Geração prateada

Depois dos 50: uma geração que trabalha, empreende, consome e recomeça

Entenda como os idosos estão contribuindo para o mercado de trabalho e empreendedorismo no Piauí, com destaque para a classe de 50+.

Imagem principal sobre energias renováveis no Brasil
Idosos no mercado de trabalho e empreendedorismo no Piauí | Foto: Arquivo pessoal

O envelhecimento da população brasileira deixou de ser uma projeção para o futuro e já provoca mudanças na economia, no mercado de trabalho e nos hábitos de consumo. Com mais pessoas chegando aos 60, 70 e até 80 anos com autonomia, o país precisa adaptar políticas públicas, empresas e serviços a uma nova realidade: uma população que vive mais e que também quer continuar trabalhando, consumindo, estudando e realizando projetos.

No Piauí, essa transformação já pode ser percebida no comportamento do consumidor e na presença crescente de pessoas mais velhas no mercado de trabalho. A avaliação de especialistas é que o envelhecimento representa uma mudança estrutural na economia, com crescimento da demanda por saúde, cuidados, serviços financeiros, lazer, educação, tecnologia e produtos adaptados.

De acordo com dados do IGBE, aproximadamente um em cada seis habitantes do Piauí já tem 60 anos ou mais. Esse cenário altera a circulação de renda e modifica o perfil do consumo. A economia passa a depender menos exclusivamente de famílias jovens e abre espaço para um mercado voltado à longevidade.

Dados do IBGE 2025

A consequência é uma nova configuração da chamada economia da longevidade. A renda proveniente de aposentadorias, pensões, trabalho e transferências previdenciárias movimenta setores que vão muito além da saúde. Alimentação, moradia, transporte, lazer, serviços financeiros, atividade física, turismo e educação continuada passam a integrar esse novo mercado.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), entre 2012 e 2024, aproximadamente 3,7 milhões de pessoas com 60 anos ou mais ingressaram na força de trabalho. Desse total, cerca de 3,5 milhões estavam empregadas, o que representa 95,6% das que entraram no mercado de trabalho nesse intervalo de 12 anos. Apenas 4,4% ainda buscavam uma ocupação, o que indica que, na maioria dos casos, os idosos tendem a acessar o mercado já com alguma oportunidade definida ou com maior direcionamento para a reinserção laboral. 

Em relação ao emprego, o número de idosos ocupados cresceu 68,9%, passando de 5,1 milhões em 2012 para 8,6 milhões em 2024 — um acréscimo de 3,5 milhões de pessoas. Desse total em 2024, 3,2 milhões (37,6%) eram mulheres e 5,4 milhões (62,4%) eram homens. A participação feminina, embora ainda inferior à masculina, tem aumentado ao longo dos anos: em 2012, as mulheres representavam apenas 33,8% dos idosos ocupados. 

UM NOVO CONSUMIDOR

O consumidor maduro também deixou de ser visto apenas como alguém que necessita de medicamentos ou assistência. Entre os 50+, existem perfis muito diferentes: pessoas aposentadas, empresários, profissionais liberais, trabalhadores que precisam complementar a renda e consumidores que continuam ativos e conectados.

Para Valdeci de Sousa Cavalcante, presidente da Federação do Comércio do Estado do Piauí (Fecomércio), o comércio já percebe essa transformação. Ele destaca que existe atualmente uma parcela expressiva da população com mais de 50 anos consumindo e que esse público possui, em muitos casos, poder aquisitivo, experiência e clareza sobre aquilo que deseja comprar. O próprio setor empresarial, segundo ele, já conta com trabalhadores acima dos 60 anos.

Valdeci Cavalcante, presidente da Fecomércio- arquivo pessoal

“Hoje temos uma faixa muito grande de pessoas 50+ consumindo. É quem mais consome no Piauí, tem um poder aquisitivo melhor e sabe o que quer, além de ter bom gosto por já ter passado por várias experiências ao longo da vida. Nas nossas empresas, temos muitos funcionários com mais de 50 anos. É um público apto a trabalhar em qualquer setor. O mercado está muito ativo para essas pessoas.”

A adaptação também começa a aparecer dentro das lojas. Espaços com mais conforto e atendimento direcionado são algumas das mudanças adotadas para receber esse público. “O comércio tem ampliado a atenção para esse público, pois os idosos têm vontade de andar bem arrumados. Sem contar que os filhos têm muita vontade de presentear os pais e os avós. As lojas têm se adaptado para oferecer um tratamento especial às pessoas idosas.”

Para ele, porém, ainda existe um longo caminho. O consumidor maduro não deve ser tratado como um grupo homogêneo. Renda, autonomia, condição de saúde, estilo de vida e familiaridade com a tecnologia são fatores que precisam ser considerados pelas empresas.

EXPERIÊNCIA QUE CONTINUA PRODUZINDO

A permanência de pessoas mais velhas no mercado de trabalho também passa a fazer parte dessa transformação. O presidente da Fecomércio, que tem 74 anos, afirma que a disposição para continuar trabalhando é uma realidade entre muitos empresários e profissionais liberais.

“Acredito que o Piauí está preparado para o momento de maior ocupação de idosos no mercado de trabalho. Já estamos acompanhando a evolução mundial. As pessoas mais velhas já estão conectadas à internet. Eu converso com as pessoas, e a maioria continua trabalhando. Eu mesmo tenho 74 anos de idade. Todos continuam produzindo.”

A permanência no mercado, entretanto, pode ter diferentes razões. Para algumas pessoas, significa necessidade de complementar a renda. Para outras, representa uma escolha, a preservação da autonomia ou simplesmente o desejo de continuar exercendo uma profissão.

