CIÊNCIA

Dos vestígios da Serra da Capivara à inteligência artificial: a ciência piauiense que ajuda a reescrever a história do calazar

Quatro décadas após a epidemia que aterrorizou o Piauí, pesquisadores utilizam inteligência artificial, Saúde Única e novas tecnologias para salvar vidas e aposentar práticas do passado.

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A leishmaniose visceral é uma epidemia que se renova no Piauí ao longo das décadas. | Foto: José Alves Filho/Reprodução O Estado

Quando a arqueóloga Niède Guidon chegou ao sudeste do Piauí, na década de 1970, poucos imaginavam que aquelas formações rochosas escondiam algumas das evidências científicas mais importantes do planeta.

Na região que mais tarde se tornaria o Parque Nacional da Serra da Capivara, ela encontrou vestígios capazes de desafiar teorias consolidadas sobre a ocupação humana das Américas. Mas a maior lição deixada por Niède talvez não esteja apenas nas descobertas arqueológicas. Está no método, na capacidade de observar aquilo que ninguém via, de identificar sinais aparentemente invisíveis, de transformar pequenos indícios em grandes respostas.

Décadas depois, essa mesma lógica continua guiando pesquisadores piauienses. Agora, porém, os vestígios não estão gravados em paredões de arenito. Estão escondidos em imagens microscópicas, os fragmentos arqueológicos deram lugar a parasitos invisíveis a olho nu. E o desafio científico já não é descobrir como viviam os primeiros habitantes do continente, e salvar vidas ameaçadas por uma das doenças tropicais negligenciadas mais letais do Brasil: a leishmaniose visceral, popularmente conhecida como calazar.

O infectologista Carlos Henrique Nery Costa acumula mais de quatro décadas de pesquisa sobre a leishmaniose 

Entre os laboratórios da Universidade Federal do Piauí, os pesquisadores do Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN) e as iniciativas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), uma nova revolução científica está em andamento: ela combina medicina, computação, inteligência artificial, epidemiologia, saúde pública e inovação tecnológica e pode mudar para sempre a forma como o Piauí enfrenta uma doença que marcou gerações.


O FANTASMA DE 1984

Manchete do extinto jornal 'O Estado' em outubro de 1984 dá a tônica do pavor do Piauí com a doença na década de 80 (Foto: MeioNews/Arquivo Público/Jornal O Estado)

Poucas enfermidades deixaram marcas tão profundas na memória coletiva dos piauienses quanto o calazar. Em outubro de 1984, o extinto jornal O Estado estampava uma manchete que sintetizava o medo vivido pela população:

"Mal de Calazar faz 20 vítimas".

O Piauí atravessava então o auge de uma epidemia iniciada em 1980. Segundo dados da antiga Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), vinculada ao Ministério da Saúde, o estado registrou 1.509 casos durante aquele período. Mais de 60% ocorreram em Teresina. A capital experimentava uma transformação urbana acelerada. Com crescimento populacional anual de aproximadamente 6,5%, recebia milhares de famílias que fugiam da seca e da falta de oportunidades no interior. Essas pessoas se concentravam principalmente nas periferias das zonas Sul e Nordeste. Muitas viviam em áreas sem saneamento básico, com coleta de lixo precária, moradias improvisadas e escassez de serviços públicos. Era o ambiente perfeito para a proliferação do mosquito-palha.

Enquanto os jornais registravam diariamente o drama dos chamados "flagelados da seca", uma tragédia sanitária avançava silenciosamente.

Pessoas em situação de vulnerabilidade, com a expansão desenfreada, e falta de saneamento, dominavam o noticiário do Piauí na década de 80 (Foto: Francy Teixeira/Arquivo Público/Jornal O Estado)

O infectologista Carlos Henrique Nery Costa, hoje uma das maiores autoridades mundiais em leishmaniose visceral, já observava naquela época a relação direta entre vulnerabilidade social e disseminação da doença.

Quatro décadas depois, suas análises continuam atuais.

Locais onde se armazena lixo orgânico abandonado favorecem a proliferação dos vetores. (...) Populações pobres e desnutridas estão mais sujeitas.


O PASSADO QUE INSISTE EM RETORNAR

Embora a grande epidemia tenha ficado para trás, a doença nunca desapareceu, pelo contrário, dados recentes mostram que a leishmaniose continua sendo um dos maiores desafios sanitários do estado.

