Antes mesmo de ganhar formas, cores, texturas e assinaturas criativas, a próxima edição da Casa Decor já começou a emocionar. Esta semana, um grupo seleto de jornalistas, arquitetos e profissionais do universo do design foi convidado a atravessar, em primeira mão, as portas do edifício que abrigará a edição de 2026 ainda completamente despido de cenografia, intervenções contemporâneas ou instalações artísticas. Um convite raro: observar a arquitetura em estado puro, escutar o silêncio das paredes centenárias e perceber a potência latente de um espaço prestes a se transformar.
A exposição oficial acontecerá entre 9 de abril e 24 de maio de 2026, mas o primeiro gesto simbólico já foi dado no coração de Madrid, na emblemática Calle San Agustín, 11, esquina com a Calle Cervantes, no Barrio de Las Letras. Um território onde literatura, arte, pensamento e vida urbana se cruzam há séculos, formando uma das identidades culturais mais densas da capital espanhola.
Não se trata apenas de um novo endereço. A escolha do imóvel marca, segundo a própria organização, uma verdadeira “edição de ouro” da Casa Decor. Pela primeira vez, a mostra se instala plenamente neste bairro histórico, literário e artístico um lugar que preserva a memória do Século de Ouro espanhol e, ao mesmo tempo, pulsa como laboratório criativo contemporâneo. A poucos passos, o eixo monumental do Paseo del Prado, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade, conecta o visitante a alguns dos maiores templos da arte mundial: o Museu do Prado, o Reina Sofía e o Thyssen-Bornemisza. Um contexto urbano que amplia o diálogo entre design, patrimônio, paisagem, arquitetura e cultura.
O edifício escolhido é uma rara casa-palácio urbana, construída entre 1892 e 1895 pelo arquiteto Enrique Sánchez y Rodríguez, como residência do marquês de los Vélez e conde de Niebla. Em uma área onde muitas construções nobres desapareceram ao longo do século XX, este imóvel permanece como um testemunho vivo da arquitetura aristocrática madrilenha. Sua fachada classicista, de linhas sóbrias e proporções rotundas, antecipa interiores monumentais, marcados por escadarias esculturais, colunas imponentes, lucernários generosos e salões de grande elegância.
Originalmente projetado como um palácio urbano com três níveis, o edifício organizava funções com precisão: áreas de serviço no semissubsolo, acesso principal pela planta baixa e, na planta nobre, os salões sociais, dormitórios principais e espaços de representação. A escadaria monumental elemento central da composição conduz o visitante a um espaço coroado por um grande lucernário, onde a luz natural atravessa vitrais históricos e desenha volumes e sombras ao longo do dia, criando uma atmosfera quase cenográfica.
Em 1926, o imóvel iniciou uma segunda vida ao ser adquirido pela Congregação das Esclavas do Sagrado Coração de Jesus, transformando-se em convento e colégio. Essa fase acrescentou novas camadas à história do edifício, incluindo a construção de uma capela de forte valor artístico, marcada por uma decoração rica que combina referências do renascimento plateresco, influências medievais e elementos de tradição mozárabe. Os trabalhos foram executados pelos históricos Talleres Granda, referência da arte litúrgica espanhola do século XX.
Ao longo do século XX, o edifício passou por ampliações e adequações funcionais incluindo a construção de uma quarta planta por volta de 1941 sempre buscando respeitar a harmonia arquitetônica original. A última grande modernização ocorreu em 2009, consolidando uma área construída de aproximadamente 3.500 metros quadrados. Apesar das transformações, permanecem evidentes as chamadas “huellas señoriales”: pisos de mármore, molduras elaboradas, vitrais históricos e uma monumental escadaria semicircular que reafirma o caráter palaciano do conjunto.
Durante a visita exclusiva, o percurso pelos espaços vazios provocou uma experiência quase sensorial. Sem mobiliário, sem iluminação cênica, sem materiais contemporâneos, o edifício se apresenta como uma tela em branco um cenário onde cada detalhe arquitetônico ganha protagonismo. É justamente essa leitura direta da matéria, da escala e da luz que antecipa o desafio criativo que os designers enfrentarão ao dialogar com um patrimônio tão carregado de identidade.
Mais do que uma exposição, a Casa Decor se consolida como um projeto curatorial de transformação urbana. Cada edição não apenas ativa um imóvel, mas reposiciona seu papel dentro da cidade, criando novos fluxos culturais, sociais e econômicos. Nesta edição, o edifício pertence às empresas Sircle Collection e Take Point, que liderarão sua reabilitação para dar origem ao futuro hotel de luxo Sir Agustin. O projeto prevê 33 quartos, restaurante e um clube privado, integrando hospitalidade, design, cultura e experiências contemporâneas, respeitando os elementos históricos e a essência arquitetônica do imóvel.
Essa vocação de experiência total se estende também à gastronomia, elemento fundamental na construção do lifestyle que a Casa Decor propõe. Para 2026, a mostra volta a confiar no Triciclo como operador oficial de catering, responsável tanto pelo restaurante aberto ao público quanto pelos mais de cem eventos privados que acontecem durante a edição. Ícone da cozinha contemporânea madrilenha e referência absoluta no próprio Barrio de Las Letras, o Triciclo reafirma sua parceria iniciada em 2023, consolidando uma curadoria gastronômica alinhada à identidade do território.
Fundado em 2013 pelo chef Javier Goya, o Triciclo nasceu com uma filosofia clara: oferecer uma cozinha honesta, próxima e centrada no prazer do comensal, onde o produto e o sabor são protagonistas. Sua proposta se ancora em uma cozinha de mercado, guiada pela sazonalidade, pela qualidade da matéria-prima e por uma carta em constante transformação, que combina tradição espanhola, técnicas contemporâneas e sutis influências internacionais.
Para a Casa Decor 2026, a proposta gastronômica terá como objetivo ampliar a experiência sensorial da exposição, criando uma continuidade entre arquitetura, design e paladar. Uma cozinha baseada na coerência, no respeito ao produto e na honestidade culinária, pensada para acompanhar o ritmo da visita, os encontros profissionais, os eventos culturais e os momentos de contemplação transformando o ato de comer em mais uma forma de fruição estética e cultural.
A edição também incorpora uma dimensão social estruturada. A Casa Decor apoiará oficialmente a ONG Kassumay, uma organização que atua no desenvolvimento social a partir do encontro entre as culturas da Espanha e do Senegal. Seu trabalho se concentra especialmente em mulheres e crianças em situação de vulnerabilidade, promovendo educação, saúde, bem-estar, integração econômica e acesso à água. No Senegal, a ONG mantém escolas, centros médicos, oficinas de capacitação e projetos agrícolas sustentáveis. Na Espanha, desenvolve programas de reinserção social para mulheres privadas de liberdade, fortalecendo autoestima, formação profissional e autonomia.
Ao integrar patrimônio, design contemporâneo, hospitalidade, gastronomia e impacto social, a Casa Decor 2026 constrói uma narrativa que vai muito além da estética. Trata-se de uma experiência urbana completa, onde memória e futuro dialogam, onde a criatividade ativa o patrimônio e onde a cidade se revela como espaço vivo de encontro, inovação e responsabilidade.
Enquanto os ambientes ainda aguardam os primeiros traços dos arquitetos e designers, o edifício permanece em estado de promessa. Um espaço que respira história, atravessado pela luz e pelo silêncio, prestes a se transformar em um dos palcos mais vibrantes da cena criativa europeia em 2026.