A possibilidade de escassez de fertilizantes no mercado já preocupa produtores e a indústria agrícola para a próxima safra no Brasil. O alerta foi feito nesta segunda-feira (6), durante evento da Argus Media, em São Paulo, onde representantes do setor apontaram restrição de oferta, aumento de custos e retração da demanda como fatores que já afetam o campo.
De acordo com o country manager da Itafos, Felipe Coutas, o cenário vai além do preço elevado e já levanta dúvidas sobre a disponibilidade do produto.
“Talvez não tenha produto mesmo”, afirmou. Segundo ele, há relatos de produtores reduzindo ou até suspendendo o uso de fertilizantes. “Estamos ouvindo o agricultor dizendo que não vai adubar. Não é nem uma questão de preço, não vai usar”.
A decisão é influenciada pela piora na relação de troca, já que o custo de insumos tem consumido uma parcela maior da produção.
Restrição de insumos no mercado global
Outro fator que pressiona o setor é a falta de insumos essenciais, como enxofre e ácido sulfúrico, fundamentais para a produção de fertilizantes, especialmente os fosfatados.
Esses materiais são subprodutos da indústria de petróleo e gás, e sua oferta depende diretamente da atividade global desse setor. Após um período de equilíbrio, o mercado entrou em déficit entre 2024 e 2025, com tendência de agravamento em 2026.
Além disso, questões geopolíticas e logísticas, principalmente em regiões como o Oriente Médio, também impactam a cadeia de suprimentos.
Indústria enfrenta paralisações
Segundo a gerente comercial da EuroChem, Nayara Piloto, o cenário já afeta diretamente a produção no Brasil.
“Muitas vezes vale mais a pena vender o sulfúrico do que produzir um fosfatado de baixa concentração”, disse, ao relatar paralisações pontuais em plantas industriais.
Ela também destacou dificuldades logísticas, como limitações em portos e armazenagem, especialmente para insumos que exigem estruturas específicas.
Crédito e custos pressionam cadeia
O aumento no valor dos fertilizantes também elevou a necessidade de capital de giro no setor. Operações que antes exigiam cerca de US$ 8 milhões podem hoje demandar até US$ 40 milhões, restringindo o acesso ao crédito.
Segundo Roberto Barretto, diretor da Itafos, a demanda segue retraída.
“Quando você repassa os aumentos de custo, não vê iniciativa de compra. O produtor diz que vai esperar até a última hora ou migrar para um produto alternativo”.
Alternativas e impacto na produção
Diante do cenário, produtores avaliam alternativas como o uso de fosfato natural, fertilizantes de menor concentração e remineralizadores, além de ajustes no manejo.
No entanto, essas soluções têm limitações de escala e podem impactar a produtividade. Há relatos de redução de até 25% na adubação e mudanças no plantio, como substituição de culturas.
Apesar da tendência de manutenção ou até expansão da área plantada, a expectativa é de queda na produção.
“A área deve se manter, mas dificilmente vamos atingir o volume de produção esperado”, afirmou Coutas.
O setor avalia que o momento combina escassez, custos elevados e restrições financeiras, exigindo ajustes em toda a cadeia produtiva nos próximos meses.