Em entrevista ao programa Ronda, da TV Meio Norte, ao jornalista Wellington Alencar, a delegada da Polícia Civil do Maranhão, Viviane Fontenele, relatou o constrangimento vivido durante reuniões institucionais com o secretário de Segurança Pública do estado, Maurício Ribeiro Martins. Ela afirmou ainda que teme possíveis retaliações após tornar o caso público.
De acordo com a delegada, que registrou um boletim de ocorrência na terça-feira (10), apesar do afastamento do secretário do cargo, a pessoa designada para substituí-lo seria próxima a ele.
A situação teria começado no dia 2 de fevereiro, durante uma reunião com integrantes da cúpula da segurança pública realizada no gabinete do gestor, na Secretaria de Segurança Pública do Maranhão.
“Estava presente em uma reunião entre delegados de polícia da associação de classe e o secretário de Segurança Pública. Eu conheci ele de vista, de muitos anos atrás, quando eu era oficial de justiça, muito antes de ser delegada, de vista. Nunca tive contato algum com ele, nunca fui amiga dele nem nada, quero deixar isso bem claro”, contou.
Segundo Viviane, ela nunca havia tido qualquer tipo de contato com o secretário antes desse encontro institucional.
“O único contato após ele se tornar secretário de Segurança Pública foi esse dia, nessa reunião. Logo ele foi dizendo que lembrava de mim, que eu era a delegada mais bonita do estado do Maranhão, me chamando de ‘delegata’, dizendo que me observava há muitos anos, desde que eu trabalhava no Tribunal de Justiça, e queria muito uma foto minha para colocar no gabinete dele”, relatou.
A delegada afirmou que ficou constrangida com a situação e tentou retomar a reunião. Em outros momentos do encontro, porém, o secretário teria voltado a pedir fotos. Segundo ela, era a única mulher presente na sala naquele momento.
Ao final da reunião, ainda conforme o relato, ele teria repetido o pedido: “Não esqueça a minha foto”.
Viviane classificou a situação como constrangedora, desconfortável e inadequada. A delegada disse ainda que chegou a considerar registrar um boletim de ocorrência logo após o episódio, mas foi aconselhada por um colega delegado a não fazê-lo naquele momento.
No dia seguinte, segundo ela, houve outra reunião institucional. Ao deixar o local, o secretário teria se levantado, dado a volta na mesa, apertado o ombro da delegada, se inclinado e falado em seu ouvido.
“Não esqueça a foto. Eu quero muito uma foto sua no meu gabinete”, contou.
Exposição
Com 17 anos de carreira na Polícia Civil e ex-chefe do Departamento de Feminicídio, Viviane afirmou que passou a refletir mais profundamente sobre o ocorrido após o novo momento de constrangimento e também após as discussões do Dia Internacional da Mulher.
“Eu comecei a me colocar no lugar das vítimas. Se eu, que sou uma delegada de polícia, tenho autoridade, tenho experiência, tenho voz, tive dificuldade em me manifestar, imagina as outras pessoas que não têm a mesma condição que eu tenho”, refletiu.
A delegada relatou ainda que escreveu um texto em forma de desabafo e sugeriu uma reflexão sobre o tema em um grupo institucional. A mensagem acabou sendo compartilhada fora do grupo e ganhou grande repercussão nas redes sociais.
“Eu escrevi o texto desabafando e sugeri que fosse feita uma reflexão a respeito do tema. Essa mensagem no grupo vazou e, após isso, viralizou nas redes. Eu passei a receber apoio, mas também a receber ataques”, disse.
Ela afirmou que também se sentiu novamente exposta com a divulgação do caso.
“Além do constrangimento que sofri no mês anterior, eu sofri novamente quando não me deram opção de escolher se eu queria publicizar isso ou não”, declarou.
O que diz o secretário?
O secretário de segurança, Maurício Martins, se manifestou por meio de uma nota em uma rede social. Ele negou as alegações e disse que os fatos precisam ser apurados e que sua conduta sempre foi ética e respeitosa nas reuniões de trabalho. Leia a nota na íntegra abaixo.
"Em relação às informações divulgadas em nota pela Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão (ADEPOL-MA), envolvendo relato atribuído a uma delegada de Polícia Civil, esclareço que as alegações apresentadas não correspondem à realidade e requerem apuração rigorosa para que todos os fatos sejam devidamente esclarecidos.
Em nenhum momento adotei qualquer conduta desrespeitosa ou incompatível com o ambiente institucional em reuniões de trabalho realizadas com membros da Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão ou qualquer outra instituição ou pessoa. Tampouco houve qualquer manifestação desrespeitosa direcionada à delegada. As referências feitas à sua pessoa restringiram-se a palavras cordiais de elogio e reconhecimento profissional.
Tenho como princípio o absoluto respeito às pessoas, às instituições e, de forma muito especial, às mulheres, em particular às policiais que integram o sistema de segurança pública do Maranhão, pelo papel fundamental que desempenham na sociedade e na proteção da população.
Reitero minha conduta ética e coloco-me inteiramente à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, certo de que a verdade prevalecerá".