Ela saiu para almoçar e nunca mais voltou. Há 22 anos, a irmã mais velha de Vitor Belfort — um dos maiores nomes do MMA brasileiro — desapareceu sem deixar rastros. Priscila Belfort nunca foi encontrada, e seu sumiço permanece como um dos maiores enigmas do país. Afinal, onde está Priscila e o que realmente aconteceu com ela? Priscila tinha 29 anos quando desapareceu, no dia 9 de janeiro de 2004.
O FATÍDICO DIA
Naquela manhã, ela acordou indisposta e disse que não queria ir trabalhar, pois estava sentindo cólicas. Sua mãe, preocupada com as faltas acumuladas naquela semana, decidiu ligar para a psicóloga da filha para convencê-la a ir ao trabalho. A atitude irritou Priscila, e as duas tiveram uma breve discussão. Apesar disso, ela resolveu ir. Se arrumou, e a mãe a levou até o local de trabalho — a Secretaria de Esportes do Rio de Janeiro, localizada na Avenida Presidente Vargas, no centro da cidade. Na hora do almoço, Priscila saiu do prédio e caminhou pela avenida em direção à Central do Brasil. Durante o trajeto, encontrou uma amiga, com quem conversou rapidamente antes de seguir seu caminho.
Essa foi a última vez que Priscila foi vista. A amiga relatou que ela parecia distraída, andando de cabeça baixa. Na época, as câmeras de segurança do centro do Rio de Janeiro não estavam funcionando, o que impossibilitou o rastreamento do percurso de Priscila após esse ponto. Antes de falarmos sobre a investigação polêmica, é importante voltar no tempo e entender o que ela vinha enfrentando.
A VIDA ANTES
Em 1992, aos 17 anos, Priscila fez um intercâmbio para os Estados Unidos. A experiência não foi positiva. Ela sofreu bastante durante esse período e, ao retornar ao Brasil, foi diagnosticada com depressão. Passou, então, a fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
Desde pequena, Priscila era apaixonada por arte — gostava de pintar e se expressar criativamente. No entanto, seu pai sempre incentivou os filhos a seguirem o caminho dos esportes. Colocou Priscila no tênis, esporte pelo qual ela não tinha afinidade. Segundo sua mãe, Jovita, ela só jogava para agradar ao pai. Ficava nervosa antes das competições e frequentemente passava mal.
Enquanto Vitor encontrou sua vocação nas lutas e ganhava destaque no MMA, Priscila vivia em um conflito interno. A separação dos pais, que foi conturbada e traumática, também marcou profundamente a infância dos irmãos. Depois de abandonar o tênis, Priscila ingressou no curso de Arquitetura — talvez uma forma de se manter conectada com a arte, mesmo sem seguir diretamente essa vocação. Sua mãe sempre soube que aquilo não a fazia verdadeiramente feliz.
A impressão era de que, enquanto todos os esforços da família se concentravam na carreira de Vitor, Priscila travava uma batalha silenciosa contra a depressão, mas mantinha a alegria que todos amavam. Mas segundo a família, esse não teria sido o motivo de seu desaparecimento.
UM RESPIRO ANTES DE DESAPARECER
Vinte dias antes do desaparecimento, Vitor se casou com Joana Prado. De acordo com os familiares, Priscila estava animada com o casamento e demonstrou felicidade. Em seu aniversário, no dia 5 de dezembro de 2003, ela comemorou com uma festa íntima para amigos e parentes. Durante a celebração, apresentou seu namorado. Segundo Vitor, ele parecia retraído e o achou “estranho”. Familiares relataram que, nas semanas seguintes, Priscila começou a enfrentar problemas no relacionamento. Em um almoço onde seria apresentada aos avós do namorado, ela se recusou a ir. O rapaz havia terminado um noivado anterior para ficar com Priscila, mas, segundo Jovita, nos últimos dias a filha já não parecia tão feliz. Dava sinais de que talvez não quisesse mais continuar o namoro.
OBS: Falaremos mais sobre esse namorado adiante. Agora, vamos para o que aconteceu depois do desaparecimento de Priscila.
