Um vídeo que repercutiu nas redes sociais mostra pescadores retirando aguapés para abrir caminho no Rio Poti, em Teresina. Nas imagens, eles chegam a “caminhar” sobre a vegetação. Em entrevista ao programa Notícias do Dia, da TV Meio Norte, à jornalista Cinthia Lages, o biólogo Francisco Soares Santos Filho explicou que o fenômeno está diretamente ligado à poluição.
De acordo com Francisco Soares, o ambiente acaba se tornando ideal para a proliferação dessas plantas, favorecendo seu crescimento acelerado.
“O rio recebe uma carga de esgoto muito alta, muita matéria orgânica de esgoto, e isso faz com que haja o processo de decomposição. O rio é ‘adubado’ por esse esgoto pluvial. Era para ser apenas água da chuva, mas acaba vindo água da cozinha e, em muitos casos extremos, água do banheiro”, disse.
Embora haja avanços, o problema ainda é estrutural e, segundo o profissional, não se limita à capital piauiense.
“Nossa cidade vem melhorando sua cobertura de rede de esgoto, entretanto ainda falta muito. E isso não é um problema localizado em Teresina, praticamente o Brasil inteiro sofre com isso. Localmente, temos o rio sendo adubado e as plantas aproveitando, que nós chamamos de macrófitas aquáticas. Elas se aproveitam da situação, pois têm tudo que precisam para crescer: luz do sol, matéria orgânica e água.”
Impactos
O crescimento acelerado dos aguapés tem provocado consequências diretas para quem depende do rio.
“Há morte de peixes e, no caso dos pescadores, eles enfrentam sérias dificuldades para navegar e realizar suas atividades cotidianas, o que os força a retirar os aguapés para conseguir chegar até o rio.”
Além disso, o biólogo explica que essas plantas se desenvolvem rapidamente, agravando o cenário.
“Elas podem dobrar de biomassa em um intervalo de 36 horas. Em alguns casos, ficam fincadas no leito do rio, virando verdadeiros arbustos.”
O que fazer?
Para o especialista, o controle da vegetação é necessário, mas exige planejamento e investimento contínuo.
“É relativamente simples, embora não seja muito barato, pois esse manejo precisa ser feito anualmente. É preciso lembrar que agora o rio tem pouca macrófita porque está chovendo. Ao chover, há o aumento do volume de água. Não acaba com a poluição, mas ajuda a diluí-la.”
Ele também alerta que a situação tende a se agravar com a chegada do período seco, quando as condições naturais passam a favorecer ainda mais a concentração de poluentes no rio.
“À medida que saímos do período chuvoso para o período mais seco, a taxa de evaporação é permanente, pois o calor permanece. A água continua evaporando, mas não temos mais a entrada das águas da chuva. Esse fluxo contínuo faz com que ocorra o aumento da concentração de poluentes, pois há diminuição do volume de água.”
Nesse contexto, o biólogo reforça que a maior parte da poluição tem origem doméstica, já que a região não possui grande concentração de indústrias com potencial poluidor significativo.
Remoção total não é solução
Apesar do impacto visual e das dificuldades causadas pelos aguapés, a retirada completa dessas plantas não é considerada uma alternativa viável pelo especialista.
“Remover totalmente o aguapé não é a solução. Além de ser caro, essas plantas fazem um serviço que não conseguimos fazer, que é justamente filtrar essa água. Essa matéria orgânica que jogamos no rio acaba sendo incorporada pela planta, formando aquela massa verde.”
Além da função de filtragem, Francisco Soares destaca que a presença das macrófitas também interfere na dinâmica ecológica do ambiente, alterando o comportamento de outras espécies.
“No período em que há muito aguapé, também há um grande aumento de aves. Vemos garças, patos e outras espécies que se alimentam da presença das macrófitas. Há todo um ecossistema girando em torno delas, mas tudo em desequilíbrio é demais.”
Diante desse cenário, o especialista defende a adoção de estratégias que conciliem ações imediatas com medidas estruturais mais duradouras.
“A curto prazo, seria a remoção dessas plantas e, a médio e longo prazo, o incremento das fiscalizações da rede de esgoto. O ideal é que possamos chegar a 100%, ou seja, que todo o esgoto da cidade seja tratado e que a água chegue ao rio com uma qualidade superior à do próprio rio. Esse é o desejado.”
Ao avaliar o estado atual do rio Poti, ele resume a situação como um processo de resistência diante das pressões ambientais.
“A gente vê o rio tentando sobreviver. É um rio de correnteza fraca e, por isso, sofre mais com esse acúmulo", ressaltou.
Por fim, o biólogo fez um alerta para os próximos meses, indicando que o problema pode se intensificar caso não haja intervenção adequada.
“Isso não é comum no período chuvoso, pois há aumento do volume de água e a poluição se dilui. Muito provavelmente, esse aglomerado não foi desfeito no ano passado e foi apenas se acumulando. Se neste período ele já está assim, imagine quando chegar o período mais seco. A concentração de poluentes aumenta, pois diminui o volume de água. Então, essa situação tende a piorar ao longo do ano”, disse.