Após 2.558 dias, mais de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração vistoriados e 268 corpos encontrados, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais encerrou oficialmente as buscas por vítimas da tragédia da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O rompimento da barragem completa sete anos neste domingo (25), deixando duas pessoas ainda não localizadas: o engenheiro mecânico Tiago Tadeu Mendes da Silva e a estagiária Nathália de Oliveira Porto Araújo.
Segundo o Corpo de Bombeiros, 100% dos rejeitos despejados na área do desastre foram examinados. A previsão é que todos os equipamentos utilizados nas buscas sejam recolhidos até a primeira quinzena de fevereiro.
Maior operação de buscas da história do Brasil
Ao longo de sete anos, mais de 5 mil militares participaram da operação, com apoio de corporações de outros estados. Foram realizadas mais de 1.600 horas de voo, por 31 aeronaves, além do trabalho de 68 cães de busca e 120 máquinas.
A lama da barragem percorreu aproximadamente 290 hectares, atingindo instalações da mineradora, imóveis, plantações e o Rio Paraopeba. Ao longo dos anos, as estratégias de buscas mudaram conforme a evolução do trabalho. Logo após o rompimento, o foco era encontrar pessoas com vida. A oitava e última estratégia, iniciada no fim de 2021, consistiu na implantação de estações de buscas, equipamentos que faziam uma espécie de peneiramento para separar rejeitos de materiais de interesse, incluindo segmentos humanos.
Apesar do encerramento das buscas pelos bombeiros, a operação não chegou ao fim. A Polícia Civil continua a análise de segmentos humanos encontrados em Brumadinho ainda não examinados, embora não tenha informado quantos faltam. Os trabalhos de identificação seguem em andamento.
Vítimas desaparecidas
A tragédia deixou 270 mortos, incluindo duas gestantes. Entre os desaparecidos, Nathália de Oliveira Porto Araújo, de 25 anos, estagiária da Vale há quatro meses, estava no horário de almoço, conversando com o marido por telefone, quando viu a lama se aproximar e disse: “Deus, me dá o livramento”. Ela deixou dois filhos, de 3 e 4 anos.
A prima dela, Tânia Efigênia de Oliveira Queiroz, ainda mantinha esperança de encontrá-la: “O que a gente está mais sentindo é a impunidade. Até então ninguém foi preso, não houve justiça, e ficamos tristes. Perdemos nossas joias e caímos no esquecimento”.
O engenheiro Tiago Tadeu Mendes da Silva, recém-formado, havia sido transferido para Brumadinho cerca de 20 dias antes da tragédia. Ele deixou a esposa e dois filhos, sendo o mais novo com apenas 8 meses. Há pelo menos dois anos, a mãe dele, Lúcia Aparecida Mendes Silva, pedia pelo fim das buscas: “Imagina dormir e acordar esperando o telefone tocar. Já perdi as esperanças. A Vale não entregou nem nunca vai entregar o corpo do meu filho para mim. Eu suplico que parem com as buscas”.
Impactos
O encerramento das buscas marca o fim de um ciclo histórico de esforços de resgate, mas reforça a dor e a luta por justiça das famílias. A tragédia de Brumadinho segue como um marco na mineração brasileira, evidenciando riscos ambientais, humanos e a necessidade de responsabilização das empresas.
Embora o Corpo de Bombeiros tenha concluído seu trabalho de campo, a memória das vítimas e a busca por respostas continuam, lembrando que tragédias como esta deixam marcas profundas na vida de milhares de pessoas e na sociedade como um todo.