Por volta das 15h, Jovita recebeu uma ligação do namorado de Priscila, perguntando se ela estava em casa. Ele disse que havia ido até o local de trabalho dela, mas não a encontrou. O que chamou a atenção de Jovita foi o fato de ele ter feito a ligação de um orelhão, apesar de possuir celular — algo que ela achou estranho.
Preocupada, Jovita ligou para o trabalho da filha e perguntou por ela. Os colegas informaram que Priscila havia saído para almoçar, mas ainda não tinha retornado. Isso aumentou a inquietação de Jovita, já que Priscila costumava fazer refeições rápidas. Diante da situação, ela ligou para sua irmã e pediu que fosse até as redondezas da Secretaria de Esportes para procurar pela sobrinha. A busca, no entanto, não teve resultado: Priscila não foi encontrada.
Naquela época, Vitor Belfort se preparava para uma das lutas mais importantes de sua carreira — a disputa do cinturão dos meio-pesados do UFC. Inicialmente, Joana Prado, sua esposa, decidiu não contar sobre o desaparecimento da irmã para não abalar o emocional do lutador. No entanto, com o passar das horas e a ausência de qualquer sinal de Priscila, Joana decidiu revelar a situação a Vitor.
PRIMEIRAS HORAS
Durante a noite, familiares e amigos se mobilizaram e foram às ruas do centro do Rio de Janeiro em busca de qualquer pista. Vasculharam a região por horas, mas não encontraram nada. Somente no dia seguinte, cerca de 24 horas após o desaparecimento, a família procurou a polícia e registrou oficialmente o sumiço de Priscila Belfort.
No início, o desaparecimento de Priscila não foi tratado como sequestro, já que não houve nenhum pedido de resgate. No entanto, a hipótese de fuga também não fazia sentido. Segundo sua mãe, Jovita, Priscila não havia levado o cartão de crédito e tinha pouco dinheiro na conta bancária. Além disso, naquele dia ela havia recebido o salário, mas o valor nunca foi retirado da conta. “Como ela fugiria assim?”, questionava a mãe.
O pai de Priscila também contou que havia conversado com ela na noite anterior e que, aparentemente, estava tudo bem — ela não demonstrou nenhum comportamento incomum ou sinal de alerta. A investigação, desde o início, foi complicada. As câmeras de segurança do centro do Rio não estavam funcionando e o celular de Priscila estava descarregado, o que impedia qualquer tentativa de rastreamento.
"VOLTA PRISCILA!"
Diante da falta de pistas, a família iniciou a campanha “Volta, Priscila”, espalhando cartazes e camisetas pela cidade. O caso ganhou grande repercussão na mídia, especialmente por ela ser irmã de um lutador famoso. Joana, Vitor e Jovita passaram a frequentar emissoras de televisão e programas jornalísticos para manter o nome de Priscila em evidência e buscar informações que pudessem ajudar a encontrá-la. Uma recompensa de R$ 5 mil foi oferecida a quem fornecesse alguma pista concreta.
Lembra daquela luta importante para a qual Vitor Belfort estava se preparando quando a irmã desapareceu? Pois bem, no meio de todo esse caos, o presidente do UFC ligou para ele oferecendo a possibilidade de adiar a disputa. Vitor recusou. Disse que lutaria. E assim fez: 22 dias após o desaparecimento de Priscila, ele viajou aos Estados Unidos, entrou no octógono e venceu a luta, conquistando o cinturão dos meio-pesados.
No momento da vitória, vestia uma camisa com o rosto da irmã. Joana Prado conta que, após essa conquista, Vitor mudou profundamente. Ela diz que perdeu o marido para uma tristeza silenciosa. O lutador mergulhou em uma depressão profunda, causada pela dor de não saber o paradeiro da irmã. Por outro lado, a luta trouxe ainda mais visibilidade ao caso. A imprensa continuava a divulgar diariamente os contatos da polícia e do Disque-Denúncia, e novas informações chegavam de todo o Brasil.
as denúncias
Todos os dias, a polícia e os familiares recebiam denúncias, e cada uma delas era averiguada. Algumas pareciam mais relevantes do que outras. Cerca de cinco dias após o desaparecimento, uma ligação despertou atenção: um homem afirmou estar com Priscila e exigiu um resgate de R$ 150 mil. Durante a chamada, ele ameaçou enviar um dedo dela para provar que falava a verdade:
“Aqui é o Águia. A Priscila tá sob o meu poder. É 150 mil pra liberar ela. Como é que a gente faz? Tem que mandar um dedo dela?", dizia a voz na ligação.
