
Representantes da indústria de vinhos e destilados da França manifestaram preocupação após o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que poderia elevar para 200% as tarifas de importação sobre esses produtos. A medida seria uma retaliação à decisão da União Europeia de tributar em 50% o whisky americano. O impasse gerou apreensão entre produtores franceses, que pedem que Bruxelas direcione a tributação para outros setores da economia norte-americana, como o de tecnologia, a fim de evitar impactos severos no mercado europeu.
O diretor da Federação Francesa de Exportadores de Vinhos e Bebidas Alcoólicas (FEVS), Nicolas Ozanam, alertou que, caso a tarifa seja implementada, o comércio será fortemente afetado. “Com uma alíquota de 200%, os negócios simplesmente param”, afirmou. Segundo ele, isso triplicaria o preço final das garrafas exportadas para os Estados Unidos, tornando inviável a comercialização.
Impacto no mercado e temor de prejuízos
A possível elevação das tarifas norte-americanas preocupa produtores franceses, especialmente os que têm os Estados Unidos como um dos principais mercados. O empresário Charles Fourny, proprietário da marca de champanhe Veuve Fourny, destacou que cerca de 20% das vendas de sua empresa são destinadas aos EUA. “É difícil acreditar nessa ameaça. Seria como impedir a venda de champanhe no mercado americano”, disse em entrevista à rádio Franceinfo.
O setor estima que, caso as tarifas sejam confirmadas, os prejuízos possam chegar a € 4 bilhões, impactando aproximadamente 600 mil empregos diretos e indiretos. O presidente da FEVS, Gabriel Picard, classificou a taxação como um "golpe colossal" e criticou tanto Trump quanto a Comissão Europeia pela escalada da disputa comercial. Ele sugeriu que a União Europeia reavalie a decisão e concentre a tributação em outros segmentos, como o de tecnologia.
A França tem uma posição de destaque nas exportações de bebidas alcoólicas para os Estados Unidos, sendo responsável por aproximadamente metade das vendas do setor europeu para o país. Em 2024, as regiões de Champagne, Cognac e Bordeaux exportaram € 3,9 bilhões em vinhos e destilados para o mercado norte-americano, o que representa cerca de 25% do total exportado pelo setor.
Reações políticas e busca por soluções
O governo francês se manifestou contra as ameaças tarifárias e defendeu a postura da União Europeia. O primeiro-ministro francês, François Bayrou, afirmou que a Europa não deve ceder a pressões externas. “Não podemos nos deixar intimidar por esse tipo de ameaça”, declarou durante um evento em Lyon.
O ministro do Comércio Exterior da França, Laurent Saint-Martin, reforçou que a União Europeia não deseja uma guerra comercial, mas não aceitará imposições unilaterais. “Nossa intenção nunca foi aumentar tarifas alfandegárias, mas a Europa precisa proteger seus interesses”, disse em entrevista à BFMTV. Ele defendeu o diálogo como caminho para evitar que a disputa comprometa as exportações europeias.
Atualmente, as tarifas norte-americanas sobre o vinho francês são relativamente baixas, em torno de 10 centavos de euro por litro. Já as bebidas destiladas são isentas de taxas desde 1997, quando um acordo transatlântico foi firmado. Esse entendimento favoreceu o crescimento das exportações até 2018, quando medidas protecionistas do governo Trump impactaram o comércio internacional.
Além das disputas com os EUA, o setor de destilados europeu enfrenta desafios no mercado chinês, que impôs novas tarifas sobre bebidas importadas, resultando em uma queda de 25% nas exportações de conhaque e armagnac para China, Hong Kong e Cingapura.
Consequências para o setor
Especialistas do setor apontam que, se as tarifas norte-americanas forem elevadas, os produtos franceses podem perder competitividade no mercado internacional. Vitalie Taittinger, presidente da tradicional casa de champanhe Taittinger, exemplificou que uma garrafa vendida hoje por cerca de US$ 60 nos Estados Unidos poderia ultrapassar US$ 180 com a nova taxação, tornando o produto inacessível para muitos consumidores.
Desde seu retorno à política, Donald Trump tem defendido a aplicação de tarifas sobre diversos setores como estratégia para fortalecer a economia dos Estados Unidos. O setor vinícola e de destilados segue acompanhando as negociações e buscando alternativas para mitigar os impactos de uma possível guerra comercial.