Quem olha para uma escola geralmente enxerga primeiro alunos, professores, salas de aula e resultados. Nos bastidores, porém, existe uma figura responsável por articular boa parte do que acontece dentro e fora dos muros da unidade: o diretor escolar.
Ainda pouco retratado pela imprensa e pela própria pesquisa acadêmica, o diretor passou a ocupar o centro de uma discussão sobre liderança escolar, gestão, formação e qualidade da educação durante o 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca, realizado em São Paulo com apoio do Instituto Unibanco.
A oficina “Como o jornalismo pode contar melhores histórias sobre diretores escolares?” reuniu gestores e jornalistas para discutir como a cobertura pode ir além das crises, dos resultados excepcionais e das histórias individuais de superação.
Oficina contou com Carlos Eduardo Rodrigues (gestor Teresina/PI), Julianna Sampaio (Seduc/CE), Vagner Alencar (Agência Mural) e mediação de Mayara Penina (Instituto Unibanco). Entre os participantes estava Carlos Eduardo Rodrigues, diretor do CETI Raldir Cavalcante Bastos, escola de referência da rede pública do Piauí.
Para ele, a imprensa precisa mudar a forma de olhar para dentro das escolas.
“É preciso também olhar o meio, não só quem tem um resultado excepcional, do topo, ou quem fica com os piores resultados. Há muitas histórias de superação no meio.”
O ALUNO COMO PROTAGONISTA
A avaliação de Carlos Eduardo toca em uma questão central para a cobertura jornalística da educação: como contar histórias de escolas sem reduzi-las a rankings, notas ou casos extraordinários.
Para o diretor, existe uma grande quantidade de experiências cotidianas que permanecem invisíveis. São estudantes que avançam gradualmente, professores que desenvolvem novas estratégias, gestores que enfrentam problemas administrativos e comunidades escolares que encontram soluções para dificuldades específicas.
O desafio, segundo a discussão apresentada na oficina, é fazer com que a reportagem enxergue a escola como um ambiente complexo, no qual resultados educacionais são consequência de uma combinação de fatores.
Nesse cenário, o diretor aparece menos como personagem de uma crise e mais como elo entre estudantes, professores, famílias, comunidade e poder público.
PIAUÍ NO CENTRO DO DEBATE
A discussão ganhou uma dimensão particular com a experiência apresentada pelo diretor piauiense.
O CETI Raldir Cavalcante Bastos integra a rede de Escolas de Tempo Integral do Piauí, modelo que combina formação acadêmica e Educação Profissional.
O Estado vem ampliando a política de tempo integral e, segundo os dados apresentados no debate, alcançou nota 5,0 no Ideb 2025 para o ensino médio, acima da média nacional de 4,5. O resultado colocou o Piauí em 2º lugar nacional e 1º lugar entre os estados do Nordeste.
A nota também representa uma evolução em relação à série histórica: em 2005, o ensino médio piauiense registrava 2,9.
Na rede pública estadual, os indicadores apresentados apontam nota 6,1 nos anos iniciais, 5,2 nos anos finais do ensino fundamental e 4,9 no ensino médio.
O desempenho é associado pelo Estado, entre outros fatores, à expansão do ensino em tempo integral e da educação profissional, técnica e tecnológica.
QUEM ESCOLHE O DIRETOR?
Uma das mudanças identificadas pela pesquisa “Perfil dos(as) diretores(as) e desafios da gestão escolar nas redes estaduais de educação no Brasil”, elaborada a pedido do Instituto Unibanco, está justamente na forma de acesso ao cargo.
Entre 2019 e 2023, o percentual de diretores que chegaram à função por processo seletivo e eleição da comunidade escolar passou de 12,7% para 26,1%.
No sentido contrário, caiu o percentual daqueles que chegaram ao cargo exclusivamente por indicação da gestão: de 24% em 2019 para 20% em 2023.
QUEM SÃO OS DIRETORES?
A pesquisa também ajuda a desmontar a ideia de que existe um perfil único de diretor escolar.
Em 2023, 66,5% dos diretores das redes estaduais eram mulheres e 33,5% homens. Em 2011, a proporção era de 76,4% de mulheres e 23,6% de homens.
