segmento caíram 17% em valor neste ano, no pior resultado desde a pandemia.
Comércio internacional passa por mudança
O engenheiro Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global, avalia que o cenário atual representa uma transformação nas relações comerciais internacionais. Na visão dele, negociações entre países estão assumindo um caráter mais direto e específico, com maior peso das relações bilaterais com os Estados Unidos.
Para Müller, o aumento das tarifas também contribuiu para uma reorganização das relações comerciais. Países afetados pelas mudanças passaram a olhar com maior atenção para o mercado brasileiro, favorecendo a aproximação e a abertura de novas oportunidades.
A estratégia, segundo o presidente da ApexBrasil, não é abandonar o mercado norte-americano, mas reduzir a dependência de um único destino. A expectativa entre empresários brasileiros é que o aumento das tarifas seja revertido futuramente, enquanto a diversificação serve como alternativa para ampliar a presença dos produtos nacionais no exterior.