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Raposa-voadora: conheça o morcego 'gigante' ligado ao vírus Nipah e entenda os riscos para o Brasil

Especialistas descartam chegada do vírus pela fauna silvestre brasileira; entenda as razões e os verdadeiros riscos.

Raposa-voadora da espécie Pteropus poliocephalus | Foto: Aquaoz / iNaturalist
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O recente surto do vírus Nipah na Índia e em Bangladesh reacendeu a atenção de autoridades sanitárias e da comunidade científica para a raposa-voadora, espécie frequentemente associada à circulação do vírus. Apesar do destaque recente, especialistas reforçam que esses animais possuem características biológicas e geográficas muito específicas, o que afasta o risco de transmissão direta para o Brasil por meio da fauna silvestre.

Características das raposas-voadoras

Segundo especialistas, as raposas-voadoras pertencem ao gênero Pteropus e apresentam diferenças significativas em relação aos morcegos encontrados no Brasil, tanto do ponto de vista evolutivo quanto comportamental. Ao contrário das espécies brasileiras, esses animais não utilizam a ecolocalização como principal forma de orientação, guiando-se predominantemente pela visão. Com olhos grandes, possuem comportamento crepuscular e podem ser observados em atividade mesmo com a presença de luz solar.

As raposas-voadoras estão entre os maiores morcegos do mundo. Algumas espécies, como o Pteropus vampyrus, podem ultrapassar 1,80 metro de envergadura. Outro aspecto destacado é a presença de uma unha no dedo indicador, considerada uma característica ancestral, enquanto os demais morcegos possuem unhas apenas nos polegares.

A alimentação das raposas-voadoras é composta majoritariamente por frutos, néctar e pólen, não representando risco direto aos seres humanos. Problemas associados a esses animais tendem a surgir quando há degradação ambiental e invasão de seus habitats naturais.

Distribuição geográfica e risco para o Brasil

Segundo especialistas, não existem raposas-voadoras nem outros representantes da família dos pteropodídeos no Brasil ou nas Américas. Essas espécies estão restritas a regiões do Sudeste Asiático, Oceania, Madagascar e partes da África. Os oceanos Atlântico e Pacífico funcionam como barreiras geográficas naturais, impedindo qualquer deslocamento desses animais até o território brasileiro.

Do ponto de vista evolutivo, a linhagem das raposas-voadoras se separou dos morcegos das Américas há mais de 40 milhões de anos, o que resultou em diferenças significativas de anatomia, fisiologia e metabolismo.

Possibilidade de transmissão de vírus

De acordo com pesquisas, é muito remota a possibilidade de transmissão do vírus Nipah para a fauna silvestre brasileira. A transmissão de vírus de humanos para morcegos exige condições extremamente específicas e complexas, além de não haver evidências científicas de que o Nipah seja capaz de infectar espécies nativas do Brasil.

Nesse contexto, o foco da vigilância sanitária permanece na transmissão entre humanos, que exige medidas de isolamento e monitoramento clínico, e não no controle da fauna silvestre.

O vírus Nipah é patógeno com alto índice de letalidade — Foto: Universal Images Group/Getty Images

Sistema imunológico e resistência a patógenos

A capacidade das raposas-voadoras de carregar vírus potencialmente perigosos sem desenvolver doenças está relacionada ao voo, que exige um metabolismo altamente acelerado e eleva a temperatura corporal. Essa condição favoreceu, ao longo da evolução, a seleção de vírus mais resistentes ao calor.

Para evitar danos celulares, esses animais desenvolveram um sistema imunológico eficiente, capaz de controlar inflamações excessivas, manter altas concentrações de interferons e reparar rapidamente danos no DNA causados pelo estresse metabólico.

Importância ambiental dos morcegos

Dados reforçam que os morcegos não devem ser tratados como vilões. Os vírus sempre existiram na natureza, e o aumento do risco de transmissão está relacionado principalmente à degradação ambiental e ao desmatamento, que aproximam animais silvestres das áreas urbanas.

Além disso, os morcegos desempenham funções ambientais essenciais, como a dispersão de sementes, a polinização de plantas e o controle de pragas agrícolas. A redução dessas populações pode gerar impactos negativos para os ecossistemas e para a saúde humana.

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