Também houve mudança na faixa etária. Em 2023, 50% dos diretores tinham 50 anos ou mais, enquanto 35% estavam na faixa entre 40 e 49 anos.
Na formação acadêmica, 38% eram graduados em Pedagogia e 55,2% tinham formação em outras áreas da educação, como História, Matemática, Letras e Química.
Outro dado chama atenção: a formação específica em gestão escolar apresenta enorme diferença entre os estados.
Em 2023, o Piauí aparecia na faixa entre 90% e 100% dos diretores com curso de formação em gestão escolar concluído, segundo o levantamento.
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O DIRETOR QUE PRECISA SER GESTOR DE TUDO
A pesquisa também revela o tamanho da carga colocada sobre os gestores.
Durante a pandemia, em 2021, mais de 60% dos diretores em todas as regiões afirmaram trabalhar mais de 40 horas por semana.
As principais demandas envolviam atividades administrativas, gerenciamento de recursos financeiros e planejamento pedagógico.
Na prática, o diretor precisa lidar com merenda, segurança, manutenção predial, prestação de contas, professores, estudantes, famílias e planejamento educacional.
E ainda precisa estar preparado para situações inesperadas.
Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, chama atenção para o impacto provocado pelo retorno das aulas presenciais após a pandemia.
Segundo ele, a recomposição das aprendizagens, as dificuldades socioemocionais e os problemas de convivência aumentaram a pressão sobre os gestores.
Pesquisa do Instituto Unibanco detalhou os desafios dos diretores escolares
QUANDO FALTA PROFESSOR, QUEM ASSUME?
Um dos exemplos mais concretos da sobrecarga está na ausência de professores.
Quando um docente falta, a escola precisa encontrar uma solução para que os estudantes não fiquem sem aula. Em determinadas situações, o próprio diretor pode acabar assumindo a turma, interrompendo outras tarefas administrativ
O problema se torna ainda maior em escolas com muitas turmas e sucessivas ausências no mesmo dia.
O diretor, nesse cenário, deixa de administrar a escola para apagar incêndios dentro dela.
RECURSOS E PESSOAL
Outro ponto destacado pelo levantamento é a percepção de insuficiência de recursos financeiros e profissionais.
Desde 2015, segundo a pesquisa, há uma percepção generalizada entre os diretores de que os recursos disponíveis não são suficientes para evitar impactos no funcionamento das escolas.
Em todas as regiões analisadas, menos de 50% dos diretores afirmaram que recursos e pessoal eram suficientes.
A situação interfere diretamente na capacidade de planejamento dos gestores e ajuda a explicar por que uma parcela significativa do trabalho da direção acaba sendo consumida por problemas operacionais.
UM CARGO AINDA POUCO ESTUDADO
Apesar de ocupar a posição mais alta dentro da estrutura de uma escola, o diretor ainda é pouco estudado quando comparado a professores e estudantes.
Os gestores são frequentemente classificados como “burocratas de médio escalão”, uma posição intermediária entre a administração das redes de ensino e a atuação direta em sala de aula.
O resultado é um paradoxo: o diretor tem responsabilidade decisiva sobre o funcionamento da escola, mas ainda existe pouca produção de conhecimento sobre quem são esses profissionais, como chegam ao cargo e quais condições encontram para exercê-lo.
O QUE A IMPRENSA AINDA NÃO CONTA
É justamente nesse ponto que a discussão entre jornalistas e gestores ganha relevância.
A cobertura educacional frequentemente aparece associada a greves, violência, falta de professores, rankings, resultados de avaliações ou casos de grande repercussão.
Esses temas são importantes, mas não necessariamente revelam como uma escola funciona no cotidiano.
A experiência apresentada por Carlos Eduardo propõe outro caminho: olhar para os estudantes que estão no meio das estatísticas, os professores que encontram soluções, os gestores que enfrentam problemas cotidianos e as comunidades que constroem respostas próprias.
É nesse espaço entre o melhor e o pior resultado que existe uma parcela significativa das histórias da educação brasileira.