Entre 2008 e 2018 foram registrados 3.783 novos casos no Piauí. Ao analisar a carga das doenças tropicais negligenciadas no estado entre 2008 e 2017, pesquisadores verificaram que as leishmanioses ocupam a primeira posição, à frente de enfermidades amplamente conhecidas pela população, como dengue e doença de Chagas.

Em meio ao acúmulo de lixo em Teresina com a crise da limpeza, animais buscam alimentos nos sacos com os resíduos despejados nas ruas da capital do Piauí (Foto: José Alves Filho/MeioNews)

O cenário preocupa especialistas.

A pesquisadora da Universidade Federal do Piauí e referência nacional em leishmaniose visceral canina, Socorro Pires, alerta que o problema continua longe de ser resolvido.

"Atualmente, o cenário da leishmaniose visceral no Piauí ainda é motivo de preocupação. (...) Teresina é o único município do Piauí classificado como de risco intenso para leishmaniose visceral, enquanto o estado, como um todo, é considerado de alto risco."

Referência na área, a médica veterinária Socorro Pires, atua em pesquisas sobre a leishmaniose no meio norte do Brasil (Foto: Universidade Federal do Piauí)

Segundo ela, a urbanização da doença se consolidou nas últimas décadas. O mosquito deixou de ser um problema exclusivamente rural. Passou a circular também em áreas urbanas e periurbanas.

"A urbanização da doença está diretamente ligada ao modo como o território vem sendo ocupado. (...) Quintais com muita matéria orgânica, criação de cães e galinhas próximos às moradias e saneamento básico precário são fatores decisivos."

A análise encontra respaldo em indicadores nacionais: dados do Instituto Trata Brasil apontam que menos da metade da população de Teresina possui cobertura de esgotamento sanitário, enquanto apenas uma pequena parcela do esgoto coletado recebe tratamento adequado.


O TEMPO EM QUE A RESPOSTA ERA ELIMINAR

Reportagens do jornal O Estado, datadas de 1984, destacam o drama do calazar em Teresina. 1984 foi o ano com mais registros de casos na epidemia (Foto: Francy Teixeira/Arquivo Público/Jornal O Estado)

Se hoje a ciência trabalha para preservar vidas humanas e animais, nem sempre foi assim. Durante os anos mais críticos da epidemia, a política pública de combate ao calazar tinha como principal estratégia a eliminação dos cães considerados positivos. Em abril de 1984, o então diretor da Sucam no Piauí, Maurílio Araújo, defendia a medida de forma categórica:

Os chamados cães reativos, isto é, que se encontram contaminados, como é comprovado através de exames laboratoriais realizados na Universidade Federal do Piauí, têm que ser eliminados, porque esta é a única maneira de erradicar a fonte natural do calazar.

A declaração refletia o pensamento científico predominante naquele período. Entre janeiro de 1983 e março de 1984, cerca de 4.500 cães foram sacrificados. Para milhares de famílias teresinenses, o diagnóstico positivo representava a perda inevitável do animal. A estratégia era complementada pelo uso intensivo dos famosos carros fumacê. Os veículos espalhavam inseticidas em diversos bairros da cidade.

Embora ajudassem a reduzir a população de vetores, também produziam efeitos colaterais significativos sobre o meio ambiente. A médica-veterinária Raíssa Protetora recorda esse período.

Décadas atrás, se usava muito o carro fumacê, que amenizava um pouco mais a situação, mas também aquela fumaça acabava matando, dizimando outras espécies, como as abelhas. Hoje em dia, já existem produtos que são voltados unicamente para o mosquito-palha, que é o mosquito transmissor da doença.


A CIÊNCIA MUDOU O OLHAR SOBRE OS CÃES

Uma das maiores transformações produzidas pela pesquisa científica foi justamente desconstruir a ideia de que o cão era o grande vilão da doença. Hoje, os especialistas são unânimes. O responsável pela transmissão é o mosquito-palha.

Sem o vetor, não há transmissão. A médica-veterinária Andrezza Braga reforça:

"Humanos e animais compartilham o mesmo vetor da doença e, por vezes, essa enfermidade torna-se negligenciada."

Ela também chama atenção para os sinais clínicos.

Entre os sinais dermatológicos, têm-se queda de pelos, descamação, feridas ou úlceras e crescimento das unhas. (...) O diagnóstico precoce possibilita resultados mais satisfatórios quanto à saúde pública.

