LEVANTAMENTO

PISA 2025: Brasil avança no longo prazo, mas desigualdade e matemática expõem desafios para a educação

A avaliação considera estudantes de 15 anos e, nesta edição, reuniu cerca de 760 mil participantes de 91 países e economias. No Brasil, foram 30.140 estudantes, majoritariamente matriculados na rede estadual e no ensino médio.

Imagem principal sobre energias renováveis no Brasil
Resultados do PISA apontam para os desafios que o Brasil ainda enfrenta. | Foto: Agência Brasil

Os resultados do PISA 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apresentam um retrato contraditório da educação brasileira. De um lado, o país melhorou sua proficiência nas três áreas tradicionais avaliadas em relação a 2006 e reduziu a distância para a média dos países da OCDE. De outro, o desempenho permanece baixo e marcado por profundas desigualdades.

A avaliação considera estudantes de 15 anos e, nesta edição, reuniu cerca de 760 mil participantes de 91 países e economias. No Brasil, foram 30.140 estudantes, majoritariamente matriculados na rede estadual e no ensino médio.

Os brasileiros alcançaram 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. Na comparação com 2022, entretanto, as três áreas permaneceram estatisticamente estáveis.

Ricardo Henriques analisa os dados (Foto: Reprodução)

Para Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, o principal desafio colocado pelos números vai além da posição brasileira no ranking internacional.

"O PISA 2025 sugere um paradoxo do nosso tempo: nunca tivemos tanta tecnologia disponível e nunca foi tão importante saber ler profundamente, interpretar evidências, resolver problemas e formar julgamentos próprios. Só que essas competências estão se deteriorando em muitos países. O Brasil enfrenta esse mesmo desafio, mas parte de uma situação muito desigual. Sete em cada dez jovens não alcançaram sequer o nível básico em matemática. E na última década, os estudantes mais vulneráveis ficaram estagnados, enquanto os mais favorecidos avançaram. A questão que o PISA coloca para nós não é simplesmente como disputar posições em um ranking, mas principalmente se seremos capazes de preparar todos os jovens brasileiros, e não apenas alguns, para um mundo que está se tornando muito mais exigente cognitivamente."

MATEMÁTICA É O PONTO MAIS SENSÍVEL

Entre os três componentes tradicionais, Matemática concentra o cenário mais preocupante. Com 377 pontos, o Brasil aparece em 71º lugar entre os 89 países com dados disponíveis para a disciplina.

O resultado deixa o país atrás de seis vizinhos latino-americanos: Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru e Colômbia. Argentina, Equador, El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Guatemala ficaram abaixo do Brasil.

O problema não está apenas na comparação internacional. Sete em cada dez jovens brasileiros não atingiram o nível básico de proficiência em Matemática, segundo a análise apresentada por Henriques.

O quadro também revela uma dimensão social. Na última década, os estudantes em situação de maior vulnerabilidade permaneceram praticamente estagnados, enquanto aqueles em melhores condições socioeconômicas avançaram.

Brasil avança, mas segue nas últimas posições (Foto: Agência Brasil)

DISTÂNCIA PARA A OCDE DIMINUI

Apesar dos baixos resultados, o país conseguiu reduzir a diferença em relação à média da OCDE desde 2006. Em Leitura, a distância caiu de 102 para 58 pontos. Em Matemática, passou de 131 para 92 pontos. Já em Ciências, recuou de 113 para 77 pontos.

Na avaliação de 2025, Ciências foi o domínio principal, recebendo maior quantidade de itens. O Brasil alcançou 409 pontos e ficou em 67º lugar entre 90 países com resultado disponível.

Em Leitura, foram 408 pontos, colocando o país na 52ª posição entre 89 participantes. A nota ficou dois pontos abaixo da registrada em 2022, mas a variação não é considerada estatisticamente significativa.

QUALIDADE E DESIGUALDADE

Para Henriques, os resultados reforçam que o debate sobre aprendizagem não pode ser separado da discussão sobre desigualdade social.

"O PISA mostra que desigualdade e qualidade não são agendas separadas. No Brasil, nós temos um problema duplo: aprendemos pouco, em média, e a origem socioeconômica continua tendo um peso muito grande sobre as oportunidades educacionais. O objetivo não pode ser apenas reduzir a distância entre os estudantes. Precisamos fazer isso elevando a aprendizagem de todos e fazendo avançar mais rapidamente quem está atrás."

O especialista destaca que experiências internacionais demonstram ser possível combinar melhoria da aprendizagem e redução das desigualdades, sem tratar as duas metas como escolhas incompatíveis.

"Há países que conseguiram reduzir o baixo desempenho e, ao mesmo tempo, ampliar a aprendizagem, mostrando que não precisamos escolher entre equidade e qualidade. Isso significa que política pública, qualidade da escola e capacidade de gestão importam. A função da educação pública é justamente ampliar aquilo que uma criança pode alcançar, independentemente da família, da renda ou do território em que nasceu."

