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Moléculas achadas em asteroide reforçam teoria que origem da vida na Terra veio do espaço

Análise de amostras do asteroide Ryugu identifica as nucleobases do DNA e do RNA e fortalece a tese de que compostos essenciais à vida vieram do espaço

Moléculas em asteroide mostram que bases do DNA e do RNA existem fora da Terra | Foto: AXA/Divulgação via REUTERS//Imagens Freepik
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Um asteroide que orbita o Sol há cerca de 4,6 bilhões de anos revelou conter, em suas rochas, os principais blocos moleculares que sustentam o código genético de toda a vida conhecida na Terra.

A descoberta foi feita a partir de amostras do asteroide Ryugu, coletadas entre 2018 e 2019 pela missão Hayabusa2, da agência japonesa JAXA, e trazidas à Terra em dezembro de 2020.

Os cientistas confirmaram a presença das cinco nucleobases, adenina, guanina, citosina, timina e uracila, moléculas que formam as “letras” do DNA e do RNA. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Astronomy na última segunda-feira (16).

Fragmentos do asteroide Ryugu vistos em microscópio - Foto: Jaxa/Jamstec

O que são as nucleobases

As nucleobases são moléculas orgânicas fundamentais para a vida. Elas compõem a estrutura do DNA e determinam as sequências responsáveis por armazenar e transmitir informações genéticas.

Quando combinadas com açúcares e fosfatos, formam os nucleotídeos, unidades básicas do material genético. Sem esses compostos, a vida como conhecemos não existiria.

Evidência de origem abiótica

O que torna a descoberta relevante é o fato de o Ryugu ser um corpo primitivo, formado nos primórdios do sistema solar e preservado quimicamente desde então.

A presença dessas moléculas em um material que nunca teve contato com a Terra indica que elas podem surgir de forma abiótica, ou seja, sem a participação de organismos vivos. Isso sugere que compostos essenciais à vida podem ter se formado no espaço e sido distribuídos por asteroides ao longo do tempo.

Segundo os autores do estudo, a identificação dessas substâncias reforça a hipótese de que asteroides ricos em carbono contribuíram para o “estoque químico” da Terra primitiva.

A detecção de nucleobases diversas em asteroides e meteoritos demonstra sua presença disseminada pelo sistema solar e reforça a hipótese de que asteroides carbonáceos [ricos em carbono e compostos orgânicos] contribuíram para o inventário químico pré-biótico da Terra primitiva.

O que a descoberta NÃO afirma

Apesar da relevância, o estudo não conclui que a vida surgiu fora da Terra.

A principal implicação é que os ingredientes básicos da vida podem ter sido entregues ao planeta por corpos celestes antes do surgimento dos primeiros organismos, fortalecendo uma hipótese investigada há décadas pela comunidade científica.

Ilustração mostra as cinco bases nucleicas (A, G, C, T e U) identificadas nas amostras do asteroide Ryugu - Foto: JAMSTEC

Os pesquisadores analisaram dois fragmentos do Ryugu com rigoroso controle de contaminação, utilizando técnicas avançadas capazes de identificar moléculas em quantidades mínimas.

Os resultados foram comparados com amostras do asteroide Bennu, coletadas pela missão OSIRIS-REx, da NASA, além de meteoritos que caíram na Terra: o Murchison e o Orgueil.

Cada um apresentou composições distintas. No Ryugu, há equilíbrio entre purinas (adenina e guanina) e pirimidinas (citosina, timina e uracila). Já outros corpos apresentam variações, possivelmente ligadas às condições químicas durante sua formação.

Pistas sobre o sistema solar primitivo

Estudos anteriores já haviam identificado, nas amostras do Ryugu, sinais de água líquida no passado, além de aminoácidos e outras moléculas orgânicas complexas. Agora, com a confirmação das cinco nucleobases, os cientistas avançam na compreensão do conjunto de ingredientes necessários para o surgimento da vida.

Em 2025, análises de amostras de Bennu também detectaram as mesmas cinco nucleobases, indicando que esses compostos podem estar amplamente distribuídos pelo sistema solar.

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