Chegaram a ligar também para o trabalho de Priscila e para a casa da mãe, pedindo dinheiro. A partir desse momento, o caso — até então sob responsabilidade do 14º DP do Leblon — foi assumido pela Divisão Antissequestro do Rio de Janeiro. Deixava de ser apenas um desaparecimento para se tornar oficialmente tratado como um sequestro.
No entanto, pouco tempo depois, o tal “Águia” parou de ligar. Isso chamou a atenção dos investigadores. Quando há um sequestro real com pedido de resgate, os criminosos costumam insistir até conseguir o que querem, depois disso, não houve mais nenhum pedido de resgate.
A CABEÇA
Na mesma semana em que Vitor Belfort embarcou para os Estados Unidos para disputar o cinturão do UFC, uma notícia chocante chamou atenção no Rio de Janeiro: bombeiros encontraram uma cabeça humana boiando na Baía de Guanabara. De acordo com informações iniciais, o crânio havia sido jogado no mar cerca de duas semanas antes — período que coincidia exatamente com o desaparecimento de Priscila Belfort.
A Polícia Civil solicitou, então, um exame de arcada dentária para verificar se o crânio era de Priscila. No entanto, o resultado foi negativo: não era dela. (Durante a apuração deste caso, não encontrei nenhuma informação oficial sobre a verdadeira identidade da vítima.)
Nesse período, surgiam diversas teorias e rumores. Um deles envolveu um casal flagrado em cima de um trem cargueiro na cidade de Limeira, no interior de São Paulo. A jovem apresentava traços físicos semelhantes aos de Priscila, o que gerou especulações. No entanto, foi confirmado que se tratava de uma mulher chamada Andreia, de 28 anos. A hipótese de fuga voluntária, apesar das especulações, nunca foi considerada pela família de Priscila.
Com o tempo passando e poucas respostas, a comoção em torno do caso aumentava. O apresentador Gilberto Barros, que frequentemente abordava o desaparecimento em seu programa Boa Noite Brasil, decidiu ajudar a família financeiramente. Ele ofereceu uma recompensa de R$ 10 mil para quem fornecesse pistas concretas sobre o paradeiro de Priscila — à polícia ou diretamente ao programa. Mesmo assim, a maioria das denúncias continuava sendo falsa e não levava a lugar algum.
SEQUESTRO-RELÂMPAGO
Cerca de um ano e meio após o desaparecimento, uma nova reviravolta ocorreu. Um homem chamado Adilson Cutrim foi vítima de um sequestro-relâmpago no Rio de Janeiro. Quatro criminosos armados o abordaram e o colocaram à força dentro de um carro. O levaram até o Morro da Providência, onde, segundo ele, foi ameaçado psicologicamente e assaltado — levaram dois celulares e um relógio.
Durante o sequestro, enquanto estava encapuzado, Adilson afirmou ter visto o rosto de um dos bandidos. Nesse momento, o criminoso teria feito uma afirmação perturbadora: disse que conhecia Priscila Belfort e que a havia matado. A frase foi dita em tom de ameaça, como uma forma de intimidar Adilson a obedecer.
Após ser libertado, ele foi diretamente à polícia denunciar o sequestro. Na Delegacia de Antissequestro (DAS), os investigadores mostraram fotos de criminosos conhecidos do Morro da Providência. Sem hesitação, Adilson apontou para uma imagem e identificou o suspeito como “Gerinho”
MORRO DA PROVIDÊNCIA
Como os sequestradores haviam levado dois celulares, e Adilson só havia conseguido bloquear um deles, ele informou isso aos policiais. A equipe da DAS conseguiu rastrear o aparelho e, a partir do número, quebrou o sigilo telefônico, chegando a 12 pessoas ligadas ao Morro da Providência — uma comunidade que, na época, era bastante influente no tráfico de drogas do centro do Rio.