UM SINAL POSITIVO: OS JOVENS AINDA ACREDITAM NA ESCOLA

Em meio aos indicadores negativos, o PISA 2025 apresenta um dado que, para Henriques, merece atenção especial: a percepção dos próprios estudantes sobre a escola continua relativamente positiva.

No Brasil, 16% dos alunos disseram considerar a escola uma perda de tempo, contra 24% na média da OCDE. O percentual brasileiro também caiu 6,9 pontos entre 2022 e 2025.

A valorização da escola aparece associada ao desempenho. Os estudantes brasileiros que reconhecem a importância da educação e não consideram a escola uma perda de tempo tiveram, em média, 35 pontos a mais em Ciências. Na média da OCDE, a diferença foi de 27 pontos.

Henriques considera esse vínculo um dos ativos mais importantes revelados pela avaliação.

"Somente 16% dos estudantes brasileiros dizem que a escola tem sido uma perda de tempo, contra 24% na OCDE. E esse percentual caiu 6.9 pontos entre 2022 e 2025. Há uma notícia importante no PISA que não deveríamos perder: apesar de todos os problemas, os jovens ainda atribuem valor à escola. Isso é um ativo extraordinário, quanto mais neste momento da história do mundo. Nossa responsabilidade é transformar essa confiança dos estudantes em aprendizagem e oportunidades reais."

TECNOLOGIA NÃO SUBSTITUI PROFESSOR

Outra novidade do PISA 2025 foi a inclusão de Aprendizagem no Mundo Digital, que avalia a capacidade dos estudantes de resolver problemas utilizando ferramentas computacionais e, posteriormente, aspectos relacionados à aprendizagem autorregulada.

Na primeira parte divulgada, o Brasil obteve 406 pontos em resolução de problemas por meio de ferramentas computacionais, contra uma média de 500 pontos entre os países da OCDE. A Coreia do Sul liderou essa comparação, com 538 pontos.

O resultado coloca em evidência um dilema: a expansão do acesso à tecnologia não garante, por si só, uma transformação da aprendizagem.

"A transformação digital da educação não se resolve apenas colocando equipamentos na escola. O PISA mostra que o Brasil está entre os países em que menos diretores escolares reconhecem que seus professores têm as competências necessárias para integrar a tecnologia ao ensino. É um dado especialmente importante neste momento em que o Conselho Nacional de Educação acaba de estabelecer diretrizes para o uso da inteligência artificial na educação e reforça a necessidade de formação dos professores para um uso crítico, ético e pedagogicamente qualificado dessas ferramentas."

Para o superintendente, a prioridade deve estar na preparação dos profissionais que irão utilizar essas ferramentas.

"A agenda digital precisa começar pelas pessoas. Isso é crucial: formação docente, condições de trabalho e capacidade das escolas de incorporar a tecnologia a serviço da aprendizagem. Pessoas e tecnologia integradas a serviço da aprendizagem."

EDUCAÇÃO CLIMÁTICA

A preocupação ambiental também ganhou espaço na edição de 2025. Os questionários aplicados aos estudantes indicaram elevado grau de disposição dos jovens brasileiros para participar de ações relacionadas à sustentabilidade.

No país, 84% afirmaram acreditar que podem produzir impactos positivos no meio ambiente; 87% disseram confiar na ação coletiva para enfrentar desafios ambientais; e 77% declararam saber trabalhar em grupo para promover mudanças positivas.

Outro dado chama atenção: 67% dos estudantes brasileiros gostariam de contribuir para a proteção ambiental em suas futuras carreiras, percentual superior aos 62% registrados na média da OCDE.

Para Henriques, esses números mostram que existe mobilização entre os jovens, mas a escola ainda precisa ampliar a preparação para que essa disposição se transforme em conhecimento e atuação concreta.

"Os jovens brasileiros querem participar da transição ambiental, mas ainda não estamos lhes oferecendo todo o conhecimento e oportunidades necessários para fazê-lo. Temos uma geração mobilizada diante da crise climática, mas apenas metade alcança o nível básico de proficiência em ciências ambientais. Educação climática precisa deixar de ser periférica. Ela é formação para a cidadania e para o mundo do trabalho."

O DESAFIO DE PREPARAR PARA UM NOVO MUNDO

Os resultados do PISA 2025 revelam, portanto, uma educação brasileira que avançou em uma perspectiva histórica, mas ainda não conseguiu superar gargalos estruturais de aprendizagem.

O país reduziu a distância em relação à OCDE desde 2006 e apresenta estabilidade recente, inclusive depois dos impactos provocados pela pandemia. Ao mesmo tempo, a baixa proficiência em Matemática, a desigualdade socioeconômica e a dificuldade de preparar professores e estudantes para o ambiente digital permanecem como obstáculos.

O desafio se torna ainda maior diante de um mundo no qual inteligência artificial, mudanças climáticas e novas exigências profissionais passam a fazer parte do cotidiano.