Essa mudança de entendimento alterou profundamente as estratégias de enfrentamento.

Hoje, coleiras impregnadas com inseticidas, monitoramento veterinário, testagens periódicas e tratamentos específicos fazem parte da rotina de controle da doença.

Carlos Henrique Nery Costa destaca:

"O uso de coleiras impregnadas com inseticidas nos cães domésticos."

Segundo ele, trata-se da medida preventiva mais eficaz atualmente disponível.


UMA HISTÓRIA QUE DESMONTA DÉCADAS DE PRECONCEITO

Poucos relatos ilustram melhor essa mudança do que o da arquiteta Jaqueline Inagda. Ao longo dos anos, três de seus cães receberam diagnóstico positivo para leishmaniose. Em outra época, isso significaria praticamente uma sentença de morte. Mas a experiência foi diferente.

"Nós descobrimos por causa dos sinais da doença, como o aparecimento de feridas na pele e no focinho."

Ela conta que o conhecimento prévio sobre a doença evitou o desespero.

"Sabíamos que existia tratamento e que eles poderiam viver bem com a doença."

Dois dos animais morreram muitos anos depois. Ambos já idosos. Nenhum em decorrência da leishmaniose.

Claro que ninguém fica feliz ao receber um diagnóstico assim, mas também não foi algo que nos deixasse preocupados ou ansiosos, porque já tínhamos noção de como lidar com isso.

A tutora lembra que os cuidados nunca precisaram ser extraordinários.

Em relação à casa e à nossa rotina, nada mudou, nem para nós nem para eles. Apenas seguimos o tratamento com a medicação.

Hoje, um dos cães continua vivo. Levando uma vida normal.

Como descobrimos a doença muito cedo — todos eles pegaram ainda filhotes, afinal, é uma doença endêmica na região —, acabou se tornando parte da realidade de ter cachorro aqui.

O relato confronta diretamente décadas de medo, preconceito e desinformação.

Os cachorros eram sacrificados, mas hoje é possível conviver com qualidade de vida e sem risco de transmissão para humanos, desde que o tratamento seja feito de forma adequada.


O PESO DA DESINFORMAÇÃO

A médica-veterinária Raíssa Protetora lidera um trabalho de acolhimento de animais em situação de rua e relata os inúmeros casos de animais com leishmaniose visceral (Foto: Reprodução)

Mesmo com todos os avanços científicos, os estigmas persistem. Raíssa Protetora relata situações que ainda chocam.

Já ouvimos falar de tutores que mandam eutanasiar seus animais ou que eles próprios matam os animais de forma cruel.

Segundo ela, muitos desses episódios têm origem em informações ultrapassadas. A ativista afirma ter acompanhado situações em que tutores foram pressionados a entregar seus animais.

"Já vi isso acontecer e reclamei ao gerente de zoonoses. São situações absurdas e inverídicas."

Para Raíssa, a informação continua sendo a principal ferramenta de enfrentamento.

"Leishmaniose tem tratamento. (...) Fazendo o tratamento correto, a carga parasitária diminui até chegar a zero."

Ela também relaciona diretamente o avanço da doença às condições urbanas.

"A gente não vê atuação do poder público em cima disso. Teresina está suja, cheia de esgotos. É exatamente isso que faz a proliferação dos mosquitos."

Raíssa Protetora luta para que a informação sobre a leishmaniose visceral seja amplificada e que os estigmas sejam quebrados (Foto: Reprodução)


A CORRIDA CONTRA O TEMPO

Se o diagnóstico precoce é importante para os animais, para os seres humanos ele pode representar a diferença entre a vida e a morte.

Carlos Henrique Nery Costa é enfático.

"É muito importante que os pacientes sejam diagnosticados precocemente. Não é difícil diagnosticar o calazar, porque é uma doença febril. (...) Febre contínua, palidez e perda de peso são sinais clássicos. O baço aumentado é facílimo de ser detectado."

O especialista lembra que os testes rápidos estão disponíveis.

"É uma doença séria. Portanto, o paciente deve ser encaminhado para um serviço de saúde, e o médico deve elaborar um diagnóstico. Se ele suspeitar de calazar, faz um teste rápido, que é realizado em 10 a 15 minutos."

Ele alerta que a demora pode ser fatal.