Com essa descoberta, a investigação passou a se concentrar nessa quadrilha. Pela primeira vez, havia uma linha concreta sendo seguida: a possibilidade de que Priscila Belfort tivesse sido assassinada por traficantes do Morro da Providência. A partir daí, o foco da polícia se voltou completamente para tentar entender a possível relação entre essa quadrilha e o desaparecimento de Priscila.
É importante lembrar que os passos da polícia no caso Priscila Belfort era amplamente noticiado pelos jornais. A cobertura constante da imprensa mantinha o desaparecimento em evidência. Em um desses momentos de alta repercussão, surgiu um novo elemento que, à primeira vista, parecia decisivo: uma mulher identificada como Michele entrou em contato com a produção do programa de Gilberto Barros, afirmando ter participado do sequestro de Priscila.
UMA CONFISSÃO
A polícia imediatamente rastreou a ligação e prendeu Michele para prestar depoimento. Segundo ela, o sequestro teria ocorrido exatamente no local onde Priscila foi vista pela última vez. Michele contou que havia sido convencida a ajudar na captura da jovem por um primo de um homem chamado Gerinho. Ela teria abordado Priscila na rua e dito que o irmão dela estava em um carro nas proximidades, querendo falar com ela. Acreditando na história, Priscila teria entrado no veículo e naquele momento, foi sequestrada.
A Delegacia Antissequestro (DAS) então apresentou fotos a Michele para que identificasse quem seria o tal “Gerinho”. Sem hesitação, ela apontou para a mesma pessoa indicada anteriormente por Adilson Cutrim — a vítima do sequestro-relâmpago que havia denunciado um dos criminosos como responsável pela morte de Priscila. Com isso, a hipótese de que Priscila teria sido sequestrada e morta por uma quadrilha do Morro da Providência ganhou ainda mais força, tornando-se a principal linha de investigação da polícia.
OPERAÇÃO
Com o depoimento de Michele e a interceptação telefônica feita a partir do celular roubado de Adilson, a polícia deflagrou uma operação no Morro da Providência em busca dos envolvidos. Alguns criminosos foram presos, mas Gerinho e o chefe do tráfico na comunidade não foram encontrados naquele momento.
Um dos traficantes detidos prestou depoimento na DAS. Ele confirmou que conhecia Gerinho, mas negou qualquer envolvimento com o desaparecimento de Priscila. No entanto, forneceu uma informação relevante: disse que Gerinho já não estava mais no Morro da Providência. Isso indicava que o principal suspeito poderia estar foragido.
Posteriormente, o chefe do morro também foi preso, mas, assim como os demais, negou qualquer participação no desaparecimento ou conhecimento sobre o paradeiro de Priscila.
ELA MENTIU
Meses depois, no entanto, veio uma reviravolta inesperada. Foi descoberto que Michele havia mentido. De acordo com o apresentador Gilberto Barros, ela teria inventado toda a história porque estava apaixonada pelo delegado responsável pela investigação na época, Fernando Moraes. A mãe de Michele chegou a declarar que a filha estava em surto psicótico no período da confissão. A polícia, então, descartou oficialmente o depoimento de Michele.
Mas surgiu uma dúvida: como Michele sabia sobre Gerinho? A explicação é que, na época, Gerinho e outros membros da quadrilha já eram procurados por envolvimento em outros crimes e desaparecimentos. Michele apenas conectou informações públicas e montou uma narrativa fantasiosa.
Mesmo após essa mentira ser desmascarada, a DAS continuou tratando Gerinho como a principal linha de investigação. Isso porque o depoimento de Adilson Cutrim — vítima do sequestro-relâmpago — continuava sendo considerado verdadeiro e consistente pelas autoridades.
