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Com condição rara, estudante da rede estadual do Piauí conquista vaga na UESPI

Aos 18 anos, Nayara Beatriz Conceição enfrentou preconceitos e falta de acessibilidade ao longo da vida escolar e agora celebra a aprovação em Jornalismo pela UESPI

Estudante Nayara Beatriz Conceição | Reprodução

Aos 18 anos, a estudante Nayara Beatriz Conceição, aluna do CETI Professora Auristela Soares Lima, conquistou aprovação no curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), utilizando a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Nesta sexta-feira (6) ela relatou em entrevista ao Notícias do Dia, com a jornalista Cinthia Lages, os desafios para o acesso ao ensino superior.

Moradora de Teresina, Nayara tem artrogripose múltipla congênita, uma condição rara caracterizada por contraturas articulares presentes desde o nascimento, que limitam os movimentos. Devido à rigidez muscular, ela não possui força para se locomover sozinha, faz uso de cadeira de rodas motorizada e precisa escrever com a boca. Ainda assim, nunca deixou que a condição a afastasse do ambiente educacional.

A escolha pelo Jornalismo, segundo a estudante, vem de uma afinidade antiga com a área. 

“Sempre admirei muito a profissão. Sou bastante comunicativa, gosto do que o jornalismo ensina, sempre fui boa em humanas, gosto de ler e escrever e acredito que é uma profissão muito útil para a sociedade”, afirmou.

Universidade Estadual do Piauí ( Foto: Divulgação/Ascom)

Caminhada até a aprovação

A caminhada até a aprovação, no entanto, foi marcada por obstáculos que vão além das limitações físicas. Nayara relata que enfrentou preconceito e exclusão desde a infância, especialmente na tentativa de acesso à educação formal. 

“Nem sempre foi fácil, porque o preconceito ainda existe muito. No início, muitas vagas foram negadas para mim por causa da deficiência. Sempre foi uma luta minha e da minha mãe para que eu estivesse no sistema educacional”, contou.

Ela relembra episódios de falta de acessibilidade em escolas por onde passou, incluindo banheiros inadequados e a necessidade de reformas estruturais feitas apenas após sua matrícula. Além disso, o transporte escolar precário foi uma constante, dificultando a frequência às aulas.

No processo de alfabetização, Nayara contou com o apoio direto da mãe e de profissionais da saúde. Aos quatro anos, uma equipe de Centro Integrado de Reabilitação (Ceir) apresentou a ela a possibilidade de escrever com a boca, método que utiliza até hoje. A técnica foi fundamental para sua autonomia acadêmica, inclusive durante o Enem.

Sobre o dia da prova, a estudante descreveu o momento como desafiador.

“Foi assustador. Solicitei acompanhante para ajudar em necessidades básicas, como ir ao banheiro e manusear a caneta para marcar o gabarito, porque sou mais lenta. Mesmo apresentando laudos na inscrição, não foi disponibilizado acompanhante. Quem me ajudou foi a própria aplicadora”, relatou.

Ainda assim, Nayara conseguiu concluir a prova dentro do tempo regular, incluindo a redação, sem prejuízos.

Atualmente, ela encontra na tecnologia uma aliada importante no dia a dia, com o uso do computador facilitando tarefas acadêmicas e de escrita. O que a ajudou durante seus estudos no período pré-Enem.

Apesar da conquista, uma preocupação ainda acompanha a estudante: o acesso ao campus da UESPI, localizado no bairro Pirajá.

“O que mais me preocupa é conseguir chegar à universidade. No bairro onde moro só passam dois ônibus, e eles são irregulares. Muitas vezes não funcionam ou têm horários muito contra mão”, explicou.

Mesmo diante das incertezas, Nayara mantém expectativas positivas em relação ao futuro e acredita que o ingresso na universidade pode abrir novas portas.

“Sempre fui muito extrovertida, fiz muitos amigos ao longo da vida e até hoje mantenho amizades, inclusive da infância. Sempre contei muito com a ajuda das pessoas”, concluiu.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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