- Audiências de instrução do processo contra pastor David Gonçalves encerram-se na sexta-feira no Fórum de Paço do Lumiar.
- 48 pessoas prestaram depoimentos durante a fase de instrução, incluindo vítimas, testemunhas e o acusado.
- Pastor foi preso em abril durante investigação "Falso Profeta" por estupro, tortura e estelionato.
- Investigação revelou sistema de punições físicas e psicológicas contra fiéis que desobedeciam regras.
- Homens foram principais alvos de abusos sexuais, segundo relatos de vítimas durante a investigação.
As audiências de instrução do processo que envolve o pastor acusado de estupro, David Gonçalves da Silva, foram encerradas nessa sexta-feira (25), no Fórum de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.
Durante a fase de instrução, realizada ao longo desta semana, 48 pessoas prestaram depoimentos, incluindo supostas vítimas, testemunhas, representantes da defesa e o próprio acusado.
O pastor David Gonçalves é acusado pelo Ministério Público de crimes como estupro de vulnerável, tortura e estelionato contra fiéis. Com o encerramento das audiências, o processo entra agora na etapa de apresentação das alegações finais pelo Ministério Público e pela defesa.
Após o cumprimento dos prazos dessa fase, estimados em até 20 dias, a Justiça deverá analisar o caso e proferir a sentença.
Pastor David Gonçalves da Silva foi preso em abril
O pastor David Gonçalves da Silva foi preso em 17 de abril durante a investigação denominada “Falso Profeta”. Na época, ele era investigado por suspeitas de estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.
A investigação da Polícia Civil durou cerca de dois anos e teve início depois de denúncias feitas por ex-fiéis da igreja. Segundo o delegado Sidney Oliveira, titular da Delegacia de Paço do Lumiar, entre cinco e seis vítimas relacionadas aos crimes investigados haviam sido identificadas durante o inquérito.
A partir do depoimento de uma das supostas vítimas, outras pessoas foram localizadas e ouvidas. As diligências alcançaram, inclusive, pessoas que estavam nos estados do Pará e do Ceará.
Segundo a Polícia Civil, o pastor David Gonçalves da Silva teria exercido controle durante anos sobre uma comunidade formada por aproximadamente 100 a 150 fiéis.
Vítimas de pastor acusado de estupro relatam castigos físicos e violência psicológica
De acordo com depoimentos colhidos durante a investigação, a igreja mantinha um sistema de punições físicas e psicológicas contra pessoas que descumprissem regras internas ou contrariassem determinações do líder religioso.
Entre as supostas vítimas estão pessoas que chegaram à instituição em situação de vulnerabilidade. Um dos denunciantes afirmou ter entrado na igreja aos 13 anos, quando vivia em situação de rua e buscava ajuda.
“Eu cheguei com 13 anos de idade. Estava na rua, em situação de vulnerabilidade, e pensando que estava me refugiando para ter uma ajuda, mas infelizmente vivi uma prisão por vários anos. Até hoje sou traumatizado por conta de tudo que vivi, por conta de abuso sexual e psicológico”, relatou uma das vítimas durante a investigação.
Segundo os relatos, algumas agressões recebiam nomes específicos. Um dos castigos era chamado de “readas” e consistia em chicotadas aplicadas com um reio, instrumento semelhante a um chicote usado em cavalos.
Os investigadores afirmam que as punições eram utilizadas como forma de impor disciplina e ampliar o controle sobre as pessoas que viviam na comunidade religiosa.
Homens eram principais alvos de abusos sexuais, segundo a polícia
A Polícia Civil afirma que, apesar de a comunidade religiosa ser composta por homens e mulheres, os homens aparecem como os principais alvos dos supostos abusos sexuais investigados no caso.
Uma das vítimas relatou que os abusos teriam ocorrido durante vários anos.
“Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher para poder nos ludibriar. Isso aconteceu por vários anos e hoje sou um cara que vive atormentado, com muitas lembranças”, afirmou.
O mesmo denunciante declarou ainda enfrentar consequências psicológicas relacionadas ao período em que permaneceu na comunidade religiosa.