CORPO CARBONIZADO
Enquanto a Polícia Civil do Rio de Janeiro continuava focada na investigação sobre Gerinho, suspeito central no caso Priscila Belfort, as denúncias anônimas não paravam de chegar. Uma delas informava sobre um corpo carbonizado encontrado dentro de um carro incendiado em Cabo Frio, levantando a hipótese de que poderia ser Priscila. A polícia, mais uma vez, averiguou a situação. No entanto, como em tantas outras ocasiões, não se tratava da jovem desaparecida. Esses falsos alarmes se repetiam com frequência — e se tornavam uma nova ferida para a família Belfort, que vivia entre esperança e desilusão.
NA TELEVISÃO
O caso já havia ganhado repercussão nacional. A imagem de Priscila estampava capas de jornais diariamente, era assunto constante nas emissoras de televisão e programas de rádio. Mas, junto com a exposição, veio também o sensacionalismo. Muitos veículos de imprensa, buscando audiência, passaram a noticiar teorias sem qualquer embasamento, de maneira tendenciosa, muitas vezes desrespeitosa. Chegaram a sugerir que Priscila estaria envolvida com o tráfico de drogas, que teria um namorado traficante ou até mesmo que ela própria traficava e havia sido morta para pagar alguma dívida. Essas especulações não tinham provas, mas eram tratadas como possibilidades concretas nas manchetes, ampliando a dor da família, que precisava lidar não só com a ausência, mas também com o julgamento público.
E aqui já cabe um alerta, caro leitor: todas essas teorias, apesar de amplamente divulgadas, nunca foram comprovadas. Nenhuma prova sólida jamais ligou Priscila Belfort ao tráfico de drogas. A própria família sempre foi categórica em afirmar que a jovem não tinha qualquer envolvimento com o crime. Contudo, em um caso sem pistas concretas, tudo acabava sendo colocado em xeque, inclusive o caráter da vítima.
Essa abordagem da mídia e a condução da investigação, com o tempo, passaram a ser questionadas. A investigação foi, segundo relatos dos familiares, negligente. Em momento algum os investigadores buscaram entender quem era Priscila, com quem ela se relacionava, o que viveu nos meses que antecederam seu desaparecimento. Como bem pontuou Vitor Belfort, a polícia agradecia publicamente à DAS, mas ele próprio afirmou: “É muito mais fácil apontar para quem já é um bandido” — e foi exatamente isso que fizeram quando Gerinho se tornou o principal suspeito.
o gerinho
Após três anos e seis meses do desaparecimento de Priscila Belfort, a polícia recebeu uma informação de que Gerinho, o principal suspeito do caso, estaria escondido no Complexo do Alemão. No dia 27 de junho de 2007, uma megaoperação foi realizada no local com o objetivo de capturá-lo. A operação envolveu cerca de 1.300 policiais e se transformou em uma das mais marcantes da história recente do Rio de Janeiro. Houve intensos tiroteios e diversas vítimas fatais, entre elas, o próprio Gerinho.
A Divisão Antissequestro (DAS) afirmou na época que o objetivo da operação não era prender Gerinho especificamente, e que sua morte teria sido uma infeliz coincidência. No entanto, como ele era o principal suspeito do desaparecimento de Priscila, sua morte deixou a polícia e a família sem respostas. Fica a dúvida: Gerinho estava apenas blefando quando afirmou conhecer Priscila ao sequestrado Adilson Cutrim? Ou, de fato, teve envolvimento direto em sua morte? Essa pergunta, provavelmente, jamais será respondida.
OUTRA MULHER
Meses depois, uma nova reviravolta aconteceu. O Ministério Público de Niterói recebeu o depoimento de uma mulher chamada Elaine Paiva, de 27 anos, que afirmou ter participado do sequestro e assassinato de Priscila Belfort. Elaine relatou que a jovem teria sido sequestrada no centro do Rio por oito pessoas, por causa de uma dívida de R$ 9 mil com traficantes. Segundo ela, Priscila teria sido mantida em cativeiro por três meses no bairro Engenho do Roçado, em São Gonçalo.
