No interior do Piauí, a terra do município de União a cerca de 60 quilômetros de Teresina, não faz brotar apenas macaxeira, milho, melancia e feijão. Dela, floresce também uma rede inspiradora de autonomia, liderada por sete mulheres do Assentamento Santa Maria.
O que antes era rotina restrita à agricultura familiar e aos cuidados com a casa, hoje se consolidou como um exemplo vivo de empreendedorismo rural, mostrando que o protagonismo feminino é a chave para o desenvolvimento comunitário e a geração de renda.
Liderando desde a organização das atividades produtivas até a etapa final de comercialização, essas mulheres não se limitam a vender o que colhem. Elas transformam, agregam valor e multiplicam possibilidades. O milho vira bolo e mingau; a macaxeira se desdobra em beiju, farinha e goma; e a forte tradição regional do babaçu é engarrafada na forma de azeite e óleo artesanais.
Produtos feitos pelo grupo de mulheres do Assentamento Santa Maria em União
Segundo Elisane Machado da Silva, a história do grupo começou a partir de cursos de capacitação que aproximaram mulheres que já conviviam na comunidade.
“Éramos mulheres que já nos conhecíamos e éramos próximas. Através de um curso de culinária à base de milho e macaxeira estreitamos os laços e passamos a nos profissionalizar juntas. Depois participamos do curso Mulheres em Campo e realizamos a primeira Feira das Mulheres em Campo. Desde então formamos um grupo de sete mulheres que realiza uma feira anual, participa de projetos e está sempre buscando capacitação”, conta.
Trabalho, união e geração de renda
A rotina é intensa. Antes mesmo do trabalho produtivo, há uma série de responsabilidades domésticas que fazem parte do cotidiano das agricultoras. Ainda assim, elas encontraram formas de se organizar, compartilhar experiências e manter vivo o espírito de cooperação.
“Nosso dia a dia é corrido. As atividades domésticas geralmente são realizadas pela manhã e, quando precisamos nos reunir, buscamos o horário da tarde. Também temos nosso grupo de WhatsApp, onde conversamos todos os dias e trocamos experiências”, relata Maria do Amparo da Silva Santos.
Cada produto carrega uma história de luta, coragem e esperança. No campo, essas mulheres cultivam alimentos, autonomia e um futuro melhor para suas famílias - Foto: Arquivo Pessoal/MeioNews
O empreendedorismo desenvolvido no assentamento extrapolou os limites da agricultura. Além da produção rural, algumas integrantes atuam na venda de cosméticos, salgados e pastéis. Maria do Amparo administra um pequeno bar na comunidade e Elisane coordena um time de futebol, fortalecendo os laços sociais e ampliando as oportunidades de geração de renda.
O resultado desse trabalho coletivo também chega às escolas do município. Parte da produção é comercializada para a merenda escolar, garantindo mercado para os alimentos produzidos no assentamento e contribuindo para a segurança alimentar dos estudantes.
“A venda para a merenda escolar foi muito importante para a geração de renda. Melhorou a qualidade de vida das famílias, ajudou nas despesas domésticas e possibilitou a compra de móveis, eletrodomésticos e até motos. Além disso, temos a garantia de que nossas crianças estão consumindo um alimento mais seguro e saudável”, destaca Elisane.
A experiência demonstra como pequenos negócios podem transformar realidades. Com planejamento, organização e persistência, a agricultura familiar passou a ser fonte de renda regular para diversas famílias da comunidade.
Entre a força das mãos e a grandeza dos sonhos, mulheres do Assentamento Santa Maria transformam trabalho, união e conhecimento em oportunidades para toda a comunidade - Foto: Arquivo Pessoal/MeioNews
Sonhos que seguem crescendo
O sucesso da iniciativa não diminuiu a vontade de avançar. Pelo contrário. O grupo já projeta novos passos para ampliar a atuação e consolidar os negócios.
“Sonhamos com uma vida melhor e mais digna para nossas famílias. Queremos formalizar nosso grupo, ganhar mais espaço e visibilidade e lançar nossa própria produção de pimenta em conserva, além de outros produtos”, afirma Maria do Amparo.
Para ela, uma das maiores conquistas proporcionadas pelo empreendedorismo foi a descoberta da própria capacidade de realizar.
“Esse trabalho representa a certeza de que somos capazes de empreender, conquistar nossa liberdade financeira e ter nossa própria renda.”
A mensagem que elas deixam para outras mulheres do interior do Piauí é simples e poderosa.
“Qualquer mulher é capaz de conquistar sua independência financeira e criar o seu próprio negócio. Não existe idade para começar. O importante é ter interesse, buscar conhecimento e acreditar que é possível”, reforça Elisane.
No Assentamento Santa Maria, o exemplo dessas sete mulheres mostra que o empreendedorismo não nasce apenas de grandes investimentos. Muitas vezes, ele começa com conhecimento, cooperação e coragem para transformar aquilo que já se sabe fazer em oportunidade de crescimento para toda uma comunidade.
Mulheres que cultivam muito mais do que alimentos: cultivam oportunidades
O papel do Sebrae no fortalecimento do empreendedorismo feminino rural
O sucesso das agricultoras do Assentamento Santa Maria ilustra perfeitamente o impacto do empreendedorismo feminino sustentável. Para a analista do Sebrae no Piauí, Marianne de Sousa, quando a mulher rural empreende, a transformação transcende o negócio e atinge toda a comunidade, criando redes de apoio essenciais.
Segundo Marianne, a renda gerada pelos negócios liderados por mulheres tende a permanecer na própria localidade, movimentando o comércio, fortalecendo a produção e melhorando a qualidade de vida das famílias.
“As mulheres costumam atuar de forma colaborativa, criando redes de apoio e fortalecendo a organização comunitária. Quando a mulher empreende, ela não transforma apenas o próprio negócio, mas gera desenvolvimento social e econômico para toda a comunidade”, destaca.
Para que as mulheres do campo consigam crescer, ampliar mercados e tornar seus negócios sustentáveis, o Sebrae orienta que a produção seja enxergada sob uma ótica empresarial. As principais diretrizes e apoios incluem:
Capacitação em Gestão Estratégica: Foco no controle financeiro, formação de preços adequados e planejamento a longo prazo.
Posicionamento de Mercado: Criação de identidade visual e desenvolvimento de embalagens que valorizem o produto artesanal e agrícola.
Organização Coletiva: O trabalho em grupo é estimulado para fortalecer a capacidade produtiva e facilitar a participação em feiras, programas institucionais (como a merenda escolar) e novos canais de venda.
Formalização: Passo fundamental para permitir o acesso a linhas de crédito, políticas públicas e mercados mais estruturados.
Como conclui a analista, o trabalho contínuo de qualificação garante que o esforço rural deixe de ser apenas sobrevivência para se tornar, de fato, um negócio duradouro. "Essas iniciativas mostram que, quando a mulher empreende, ela não transforma apenas o próprio negócio, mas gera desenvolvimento social e econômico para toda a comunidade", finaliza Marianne.