O desafio para as empresas é transformar essa experiência em oportunidade, com funções mais flexíveis, atualização tecnológica, ergonomia e jornadas adequadas. “Muitos vão trabalhar até os 90 anos de idade, sem problema. A classe empresarial vai continuar ativa. Os profissionais liberais, como advogados, médicos e engenheiros, seguem trabalhando.”

EMPREENDEDORISMO SEM IDADE

Aos 56 anos, a empresária Elda Negreiros dos Santos Soares é um exemplo de quem construiu a própria trajetória profissional a partir do empreendedorismo. Moradora do bairro Saci, em Teresina, ela mantém uma produção de sorvetes e conta que começou a empreender ainda adolescente. A empresa atual foi criada quando ela tinha 22 anos. Mais de três décadas depois, o trabalho continua fazendo parte de seus planos.

Empreendedora Elda - arquivo pessoal

“Primeiro um sonho de vida, apesar da idade tenho uma mente sempre renovada, o que faz que meu corpo acompanhe o mesmo ritmo. Sonhar deve fazer parte da vida porque é o que nos move.”

Para Elda, empreender não está relacionado apenas à renda. O trabalho também representa realização pessoal e a possibilidade de contribuir com outras pessoas.  “As duas coisas. Fazer o que a gente gosta traz prazer e alegria à vida também. Poder contribuir com a sociedade, ajudar pessoas a construírem seus sonhos também.”

A empreendedora também deixa um conselho para quem deseja empreender, independente da idade. "Diria para acreditar no seu potencial. Não deixar as palavras negativas lhe influenciar. Sonhar sempre, ter foco, correr atrás com planejamento e lembrar que Deus lhe criou com habilidades que só precisam ser desenvolvidas. Você existe para um propósito lindo nessa terra. 

UM NOVO COMEÇO

Aos 55 anos, Neura Carmem Vieira Cavalcante também continua à frente de um empreendimento. A relação com o trabalho começou ainda aos 29 anos, inicialmente motivada pela necessidade de ampliar a renda familiar. Com o tempo, segundo ela, o empreendedorismo ganhou outro significado.

“Quando eu comecei eu tinha 29 anos né e a minha necessidade foi de uma renda familiar né e depois eu acabei descobrindo um propósito de empreender.”

Neura Carmem - arquivo pessoal

Hoje, o negócio é também um projeto de realização pessoal. Entre as habilidades acumuladas ao longo dos anos, ela destaca a resiliência, a capacidade de colocar a mão na massa, a busca por qualificação e inovação e o trabalho em equipe. Para outras mulheres que desejam empreender, a recomendação é unir preparação e planejamento.

“Recomendo que deve estar preparada mentalmente e fisicamente e o melhor de tudo: ter uma boa gestão com pessoas preparadas, além de estar se qualificando e acreditar na sua marca e no seu produto.”

VOLTAR A ESTUDAR DEPOIS DOS 50

A longevidade também está mudando a relação das pessoas maduras com a educação. Aos 56 anos, a professora aposentada Antonia Irani Soares Santana decidiu voltar para a sala de aula e cursar técnico em enfermagem. A decisão nasceu de uma experiência familiar: o período em que precisou cuidar da própria mãe, que permaneceu acamada por mais de um ano. A falta de profissionais para determinados cuidados despertou nela o interesse pela área da saúde.

“Voltei à sala de aula, pra fazer o curso de técnica em enfermagem (...) porque percebi que ainda posso ser útil, ou seja, ainda posso servir à minha Comunidade, à minha família. Eu voltei a estudar também, porque ainda me sinto muito jovem. Apesar dos 56 anos. Não me sinto velha.”

Irani Soares- arquivo pessoal

O retorno à escola trouxe ainda uma experiência simbólica: alguns dos colegas de sala haviam sido seus próprios alunos. “Eu me encontrei na sala de aula. Vários Colegas de classe, foram meus alunos, e isso me deixou muito feliz.”

O DESAFIO PARA O PODER PÚBLICO

A mudança demográfica também impõe responsabilidades ao Estado. A preparação para o envelhecimento não pode se limitar à ampliação de hospitais ou ao pagamento de aposentadorias.

Na avaliação do economista Márcio Braz, será necessário combinar atenção básica, prevenção, formação de profissionais, atendimento domiciliar, cidades acessíveis, transporte adequado, inclusão digital, habitação adaptada, proteção financeira e oportunidades de trabalho.

"O desafio é ainda maior em estados com população dispersa e forte presença rural, como o Piauí, onde o acesso a serviços especializados pode ser mais difícil fora dos grandes centros. O envelhecimento, portanto, precisa ser incorporado a diferentes áreas das políticas públicas, porque interfere simultaneamente na saúde, assistência social, mobilidade, educação, trabalho, habitação e planejamento urbano", afirmou.

Economista Márcio Braz- arquivo pessoal

MAIS QUE UMA QUESTÃO PREVIDENCIÁRIA

O envelhecimento da população coloca o Brasil diante de uma transformação que envolve muito mais do que aposentadoria. É uma mudança na forma como as pessoas trabalham, consomem, estudam, empreendem e participam da sociedade. No Piauí, essa realidade já está presente. Pessoas com mais de 50 e 60 anos continuam empreendendo, frequentando salas de aula, trabalhando e movimentando o comércio.

Para Márcio Braz, o Estado ainda precisa acelerar sua adaptação. “Parcialmente. A demografia está avançando mais rápido do que a adaptação econômica e institucional.”

A longevidade, entretanto, também representa uma oportunidade. Uma pessoa que chega aos 60 anos ainda pode ter décadas de vida pela frente, com novas decisões financeiras, profissionais e pessoais. Mais do que preparar a sociedade para uma população idosa, a transformação demográfica exige reconhecer que o futuro econômico também será construído por uma geração 50+ cada vez mais ativa, exigente e presente no mercado.