Elaine disse que combinou um encontro com Priscila por volta das 13h, na Avenida Presidente Vargas. Priscila entrou em um Gol azul, e duas ruas depois, dois homens teriam embarcado no veículo, dando início ao sequestro. No cativeiro, segundo Elaine, Priscila chorava constantemente e pedia calmantes. Após os três meses, como o plano original teria sido abandonado, os sequestradores decidiram entre si o que fazer com ela. Elaine contou que seu comparsa, chamado Adriano, deu a ordem de execução porque Priscila teria visto seu rosto.
Com base em seu depoimento, a polícia deu início a buscas na região indicada e prendeu três suspeitos de envolvimento. Todos negaram qualquer participação no crime. Um ponto importante é que Gerinho não foi citado em nenhum momento nessa nova versão da história. Ou seja, essa nova linha de investigação não se conectava com a anterior, ainda que ambas buscassem respostas para o mesmo caso.
INCOÊRENCIAS
Um grande problema foi a falta de comunicação entre as polícias do Rio de Janeiro e de Niterói, já que a investigação sobre Elaine Paiva estava sendo conduzida por uma delegacia diferente da que cuidava do desaparecimento original. Isso comprometeu o cruzamento de informações importantes e a continuidade das investigações.
Outro ponto que minou a credibilidade do depoimento de Elaine foram as incoerências. Durante as buscas, ela se mostrava confusa, indicava lugares diferentes para a localização do corpo e, em certo momento, afirmou que não presenciou o enterro, pois teria sido mandada de volta ao carro e aguardado por cerca de uma hora. A inconsistência de suas declarações levantou dúvidas sobre a veracidade da confissão.
um crânio
Durante esse período, uma situação inusitada chamou a atenção: um motoqueiro apareceu dizendo que havia comprado um crânio de um catador de lixo no Engenho do Roçado, próximo às buscas, com a intenção de usá-lo como enfeite na moto. Ele disse que o crânio tinha uma perfuração e, acreditando que fosse real, acabou descartando o objeto. Ao ouvir a história de Elaine, passou a acreditar que o crânio pudesse ser de Priscila. No entanto, o suposto crânio nunca foi encontrado, não foi periciado, e esse episódio acabou não levando a nenhuma conclusão concreta.
Voltando à Elaine e às buscas pelos restos mortais de Priscila no terreno indicado por ela, nada foi encontrado, mesmo após vários dias de escavações. Com o passar do tempo, Elaine começou a mudar sua versão dos fatos e, em um novo depoimento, afirmou que não havia matado Priscila. Nenhuma prova foi encontrada, e seu depoimento passou a ser tratado como falso. Algumas pessoas acreditam que Elaine
sabia de algo, mas nada foi efetivamente comprovado. A Divisão Antissequestro (DAS), por sua vez, não deu muita atenção a essa linha de investigação, descartando rapidamente o possível envolvimento dela. A própria Elaine, tempos depois, retirou todas as acusações e negou novamente qualquer envolvimento. A partir desse ponto, a investigação estagnou.
OUTRA TEORIA
Outra hipótese que surgiu na época foi a de que Priscila poderia ter sido vítima de uma retaliação por causa do envolvimento de algum namorado, ou ex-namorado, com o tráfico de drogas. Vitor Belfort comentou que a família forneceu à polícia os nomes e contatos de todos os ex-namorados de Priscila que conheciam, e alguns chegaram a prestar depoimentos. No entanto, nada foi comprovado.
Mas… e o namorado de Priscila na época do desaparecimento, que mencionamos no início desta matéria? É sobre ele que vamos falar agora.
O NAMORADO
Segundo Vitor Belfort, esse namorado nunca foi considerado suspeito pela polícia, o que gera estranhamento. Joana Prado acredita que ninguém foi de fato investigado como deveria, enquanto Jovita Belfort defende que ainda há tempo para aprofundar certas investigações.