"Mas, de qualquer forma, se ele detectar uma febre prolongada e aumento do baço, já deve encaminhar imediatamente para o serviço de referência, porque não é uma doença qualquer."

A gravidade fica evidente na história do chef de cozinha Micael Morais, morto aos 30 anos após complicações associadas à leishmaniose visceral.

O caso tornou-se um símbolo do impacto que a doença ainda exerce sobre a população.


A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ENTRA EM CENA

É justamente diante dessa necessidade de acelerar diagnósticos que surge uma das pesquisas mais inovadoras financiadas pela FAPEPI.

Pesquisa apoiada pela FAPEPI auxilia no diagnóstico do calazarCoordenado pelo professor Romuere Rodrigues, da Universidade Federal do Piauí, o projeto busca utilizar inteligência artificial para auxiliar a identificação da leishmaniose visceral em imagens microscópicas.

A proposta lembra, em essência, o trabalho desenvolvido por Niède Guidon.

Se a arqueóloga treinou gerações para identificar vestígios milenares escondidos em sítios arqueológicos, os pesquisadores treinam algoritmos para localizar parasitos invisíveis em lâminas laboratoriais.

O material é colocado em uma lâmina e analisado no microscópio por especialistas. Uma lâmina gera uma grande quantidade de imagens, o que queremos é facilitar o trabalho de quem vai analisar a lâmina.

A tecnologia utiliza visão computacional, redes neurais e aprendizado de máquina.

A pesquisa está dividida, basicamente, em duas etapas: Detectar quais campos das lâminas possuem Leishmaniose, no processo de classificação de imagens; e nestas lâminas que possuem Leishmaniose, realizar a contagem da quantidade de parasitos, no processo de segmentação e contagem.

Os resultados são extraordinários: As redes neurais utilizadas já alcançam índices de acurácia próximos de 99%.

Em outras palavras, a máquina está aprendendo a identificar a doença com precisão semelhante à de especialistas experientes.


O CIATEN E A CIÊNCIA VOLTADA PARA OS MAIS POBRES

A pesquisa de Romuere integra um movimento mais amplo liderado pelo CIATEN. O centro reúne pesquisadores de diferentes áreas para estudar doenças negligenciadas, arboviroses, tuberculose, hanseníase, raiva humana e outros agravos que afetam populações vulneráveis.

Segundo Carlos Henrique Nery Costa:

Embora ainda muito jovem, o CIATEN já demonstra maturidade ao abordar um conjunto amplo de processos, articulando conhecimento científico e métodos voltados para doenças que acometem as populações mais vulneráveis e mais pobres.

O pesquisador faz uma reflexão que ajuda a compreender a importância estratégica dessas iniciativas.

Entre elas estamos nós, habitantes dos trópicos, região mais pobre do mundo, vivendo em um país de renda média alta, mas em um estado particularmente pobre. Essas doenças permanecem entre nós e seguem causando impacto significativo na saúde da população.

Em 2025, o centro promoveu seminários, capacitações e eventos que alcançaram milhares de pessoas, incluindo um Seminário de Inteligência Artificial Aplicada à Saúde que reuniu 370 inscritos.


O LEGADO DE NIÈDE E O FUTURO DA CIÊNCIA PIAUIENSE

Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial 

Há uma poderosa simbologia nessa trajetória. Foi na Serra da Capivara que o Piauí ajudou a reescrever a história da humanidade.

Agora, é no combate à leishmaniose que o estado demonstra novamente sua capacidade de produzir ciência relevante para o Brasil. Assim como Niède Guidon mostrou ao mundo que grandes descobertas podem surgir longe dos grandes centros científicos, pesquisadores piauienses demonstram que a inteligência artificial, a medicina tropical e a inovação tecnológica também podem florescer no semiárido nordestino.

Quarenta anos atrás, o combate ao calazar era marcado pelo medo, pelo desconhecimento e pelo sacrifício de milhares de cães. Hoje, a resposta vem dos laboratórios, das universidades, da pesquisa financiada pela FAPEPI e do conhecimento construído por gerações de cientistas. 

Dos sítios arqueológicos da Serra da Capivara aos algoritmos capazes de identificar parasitos microscópicos, existe um mesmo fio condutor: A ciência. A mesma ciência que permitiu compreender o passado. E que agora ajuda a proteger o futuro.