Francy Teixeira, direto de Brasília (DF).
O debate sobre o futuro da educação brasileira ganhou destaque nesta semana durante o Seminário Internacional de Gestão Educacional: Desafios e Perspectivas para a Garantia do Direito à Educação, realizado pelo Ministério da Educação em parceria com o Instituto Unibanco. A cobertura do evento, acompanhada pelo Meio News, evidencia um consenso entre especialistas e gestores: a gestão integrada e baseada em dados é hoje um dos principais motores de transformação da educação pública no país — e o Piauí surge como um dos exemplos concretos desse avanço.
O encontro ocorre em um momento estratégico para o setor, marcado pela implementação do Sistema Nacional de Educação (SNE), pela aprovação do novo Plano Nacional de Educação (PNE) e pela entrada em vigor do novo ciclo do Plano de Ações Articuladas (PAR). A proposta é clara: alinhar políticas, fortalecer a cooperação entre União, estados e municípios e garantir educação com qualidade e equidade.
Mesa redonda discutiu a complexidade da gestão educacional em sistemas federativos (Foto: Instituto Unibanco)
GESTÃO COMO EIXO CENTRAL
Na abertura do evento, a secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt, reforçou que não há política pública eficaz sem construção coletiva. Segundo ela, o sucesso da educação depende diretamente da articulação entre os diferentes níveis de governo.
“A educação básica acontece no chão da escola. Por isso, a gestão precisa ser feita em diálogo com quem executa a política na ponta”, destacou.
O seminário reúne gestores públicos, especialistas e instituições para discutir temas como gestão escolar, transformação digital, coordenação federativa e fortalecimento de capacidades institucionais. A proposta é transformar a gestão educacional em uma ferramenta prática para garantir aprendizagem.
PIAUÍ: UM CASO DE TRANSFORMAÇÃO
Entre os exemplos debatidos, o Piauí se destaca como um estado que vem consolidando resultados a partir de uma gestão estruturada, baseada em evidências e orientada para resultados.
Segundo Marcelo Lema Del Rio, coordenador de implementação de políticas públicas do Instituto Unibanco no estado, o avanço não ocorre por acaso.
“A construção de políticas públicas eficazes passa por decisões estruturadas e por um olhar técnico. Muitas vezes, a secretaria não tem toda a capacidade instalada, e é aí que entra o apoio para organizar essa gestão”, explica.
A metodologia aplicada parte de um diagnóstico detalhado da rede e utiliza ferramentas de gestão como o ciclo PDCA (planejamento, execução e avaliação) para atacar problemas concretos.
“É olhar para os dados, identificar onde estão os estudantes fora da escola e agir diretamente nesses pontos para garantir acesso, permanência e aprendizagem”, afirma.
Marcelo Lema fala sobre os avanços observados no Piauí (Foto: Reprodução)
RESULTADOS CONCRETOS
Os impactos dessa estratégia já aparecem nos indicadores educacionais. O estado apresenta melhoria contínua em avaliações externas, especialmente em língua portuguesa e matemática, além de avanços na inclusão de estudantes.
Outro marco é a universalização do ensino médio em tempo integral.
“Hoje, todas as escolas de ensino médio do Piauí são de tempo integral. Isso amplia o tempo na escola, mas, principalmente, qualifica esse tempo com foco na aprendizagem”, destaca Marcelo.
Além da ampliação da jornada, a rede estadual incorporou disciplinas como inteligência artificial e educação profissional, conectando a formação escolar às demandas do mundo do trabalho.
PARCERIA ESTRATÉGICA
Grande parte desse avanço está ligada à parceria entre o Governo do Estado e o Instituto Unibanco, iniciada em 2012 e fortalecida a partir de 2015 com o programa Jovem de Futuro.
A iniciativa atua como uma tecnologia de gestão educacional, oferecendo suporte técnico, ferramentas de monitoramento e formação continuada para gestores escolares.
Estruturado em cinco eixos — governança, assessoria técnica, formação, mobilização e gestão do conhecimento —, o programa organiza as ações por meio do chamado Circuito de Gestão, que orienta decisões com base em dados.
“Hoje temos uma equipe dedicada atuando diretamente com o estado, pactuando prioridades e garantindo a execução do plano de ação”, explica Marcelo.
Os acordos são formalizados por meio de termos de cooperação com duração de dois a três anos, com avaliação e repactuação periódicas.
DA FALTA DE VAGAS À QUALIFICAÇÃO
A evolução da política educacional no Piauí também reflete a mudança de prioridades ao longo do tempo.
“Em 2012, o principal desafio era garantir vagas. Hoje, esse problema foi superado e o foco está na qualidade e na recomposição das aprendizagens”, afirma o coordenador.
Esse movimento acompanha uma tendência nacional: à medida que o acesso é ampliado, cresce a necessidade de qualificar o ensino e melhorar os resultados de aprendizagem.
A TRANSFORMAÇÃO NA PRÁTICA
Nas escolas, os efeitos da gestão integrada são percebidos no dia a dia. O diretor Gleidson de Oliveira, do CETI Letícia Macedo, em Anísio de Abreu, relata que o programa ajudou a organizar processos e combater a evasão escolar.
Escola do Piauí comemora os resultados obtidos com a gestão integrada (Foto: Divulgação)
“O Jovem de Futuro nos ajuda a manter o planejamento ao longo de todo o ano. Sem essa organização, seria muito mais difícil executar as ações”, afirma.
Após a pandemia, a escola enfrentava altos índices de abandono. Com estratégias de escuta ativa e ações criativas — como a vinculação da participação em atividades esportivas à matrícula escolar —, foi possível reverter o cenário.
O resultado foi uma transformação significativa: aumento da presença dos alunos, melhoria no desempenho e até aprovações em cursos concorridos, como medicina.