Além do fato de que esse namorado ligou para a família de um orelhão no dia do desaparecimento, algo incomum, outras atitudes dele chamaram atenção. Jovita conta que ele deu duas versões diferentes para o ocorrido. No início, ele disse à família e em depoimento à polícia que Priscila havia sido sequestrada. No entanto, meses depois, durante uma entrevista ao programa Linha Direta, ele afirmou que acreditava que Priscila tivesse fugido por vontade própria. Essa mudança repentina soou estranha para a família, especialmente para Jovita.
Ela também comentou que, nos dias que antecederam o desaparecimento, Priscila parecia distante, pensativa e infeliz no relacionamento, como se estivesse prestes a terminar tudo. Após o desaparecimento, a família foi chamada para depor, e quando Jovita chegou à delegacia, viu o namorado saindo acompanhado de advogados e de seu pai. Ele pertencia, segundo relatos, a uma família influente no Rio de Janeiro.
A polícia solicitou a quebra de sigilo telefônico de Priscila, de seus familiares e também do namorado. No entanto, a quebra da linha telefônica do namorado não foi feita. De acordo com a operadora, a própria polícia teria comunicado que não precisaria mais das informações daquela linha, o que levantou ainda mais suspeitas.
ALGO ESTRANHO
Logo após o desaparecimento, a polícia foi ao quarto de Priscila recolher pertences que pudessem ajudar na investigação. O ambiente ficou desorganizado, e algumas amigas da jovem decidiram ir até lá para arrumar. Foi quando perceberam algo estranho: o computador de Priscila continuava no quarto. Jovita, questionada, afirmou que os policiais tinham levado o notebook.
As amigas decidiram então verificar o aparelho, mas ele estava completamente apagado — nenhum arquivo, nenhuma informação, absolutamente nada. Quando perguntaram se mais alguém havia estado no quarto após o sumiço, Jovita se lembrou que o namorado de Priscila voltou lá pouco tempo depois para buscar um objeto pessoal. Joana Prado contou que estava presente nesse momento e que, ao entrar no quarto, ele se assustou e disse:
“Ela não disse que tomava remédios?”.
Joana achou esse comentário extremamente estranho.
Fazia sentido
Segundo a família, houve uma única denúncia que os marcou profundamente. Um dia, receberam uma ligação de alguém que descreveu com precisão a roupa que Priscila usava no dia do desaparecimento. A pessoa disse que viu a jovem embarcando em um ônibus com destino à Região dos Lagos, onde coincidentemente o namorado de Priscila tinha uma casa de praia.
A polícia então solicitou um mandado de busca para verificar essa casa. Contudo, antes da operação ser realizada, a polícia avisou o namorado e sua família. Vitor Belfort estranhou profundamente essa atitude, considerando-a uma falha grave e um sinal claro de negligência com essa linha de investigação.
Ainda de acordo com Jovita, uma semana após o desaparecimento de Priscila, o namorado dela simplesmente sumiu. Nunca mais telefonou para a família, não perguntou sobre as investigações e não participou de nenhum esforço para encontrá-la.
Outro comportamento que chamou a atenção de Jovita ocorreu algum tempo depois. Ela ligou para ele, pedindo as roupas de Priscila que ainda estavam com ele. Eles combinaram de se encontrar em um restaurante japonês para que ela pudesse pegar os pertences da filha. No entanto, quando chegou ao local, ele apareceu acompanhado do pai. Jovita achou essa atitude muito estranha e desconcertante, especialmente considerando o contexto.
uma década depois
Passados 15 anos do desaparecimento de Priscila Belfort, Jovita foi nomeada Superintendente Estadual das Pessoas Desaparecidas. Até hoje, o caso segue sem desfecho, mas a investigação continua aberta. E a esperança permanece: esperamos que um dia possamos finalmente saber o que, de fato, aconteceu com Priscila Belfort.
“A morte faz parte da vida. O desaparecimento, não", disse Jovita Belfort
Todas as informações presentes nesta matéria foram retiradas da série documental Volta, Priscila, disponível no Disney+. A produção conta com detalhes quem foi Priscila, sua história, os caminhos da investigação e outras teorias, incluindo uma hipótese levantada pela própria família, que não incluír aqui. Vale muito a pena assistir.